Em “Sangrem os porcos, depenem os frangos”, Ivandro Menezes vai até o limite da crueldade humana

Por Ney Anderson

O escritor Ivandro Menezes lançou recentemente pela Editora Moinhos o livro de contos Sangrem os porcos, depenem os frangos, que é todo feito sobre a premissa da violência crua, tão bem metaforizada no título. São quinze contos não apenas curtos na forma (o livro tem 66 páginas), mas de efeitos rápidos, como um tiro em uma caça.  

No princípio”, mostra que o mal vem desde a gênese. Em “Felizes para sempre”, a morte covarde motivada por homofobia.  “Calango”, emula a realidade violenta entre polícia e bandido. “Frágeis tentativas de alcançar o ar”, lida com um caso extraconjugal e a violência que vai se revelando aos poucos. “Jacaré banguelas não assobiam canções de amor”, é sobre o jovem que não aceita o fim do relacionamento com a mulher, que é mais velha do que ele.

“Tomou um travesseiro nas mãos e empurrou contra o seu rosto. Sorriu ao ver seu corpo em espasmos, lutando para sobreviver, frágeis tentativas de alcançar o ar. Finalmente, o corpo sossega”.

“Não passe esse batem vermelho”, um conto de várias histórias de mulheres que de tanto sofrerem nas mãos dos companheiros decidem pôr um fim nas humilhações, se vingando de várias formas possíveis. A crueza narrativa no conto “Canção” impressiona pela forma que o casal é apresentado, mostrando a personalidade psicopata de ambos. “Matei as crianças”, diz a mulher com a mesma tranquilidade com que ela serve um pedaço de pudim ao marido.

 “Três meia zero”, entrecruza olhares através de acontecimentos que vão desencadeando outras situações, sobretudo em dois eventos. O primeiro quando uma moça se mata na frente da webcam e o rapaz se masturba e não vê a câmera do computador ligada online. Os dois casos servem de estímulo para os que os acompanham pela internet. Aliás, esse texto é muito bem montado.

“Para vidas simples não se erguem mausoléus” é a história um menino assassinado por ter ganho um prêmio no bingo. Narrativa triste e violenta.

“Rebelião” utiliza o fraseado popular de pessoas sem alfabetização para contar a história de um homem, pai de família, que de tanto ser agredido verbalmente, zombado e com a honra ferida, resolve cometer um crime. Em “Manequim”, um dos melhores contos, é narrado pelo fantasma de um jovem. Trata sobre o sentimento de perda, recomeço e existência.

“Fogo santo”, mostra uma mulher que depois de ser traída acaba enlouquecendo e se vingando do marido e da amante dele, também de forma extrema.  “Já te disse que mamãe era sádica?” é a mãe que maltrata os filhos e tem o prazer em bater neles.

“Levantou, botou água pra ferver e, enquanto o marido cochilava, a derramou sobre o rosto. Sara sorria ao ser algemada. Para ela, a prisão é sinônimo de liberdade”.

Um garoto sofre bullying por conta das orelhas grandes em “Topo Gigio”, que é o apelido que lhe dão. O livro encerra com “O homem faz o que é preciso”, e apresenta o personagem se transformando em travesti por causa do desemprego.

Os contos, na maioria em primeira pessoa, não têm o poder de sugestão das entrelinhas. Nada disso. Tudo está na superfície mesmo. O grotesco e a rapidez da violência são evidenciados já no título. Pessoas que saem da aparente normalidade e cometem atos cruéis. Os textos têm um aspecto bíblico sutilmente trabalhado no mal encrustado no próprio ser e no desabrochar da maldade.  

Com desfechos rápidos e trágicos de quem não pensa muito antes de atitudes extremas. Apenas cometem por impulso, revelando comportamentos agressivos nunca antes revelados. São textos com personagens sem humanidade, em situações repugnantes de natureza totalmente perversa e bárbara, mas de extremo realismo.  

As narrativas escritas por Ivandro Menezes não dão tempo para a respiração fluir calmamente. Pois tudo é muito veloz, brutal e seco. Só dá tempo para um esgar de repulsa e comiseração. Não poderia ser diferente.

Ao acompanhar os seres humanos sangrando como porcos abatidos e brutalizados como frangos depenados, o leitor entende que na ficção, assim como na vida, a violência não tem meio termo.

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