Editora José Olympio relança “O caminho de Los Angeles”, primeiro romance escrito por John Fante

Por Ney Anderson

No ano que marca os 110 anos do nascimento de John Fante, a editora José Olympio faz a reedição do primeiro romance do autor, O caminho de Los Angeles, que começou a ser escrito no começo da década de 1930 e concluído em 1935, mas publicado apenas em 1985, um ano após a morte do autor. A obra traz as desventuras do personagem mais conhecido de Fante, Arturo Bandini, vivendo numa minúscula casa com a mãe e a irmã, tendo que trabalhar em locais que ele detesta para sustentar sozinho a família depois da morte do pai.

O personagem muda constantemente de emprego, porque nenhum deles lhe dá a possibilidade de fazer o que gosta: escrever. Embora seja algo que inevitavelmente lhe sirva de combustível para a futura ficção, Bandini se protege da vida que leva, dos subempregos que pagam pouco dinheiro, lendo autores inacessíveis para a maioria das pessoas ao seu redor, como Schopenhauer, Nietzsche, Kante, Spengler, Strachey, entre outros. Essas leituras se traduzem na fala rebuscada do jovem para impressionar os ouvintes. Ele, dessa forma, vai criando uma carapaça que ajuda a sair um pouco da realidade e, por isso mesmo, mantendo a sanidade. Até conseguir um emprego fixo numa fábrica de enlatados de peixe, trabalhando exaustivamente o dia inteiro, recebendo 25 centavos por hora, que corresponde a quinze dólares por semana.

“Eu nunca tinha muito dinheiro. O máximo que tive numa ocasião foi 50 dólares”. Mesmo nessas condições ele se acha alguém superior. Tem a personalidade arrogante e pedante, sobretudo para os familiares. Os colegas, no entanto, acham o jeito de Arturo engraçado. Em determinado momento o jovem fala que está ali apenas por juntar material para o próximo livro que está escrevendo, sobre as indústrias pesqueiras da Califórnia.

Bandini, que também é filho de imigrantes italianos, tenta preservar, segundo ele, a santidade da mente, lendo bastante as obras emprestadas pela biblioteca pública. “Para me inspirar, para tornar minha vida sublime”, diz. “Todos os livros que eu tinha lido ganhavam vida ao mesmo tempo e eu via melhor as pessoas a partir de livros”.

O caminho de Los Angeles ainda não tem a aura totalmente depressiva dos outros trabalhos do autor. Bandini aqui ainda é um sonhador, tem a cabeça fresca e disposto a enfrentar qualquer coisa para conquistar o objetivo. Mas o choque de realidade, com as dificuldades que ele passa na fábrica de enlatados de peixe, acaba tirando dele o deslumbre. O texto transborda emoção porque é muito carregado de vida. A psicologia tão bem esmiuçada do personagem faz deste romance o melhor que a ficção pode criar. “Sentia fome, sem apetite, mas não podia pensar em comida. Ainda tinha de encarar de novo os rapazes da turma de rotulagem. Eu odiava tanto que aquilo me causava náuseas. Odiava cada um deles e as roupas que usavam e tudo em relação a eles”.

“Dormindo ou acordado, não importava, eu odiava a fábrica de enlatados e sempre cheirava como uma cesta de cavalinhas. Aquilo nunca me deixava, aquele fedor de cavalo morto à beira da estrada. Seguia-me pelas ruas. Entrava comigo nos edifícios. Quando eu rastejava para cama à noite, lá estava ele, como um cobertor, me envolvendo todo. E em meus sonhos havia peixes, peixes, peixes, cavalinhas coleando numa piscina negra, e eu amarrado a um tronco e sendo colocado dentro da piscina. Impregnava minha comida e minhas roupas, sentia até o seu gosto da minha escova de dentes”.

