Raimundo Carrero lança novela-denúncia contra as intolerâncias sofridas pelas mulheres

Colégio de Freiras é o novo trabalho de ficção do autor pernambucano, que apresenta a personagem feminista Vânia, fundadora da Congregação das guerreiras de Daniel

Por Ney Anderson

Depois de quatro anos sem lançar livro novo, Raimundo Carrero volta com a novela Colégio de Freiras (Editora Iluminuras), um livro-denúncia sobre o tratamento cruel com as mulheres brasileiras. Conta a história de Vânia, que após perder a virgindade, sem ser casada, é enviada pelo pai para um convento no Recife, com regras rígidas de uma colônia penal. A jovem fica encarcerada por vinte anos, até conseguir fugir. Mas depois de encontrar refúgio em uma seita religiosa montada no centro da capital pernambucana, é encontrada pelo pai, doutor Vesúvio, e levada até o bordel que dá nome a novela. É lá que ela decide fundar uma congregação em defesa da mulher.

A história se passa nos anos 1960 e termina nos anos 1990. O nome Colégio de Freiras, anteriormente chamado de Convento Drinks, é uma ironia, porque a cidade vivia cheia de normalistas, e também para atrair a clientela religiosa, já que os arredores eram povoados de templos. O bordel, inclusive, foi batizado pelo bispo, que também era sócio, e a dona Quermesse (proprietária) assume ares de Madre Superiora do estabelecimento, que fica na Rua da Concórdia, no centro do Recife, onde Carrero gosta de ambientar os seus enredos.

O livro é divido em três partes: a fúria das garras; colônia penal; congregação das guerreiras de Daniel. Abre com a vida de Vânia sendo narrada por Milena, amiga de prostituição, que aliás é quem escreve todo o livro. As duas se conhecem desde cedo, na época da escola primária. Vânia sempre foi contestadora da moral e dos bons costumes, como afirma a narradora. O pai Vesúvio, homem rude e conservador, proíbe até a filha falar a palavra “minissaia”. Roupa que representou o confronto simbólico contra a repressão. Em determinado momento ela é brutalmente agredida pelo pai por simplesmente pronunciar o nome da peça de vestuário. Mesmo assim, Vânia não deixa de afrontá-lo. E a mãe não tem como reagir.

Na parte seguinte, durante a prisão no convento, a voz de Vânia assume o controle em primeira pessoa. E aí o leitor é levado por uma mente em estado permanente de confusão. O convento também é um local de repressão, ainda pior do que a própria casa, com o padre-confessor gritando com as encarceradas diariamente, chamando as mulheres de pecadoras. Um universo de castigos e orações para o esquecimento dos desejos pecaminosos. A personagem fica presa por duas décadas para “purificar a alma”. É um local onde as internas grávidas têm as crianças enviadas para casais sem filhos ou para instituições de caridade quase no exato instante do nascimento. São mulheres de desejos tolhidos, intolerados, que não podem nem amar os próprios filhos. Um lugar sem o direito ao embelezamento, proibindo até das jovens passarem as mãos pelo corpo e partes íntimas, sendo vigiadas por freiras o dia inteiro. “Cubra-se enquanto toma banho, entendeu? Vista a toalha se esquecerem o vestido”, diz uma das freiras para Vânia.

No convento recebem castigos frequentes, com as contestadoras ficando de braços abertos até o esgotamento físico, ocasionando a loucura em muitas delas. Ou então indo para solitárias por vários dias. Esses castigos são responsáveis pelos delírios que a protagonista tem, que vão moldando ainda mais a personalidade rebelde, até o ponto dela se achar um extraterreste, dizendo que encontrou o seu verdadeiro destino. “Combater as dores do mundo” junto com seres de outros planetas que vão invadir a terra para defender as moças ultrajadas. Isso logo depois de ler a bíblia intensamente, principalmente o Livro de Daniel, achando que muito em breve as meninas seriam abduzidas por extraterrestes para evitar injustiças terrenas. Enquanto que anjos vingadores atacariam pais e mais desnaturadas. “Sou a invenção de Abdon, sem carne nem sangue e, portanto, e ao meu modo, extraterreste. Não nascera em um ventre comum, e ganhei a forma de uma mulher para combater a injustiça”, diz.

Na terceira parte da obra ela consegue fugir depois que um incêndio consome o convento e encontra refúgio na igreja do profeta Jeremias (personagem de outras obras do autor), onde algum tempo depois é encontrada pelo pai e levada ao cabaré de dona Quermesse. É nesse lugar que ela decide fundar a Congregação das Guerreiras de Daniel (O profeta) para defender o direito ao amor e ao sexo. A proprietária, em confronto com Vesúvio, por ele achar o bordel um local rasteiro, da escória, rebate o homem, dizendo que sexo é humano, não é safadeza. “É um jeito também de enfrentar o mundo e de contestar as convenções”.

O paralelo do confinamento no convento e em seguida a vida no bordel são bastantes representativos. Enquanto o primeiro encarcera o corpo, e também tenta controlar a mente, o segundo é justamente o oposto. Embora ela também não se submeta só porque é uma prostituta. O corpo pode até servir aos desejos dos homens, ficando preso de certa forma, mas a mente dela está sempre solta, com ideias revolucionárias.

