“Glitter”, de Bruno Ribeiro, mostra o glamour bizarro das passarelas

Foto: Divulgação

Por Ney Anderson

Muito já se falou que o mundo da moda é cruel e desumano, principalmente para os modelos que estão em começo de carreira. Corpos perfeitos, cabelos sem falhas, expressões sérias de pessoas representando grandes marcas poderiam ser vistos como sinônimo de felicidade, realização pessoal e profissional. Mas por trás de roupas luxuosas (e extravagantes) assinadas por estilistas renomados que ditam tendência, pode estar algo perverso, que visa simplesmente o lucro acima de qualquer coisa. Alimentado, em grande medida, pelos sonhos de homens e mulheres jovens que buscam a fama e o sucesso imediato. Mesmo que para isso eles tenham que pagar com a própria vida. Literalmente. Como aconteceu com o modelo Tales Cotta Soares, que morreu na passarela quando desfilava na São Paulo Fashion Week em abril, enquanto os demais companheiros continuavam exibindo suas caras impassíveis, mostrando as novas coleções para um público igualmente indiferente com a tragédia.  

É exatamente esse tom bizarro a substância do romance Glitter (Editora Moinhos), do autor Bruno Ribeiro. Embora tenha escrito muito antes da morte de Tales, não é de se espantar que a coincidência não foi um simples acaso. Traçado por linhas insanas, o romance conta a história de vinte modelos que recebem a proposta do estilista Guilherme de Boaventura de ficarem por um ano presas em um shopping de classe média alta, vivendo 24 horas por dia no meio de marcas famosas, perfumes chiques, comidas saudáveis e todo o ambiente que elas estão acostumadas. Além disso, precisam escrever uma poesia autobiográfica que será lida durante o desfile, o La Poésie Vivant, patrocinado por grandes marcas, que farão no mesmo shopping depois do exílio para uma plateia seleta. Formada por familiares, pessoas importantes da área e a imprensa internacional.

As modelos foram escolhidas a dedo por serem problemáticas (traumatizadas pela vida), estarem afastadas da área e também potenciais suicidas. Todas têm questões mal resolvidas. São mulheres arruinadas, que chegaram ao estrelato e que caíram no ostracismo. A ideia de Guilherme de Boaventura é fazer o desfile que vai entrar para a história, não por conta da elegância, mas para mostrar ao mundo a futilidade da moda e o quanto ela pode ser corrosiva. Segundo a loucura do estilista, o La Poésie Vivant seria o momento máximo da destruição da indústria e reinvenção da moda. Com mulheres se submetendo ao sacrifício para entrarem na história e virarem lenda. Ele é alguém que diz: “o que devemos fazer é ferir a cabeça das pessoas. A morte é um cadáver que ri”.

Enquanto cada uma delas entra na passarela, transmitido ao vivo pela internet, Guilherme lê a poesia que elas escreveram. Textos que traduzem o sentimento de revolta com o mundo e o estado de confusão mental das modelos, que no momento do desfile estão ainda mais fragilizadas por conta da convivência nada harmoniosa no exílio do shopping. Seguido do ato final, quando elas se matam de todas as formas possíveis. Um matadouro artístico. O suicídio é uma espécie de salvação para as modelos, que veem na ação um sonho de eternidade.

“A menina engoliu veneno de rato e enfiou um consolo de 15 cm garganta abaixo. Morte metafórica: engoliu todos os traumas, apagando os estupros ritualísticos e as contas que ela tinha que pagar. Morreu sorrindo. Morreu com as plásticas em dia: ela está linda. Estava”.

O livro dimensiona a loucura através da futilidade do mundo fashion da indústria da moda, que só está preocupado exclusivamente com o mercado, o lado financeiro, e nada mais. Tendo os corpos dos modelos como simples cabides autodestrutíveis para a ânsia de animais irracionais que consomem a partir de estímulos capitalistas.