Fante esmiúça com descrições atentas o entorno degradante do protagonista e as pessoas que fazem parte dele, principalmente a situação dos imigrantes. Arturo tem pensamentos também feminicidas, pensa em acabar com as mulheres, porque elas atrasam o mundo, de acordo com ele. É um pensamento, no entanto, totalmente contraditório, porque ele também se vê flertando com algumas garotas, mas nenhuma delas lhe interessa realmente. Se satisfaz com revistas de pornografia que guarda em casa, imaginando estar presente em situações românticas.

É fácil compreender porque este livro só foi lançado muito tempo depois de escrito. Por tocar em questões delicadas, como a subutilização de imigrantes em trabalhos degradantes e as atitudes racistas, xenófobas e machistas do protagonista. E uma forte crítica a burguesia da época. Mas tudo isso que Arturo diz é apenas defesa, inclusive quando ele faz comentários depreciativos contra os negros e os imigrantes, porque ele também é agredido pelos outros. Existe ainda o aspecto contra religioso, porque Arturo se diz ateu. Sua única crença é na literatura. Não é fácil administrar a convivência familiar, já que a mãe e a irmã são cristãs fervorosas, com as quais ele tem péssima relação. “Estou ficando cansado de ser um burro de carga para um par de fêmeas parasitas”.

O jovem rechaça qualquer ideia católica, mesmo ele tendo uma base na igreja, na qual foi batizado, fez a primeira comunhão e o Crisma. Até nisso existe a contradição de alguém que está tentando se entender no mundo. “Pus-me de joelhos, fechei os olhos e tentei pensar em palavras de oração. Palavras de oração eram um tipo diferente de palavras. Nunca percebi até aquele momento. Então fiquei sabendo da diferença”.

Os conflitos dentro de casa não são poucos, ele chega a agredir a própria irmã em uma discussão, mas sabe que ali está o único local de proteção contra o resto. “Imediatamente me dei conta de que o que disse sobre minha mãe ser o único amigo que tinha em todo o mundo era verdade”.

Neste romance, Arturo Bandini é uma espécie de gênio incompreendido, ainda em formação, que alcança o ápice da sua busca, claro, com Pergunte ao Pó. NO caminho de Los Angeles o alter ego de Fante, que nessa história é mais velho do que o personagem retratado em Espere a primavera, Bandini, cronologicamente o primeiro do “Quarteto Bandini”, junto com Sonhos de Bunker Hill, além do já citado Pergunte ao Pó, se vê rodeado pela mesma pobreza e dificuldades das outras narrativas. “Ser escritor não trazia nenhuma satisfação. No ônibus, eu era reconhecido imediatamente, e no cinema também. É um daqueles rapazes de peixe enlatado”. Vivendo em uma cidade repleta de imigrantes, criminosos e sonhadores como ele. No cenário dos Estados Unidos no período de pós-quebra da bolsa de Nova York e que ainda enfrentaria uma guerra. O mar (e o cheiro dele) é praticamente um personagem secundário da trama.“Havia aquele cheiro do mar, a suavidade limpa e salgada do ar, a indiferença fria e cínica das estrelas, a intimidade súbita e sorridente das ruas, a opulência brônzea da luz da escuridão, o langar cintilante da meia-lua”.

Bandini passa a maior parte do tempo pensando em literatura, dinheiro e mulheres, porque ele diz que assim o tempo passa mais rápido. As ideias materializadas, no entanto, só aparecem no final do livro, com a criação que Bandini faz de um enredo e ideias de título para o romance que ele pretende escrever. Impulso da escrita que, afinal, toma conta dele. “Sentei-me e escrevi de novo. O lápis rastejou através da página. A página se encheu. Virei-a. O lápis se moveu, descendo. Outra página. Para cima de um lado e para baixo do outro. As páginas se empilharam. Pela janela vinha o nevoeiro, acanhado e frio. Logo o aposento se encheu. Continuei escrevendo”. Em outro trecho ele continua o impulso. “Naquela manhã, escapei do trabalho para o lavatório. Escrevi lá. As moscas eram incontáveis. Enxameavam sobre mim, rastejavam em minhas mãos e no papel”.