A história da personagem vai se entrecruzando, indo e voltando no tempo, aumentando cada vez mais a intensidade da narrativa, reforçando o poder da personagem. Porque mesmo com os abusos que sofre, Vânia é uma mulher forte, superior, e sabe muito bem a sua condição no mundo e o que ela representa. Apenas a amiga Milena a compreende, por isso resolve ouvir os relatos e escrever a história da outra, logo depois de assistir ao misterioso filme Blow-Up – Depois Daquele Beijo, de Michelangelo Antonioni, no luxuoso cinema São Luiz.

O pai Vesúvio é um homem rude, e a filha é proibida de até de falar a palavra “minissaia”, por exemplo. Roupa, aliás, que representou o confronto simbólico contra a repressão. Em determinado momento, ela é brutalmente agredida pelo pai por simplesmente pronunciar o nome da peça de roupa. Mesmo assim, Vânia não deixa de afrontar o pai. E a mãe não tem como reagir. Doutor Vesúvio, um poeta da moral e da família, a quem a filha diz ser uma besta humana, que precisava pular para ser escutado. Apesar de ser Ph.D em física e falar inglês.

Ela é, por assim dizer, uma militante política no sentido mais amplo do termo. Não por vestir a camisa de partidos, mas por levantar a bandeira por uma causa. Nesse caso, a feminista. Vânia é tão incomum que se acha de outro planeta. “Sou a invenção de Abdon, sem carne nem sangue e, portanto, e ao meu modo, extraterreste. Não nascera em um ventre comum, e ganhei a forma de uma mulher para combater a injustiça”, diz a protagonista. A rebeldia dela é a sua liberdade, que deixa evidenciado através do desprendimento do próprio corpo. Alguém realmente à frente do seu tempo. Uma líder. Em determinada cena, durante o 7 de setembro, ela chega com uma saia curta para desfilar. É recriminada imediatamente pela professora, mas não abaixa a cabeça e decide não mais fazer parte do espetáculo militar.  

A personagem parece carregar nas costas as dores de todas as mulheres, desde muito jovem. Vânia, na condição de prostituta, um ser de outro planeta (como ela acha que é), louca e mulher, enfrenta a ordem estabelecida de uma sociedade cheia de moral e ética, mas hipócrita na mesma medida

Colégio de Freiras, com bela capa da designer Hallina Beltrão, é um texto cheio de vida, com diálogos internos ainda mais viscerais. Uma prosa ao mesmo tempo elegante e potente para falar de mulheres martirizadas pela sociedade. Carrero criou uma personagem densa para discutir um assunto muito atual, que é a repressão sofrida pela mulher através do tempo. Mesmo se passando entre os anos 1960 e 1990, a novela infelizmente é atual, embalada em um lirismo que segura o leitor pela mão em capítulos curtos. Embora o tema seja pesado, de reflexão e análise comportamental, o texto é leve. O livro tem outra pegada, mesmo sendo claramente a ficção de Raimundo Carrero.

O escritor pernambucano, dessa forma, enriquece a sua fauna de personagens excluídos, sobretudo de mulheres fortes e representativas, como  Bernarda Soledade, Tia Guilhermina, Esther, Raquel, Camila e tantas outras do universo carreriano.

Com este livro, um dos melhores do autor, ele levanta mais uma peça da sua cátedra literária, reforçada com uma linguagem poderosa e de extrema sensibilidade. Nas páginas finais, por exemplo, o uso do futuro do pretérito representa a loucura da personagem, que entre frevos e maracatus segue a sua jornada evocando um cortante poema de Sylvia Plath. Nessa obra da maturidade, dedicado a Marielle Franco e a Lima Barreto, Raimundo Carrero prova que um texto de ficção não precisa (e não deve) ser apenas entretenimento pelo simples entretenimento. Nos trabalhos dele isso nunca aconteceu, na verdade. As denúncias e questionamentos, dos mais variados, sempre estiveram lá. Como tem feito desde a sua estreia em 1975, com Bernarda Soledade – a tigre do sertão, o autor colocou mais uma vez o dedo em uma ferida que está longe de cicatrizar.

Trecho do livro:

“Mulheres casadas que frequentam o Colégio de Freiras, vestidas de estudante, e que só comprometem a luta. Insuportável. Ao invés disso podiam demonstrar que a mulher tem um lugar importante na sociedade e que não servem apenas na cama, na cozinha e no banheiro, não são subjugadas ao sexo. Não é uma luta de fuzis nem de canhões. Passa, sobretudo, Milena, pela mudança dos costumes. É neste plano em que me situo, sutilmente. Daí a sua incompreensão. E de todas as outras pessoas. É assim que as mulheres vencem. Pela habilidade. Mudando de roupa. Este é o verdadeiro desafio; mudar o mundo como quem tira a roupa”.

Texto publicado originalmente (em versão reduzida) no jornal O Estado de S.Paulo, no dia 21/07/19.

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