“Enfim, imperatriz”, de Maria Fernanda Elias, apresenta olhares femininos para as dores do gênero

Crédito: Pedro Abude

Por Ney Anderson

Enfim, imperatriz (Editora Patuá), livro de contos de Maria Fernanda Elias Maglio, vencedor do Prêmio Jabuti do ano passado,apresenta 17 narrativas conduzidas pelo olhar feminino. “Dezembro de deserção” mostra a paixão de duas jovens do interior, sendo que uma delas resolve conhecer o mundo, enquanto a outra espera pelo retorno. “Terra alagada de sangue”, um dos contos mais fortes do livro, as pessoas são mortas, têm a cabeça decapitada, ao completar 45 anos. Narrativa totalmente angustiante, com descrições cruéis dos assassinatos. Tudo por conta de uma tradição local, que termina de forma totalmente fantasiosa.

“Flor azul” é sobre a mãe de um menino morto, que de forma metafórica mistura a lembrança da perda do filho com o cuidado dela com as plantas, de uma forma quase fabular.  “Viva em Maputo” é sob a perspectiva de uma frentista que se depara com a matéria do jornal, onde está estampado a morte de mais uma mulher. Ela também sofre abusos constantes do patrão. Neste texto existe um incrível trabalho de empatia, quando ela se coloca no lugar da outra assassinada, quase sentindo as mesmas dores da violência sexual. No final acaba se defendendo do possível estupro que aconteceria no local de trabalho, dando fim a ameaça. A personagem deste conto não é apenas ela. Representa todas, como afirma no trecho final. “Se eu estava viva, ela não estava morta. Poderia se levantar no sono cinza do jornal e desencardir o sangue do vestido vermelho. Viva em Maputo. Eu era ela. Ela era eu”.

“Tempo de coração arrebentado” já demonstra a tristeza no título. Um morador de rua tem a paixão secreta por uma velha vendedora de tapiocas que sempre lhe dá algo para se alimentar. Mas de repente ela morre. O homem descobre a casa onde ela morava e imagina que o seu destino poderia ter sido ao lado da falecida. Ainda que a mulher não seja a narradora ou protagonista, é a figura feminina que conduz a trama. Em “Ventre alheio” uma mulher idosa viveu para cuidar dos filhos dos outros, sem nunca ter tido a felicidade de ser mãe. “Vida miserável, de útero infértil e seios esturricados. Ninando bebês que não eram seus, que nunca seriam seus. Um arremedo de mãe, um simulacro de maternidade”.

“A filha de Teresa” as passagens são doloridas, ela é alguém em eterno sofrimento. Teresa dá a luz a uma menina dentro da prisão, mas tem medo de perde-la, já que está cumprindo pena. A menina, no entanto, surge como a salvação para a vida errante da mãe. Em “Geni” as descrições são diretas e de efeito imediato. A personagem é prostituta, mas não atende no mês de dezembro, por ser época do nascimento de Cristo. Por isso causa a revolta da população quando não decide atender uma importante pessoa, que pode investir na região. Ela é agredida de todas as formas e tem a casa destruída. Eles não aceitam o momento de devoção e santidade vindo de uma mulher daquelas, mesmo todos usando e abusando do corpo dela o ano inteiro.

No conto “Olhos executados” acompanhamos o tormento do policial depois de presenciar uma injeção liberada pelo governo que torna assassinos em pessoas sem sentimentos, quase zumbis servis. Ele não esquece a primeira vez que viu quando aplicaram o medicamento no homem que matou a mulher e os filhos de maneira bárbara, que acaba entrando num limbo de salvação, sem remorsos ou culpas. O policial só encontra a paz quando decide por um desfecho inesperado. “Botões coloridos e soldadinhos de chumbo” é a voz de um menino de oito anos que dita a relação conflituosa dele com o pai, por ser, na visão do outro, afeminado.

O que mais chama atenção no Enfim, imperatriz é o cuidado com as palavras. O livro de Maria Fernanda incomoda desde a primeira linha. Não um incômodo físico, claro, mas o sensorial, que reside justamente na força interna das histórias que ela apresenta. Porque tudo parece muito simples, com enredos que não fogem ao tradicional. Até nos darmos conta de que essa aparente simplicidade é, na verdade, algo que serve para realçar a ideia extrema da realidade pesada, principalmente para as mulheres. A tão falada verossimilhança, mas em dimensão maior, que apenas a ficção pode dar.

É uma obra conduzida pela narração feminina, são protagonistas que carregam dilemas específicos do gênero. Como a presidiária que dá a luz mais uma vez e tem medo que a recém-nascida seja enviada para adoção, igual os outros os filhos que ela teve. Ou a personagem do conto que intitula o livro, que é infértil. Tem também a mulher que viveu para servir, trabalhando como babá e empregada doméstica, até se tornar uma idosa e ser descartada, mesmo a patroa dizendo sentir pena, já que ela é como “se fosse da família”, oferecendo uma casa de repouso como última morada.

Alguns contos são ágeis, outros não, o que causa certo enfado em determinadas partes. No entanto, mesmo os contos que não têm tanto vigor oferecem ao leitor o olhar de mulheres que não estão em situações privilegiadas.  É um livro que não engata de primeira, mas vai envolvendo de tal forma que fica difícil sair da leitura. Os contos de Maria Fernanda Elias carregam a leveza na estrutura narrativa para apresentar histórias muitas vezes pesadas, de crueldade latente, que jorra sofrimento, como no conto “Terra alagada de sangue”, mas também textos com pegada dramática como em “Tempo de coração arrebatado”, quase dando para sentir o amor (a dor) não concretizado do narrador.

Digamos que “Enfim, imperatriz”, para usar uma metáfora, é como um rio que vai tecendo o seu curso de maneira calma em alguns pontos e violentas, de correnteza forte, em outros. Com o aditivo das paisagens deslumbrantes, secretas, mas sempre com algum mistério totalmente inacessível e impossível de compreender.

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