É de fato uma pessoa de imaginação fértil e com um olhar atento para os mínimos detalhes. O romance é envolto em uma simplicidade que evidencia um estilo refinado, com um aspecto otimista (mesmo com todo o pessimismo presente na rotina do personagem) que fica nas entrelinhas das dificuldades de Bandini. É um texto lírico ao extremo, que apresenta também o lado perverso do ser humano. Com muita dor, perda, inadequação e falta de pertencimento. “Todos os livros que eu tinha lido ganhavam vida ao mesmo tempo e eu via melhor as pessoas a partir de livros. Enquanto me vestia, pensava sobre os livros que tinha lido na noite anterior”.

O livro foi concluído quando John Fante tinha 23 anos, há quase noventa anos, mas é de leitura extremamente prazerosa e sem amarras linguísticas datadas. Tudo neste romance é perfeito, literariamente falando. Desde a ambientação da história, passando pelos pensamentos do personagem, a convivência com outras pessoas, os diálogos, os delírios e os sonhos dele se tornar escritor. Sobretudo nos momentos de loucura quando, por exemplo, ele segue uma mulher pelas ruas, tentando descobrir quem ela era, apenas por conta da sua curiosidade sem limites. É impossível ficar indiferente a Arturo. Porque Bandini é muito autêntico e o discurso dele é atual e ainda relevante, principalmente para aqueles que buscam encontrar a voz artística.

É um personagem que transborda vícios, pecados, melancolia e, por isso mesmo, gera empatia no leitor. Arturo Bandini é sempre comparado com Holden Caulfield, do Apanhador no Campo de Centeio, de J. D. Salinger, por mostrar um personagem em descoberta com o mundo, de maneira totalmente rebelde. A diferença entre os dois é que Arturo é marginalizado. Sua única tábua de salvação é a literatura e o foco é no próprio ser.

No Caminho de Los Angeles é como se o autor investigasse, ou tentasse compreender, como alguém que vem de uma situação totalmente vulnerável ainda consegue pensar em ser um escritor de sucesso. É justamente essa contradição do personagem (que também foi do autor) o alimento que o faz seguir, mesmo contra a vontade, porque é necessário para a sobrevivência dele. É na tentativa por se tornar um ficcionista profissional que o livro aproxima o leitor do lugar mais secreto da alma de Bandini. “Deixe suas lágrimas escorrerem, pois a sua é uma vida de luta, uma batalha amarga até o fim, e ninguém sabe disso a não ser você, ninguém, exceto você, um belo guerreiro que combate sozinho, inflexível, um grande herói como o mundo jamais conheceu outro igual”.

Fante, autor determinante para a carreira de Charles Bukowisk, bebeu da fonte do escritor irlandês Knut Hansum e o romance Fome, referência para Pergunte ao Pó, traduziu como poucos a ideia da criação literária a partir do sofrimento, das dificuldades e da vivência do artista, que alimenta a arte de uma forma muito mais verdadeira e visceral.

Os livros do autor despertam admiração porque o personagem Bandini não pretende simplesmente ficar rico ou famoso. Ele quer construir uma obra literária. Ponto. E ser reconhecido pela arte que produz. Mesmo que para isso acontecer acabe passando por situações degradantes, subumanas, em busca do único objetivo que o mantém vivo: escrever. O caminho de Los Angeles vai na gênese dessa busca, mostrando o pensamento do jovem ainda em conflito, sem saber qual rumo seguir. Mas ele vai seguindo mesmo assim. Enquanto lava pratos e carrega sacos pesados, fazendo um serviço extremamente braçal nas empresas do porto nos arredores de Los Angeles, a cabeça de Arturo voa para muito longe. E esse longe é justamente o local onde está, porque o que estamos lendo é a história deste personagem passando por essas dificuldades na vida.