São três tempos narrativos que conduzem a trama. O desfile propriamente; a história de cada uma das mulheres; e o futuro da moda após a revolução do La Poésie Vivant. Um mundo onde o absurdo, o grotesco, não apenas é aceitável, como admirável.  Os capítulos são narrados por alguns personagens, como a übbermodel Eva de Castro, a modelo Lana Almeida, e Viddi Santhiago (assistente do estilista).

A passarela de Glitter é o local de autocomiseração e destruição. Pessoas da plateia também são atingidas. O evento se transforma num genocídio. É um livro radical, poderíamos dizer de terror. O leitor entra nas mentes perturbadas de mulheres que buscaram a fama, mesmo conseguindo por um período, mas que afundaram na decadência moral, tendo na destruição o mesmo ideal de glória através dos holofotes.

“Deodora acabou de desfilar. Arrebentou a cabeça, peito, perna, tronco, ombro e joelho de uns quinze da plateia. Houve um tumulto, pessoas querendo arrombar as portas, desejando fugir desse desfile que tudo para ser belo e tornara-se trágico como uma peça de Shakespeare”.

O trabalho ficcional que o autor propõe se mostra rico quando ele vai muito além do feijão com arroz dos enredos amarradinhos. Bruno Ribeiro mete o pé na porta e escancara o outro lado da história, das passarelas, que se mostra muito mais real do que a “belas” imagens criadas para um mundo cada vez mais irracional. Não apenas superficial. Amparados no padrão esquizofrênico da beleza. Pessoas aparentemente perfeitas, mas que só existem nas fotos e nos desfiles, pois tudo não passa de pura fantasia.

O romance mostra o quão corrosivo pode ser o mundo da moda. A beleza é um mero artifício criado pela indústria que retroalimenta egos destruídos e almas destroçadas. É um texto corrosivo, que não polpa nada. Assim como o livro anterior, este também é impactante. Se o livro anterior do autor, Febre de Enxofre, é febril e delirante, este é insano e perverso. E de certo modo alegórico, porque o exílio no shopping pode representar pessoas presas nos padrões pré-estabelecidos. No mundo sórdido onde todos fazem tudo (tudo mesmo) para alcançar o estrelato.

Glitter é um texto sem concessão. Um trabalho de ficção bastante relevante. Ainda mais para os tempos atuais. Por mostrar, sobretudo, a vingança de mulheres contra a sociedade que se regozija apenas no seu próprio prazer, criando monstros que se destroem. A violência é levada ao limite, mas não é apenas para chocar por chocar. Porque representa uma crítica forte ao mundo obsessivo da indústria da moda, onde as mulheres e homens que desfilam não passam de simples objetos. Meros manequins descartáveis que servem para a sobrevivência de um único Deus.

“A morte vende. Nossa revolução será tendência outo-inverno daqui alguns anos. E não é só a moda que está mudando, é o mundo como o conhecemos. O mercado capitalista em queda por causa do número de marcas que injetaram dinheiro no desfile. Todos estão em queda. Todos sendo devorados pela boca conjunta da loucura do glitter de Eva e o manifesto do Boaventura. Somos modelos e falamos. Ouçam o bang bang de Deodora. Ouçam Guilherme de Boaventura falar das marcas e do anticristo que fuzila os corações dessa plateia inerte. Dessa plateia sem escolhas. Vá dizer que você não sabia? A plateia, vocês, estão presos nesse desfile. Fechamos as portas, colocamos estagiários armados por perto de cada um de vocês, bloqueamos a saída de som. Imprensa, estilistas, modelos, curiosos, amantes da moda e colunistas sociais: todos estão presos conosco. Sendo obrigados a ver nossa performance visceral, o pulmão das modelos, a destruição da moda como conhecemos, o conceito de um estilista revoltado. Uma instalação feita de carne, ossos e vingança. Vá dizer que você não sabia? Nós vamos morrer e entrar na história. Vá dizer que você não sabia?”

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