O curioso, no entanto, é que se percebe o sentido de literatura pela literatura, da criação da arte, pulsando em cada página. Justamente porque a ficção do autor é trabalhada em uma escrita fina, prazerosa de ler e liberta de qualquer amarra, gerando identificação imediata em muitos leitores e também a aspirantes a escritores. O que Arturo Bandini passa não é distante das agruras de quem quer viver de escrever ficção em várias partes do mundo, especialmente os quem vêm das camadas menos favorecidas. Por isso que Charles Bukowsk ficou tão fascinado quando descobriu Fante. Ali o autor de Misto Quente, Hollywood, Pulp e tantas outras obras, se encontrou.

John Fante criou um personagem imortal, mesmo sendo essa afirmação quase um clichê, pois os personagens não morrem, estarão sempre lá nas páginas dos livros. Mas imortal no aspecto da compreensão do que é estar no mundo, com pensamentos muito claros sobre a busca da eternidade através de uma obra, nesse caso, literária. O que Bandini tenta conquistar é o seu elixir, mas também a sua maldição. É um modelo de obstinação, entretanto. Mesmo tudo jogando contra, ele luta pelo objetivo de se tornar escritor. E acaba sendo. A vida transfigurada em arte. É uma triste reflexão, necessária para a compreensão da busca de alguém pela criação. E tudo o que vem junto com essa escolha (para o bem e para o mal).

Fante não escreveu uma obra extensa e nem sempre é colocado no primeiro time de ficcionistas americanos. Ele foi um escritor que teve boas críticas no início da carreira, mas depois caiu no esquecimento, escrevendo por vários anos roteiros para Hollywood. Até Bukowisk ter contato com a sua obra-prima (na época fora de catálogo) e colocar o seu nome em evidência, por ver ali um artista absoluto e atemporal. Um apaixonado pela ficção. Tanto era, que mesmo com as duas pernas e um braço amputados, e de estar cego, por conta da diabetes descoberta em 1955, dita para a esposa o seu último romance, Sonhos de Bunker Hill, justamente o livro que finaliza o quarteto com o alter ego Arturo Bandini. Um gênio literário que não conseguiu ser reconhecido como grande escritor na maior parte da vida, só no final dela.

O seu estilo simples e direto influencia até hoje escritores do mundo inteiro, principalmente àqueles que optam pelo caminho da autoficção. John Fante tirou a literatura do pedestal e colocou mais perto da realidade. Mostrando as dificuldades reais de um artista que se ancora apenas nele mesmo para subverter a dura realidade que lhe assola. Os autores da Geração Beat, por exemplo, beberam muito do existencialismo criado por ele.

Se a literatura fosse uma religião, John Fante com certeza seria colocado como uma espécie de santo desgarrado, daqueles que todos sabem o poder, mas preferem deixá-lo à margem.

Tal qual uma missão divina, o desenvolvimento da sua santidade se deu através do famoso alter ego (criador e criatura), um anti-herói, que passeia por ruas desertas, locais sujos e inóspitos, com a mente totalmente aberta para personificar o seu maior desejo de ser o que sempre quis: um personagem inesquecível.

– Não se lembra de mim? – Diria com um sorriso.

– Não. Receio que não.

Ah. Então eu lhe contaria daquela visita que ela fizera à Companhia Pesqueira Soyo há muito anos. Como eu, um pobre rapaz branco entre aquele bando de mexicanos e filipinos ignorantes, ficara tão tomado por sua beleza que não ousara mostrar o meu rosto. Então eu daria uma risada.

– Mas é claro que sabe quem eu sou hoje.

Eu a conduziria até a sua estante, onde os meus próprios livro eram vistos entre poucos outros indispensáveis, como a Bíblia e o dicionário, e puxaria o meu livro Colosso do Destino, o livro que me dera o prêmio Nobel.

– Gostaria que o autografasse?

Então, com um arquejo de surpresa, ela saberia.

– Ora, você é Bandini, o famoso Arturo Bandini!

– Há, há – e eu riria de novo.

– Em carne e osso!

Que dia!Que triunfo!

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