Rosa Montero faz reflexão do luto por linhas firmes

Foto: Asís G. Ayerbe

Por Ney Anderson

Falar do luto não é tarefa das mais fáceis. Muitas vezes faltam palavras ou então elas entram em uma profusão de clichês e frases feitas. Não é absolutamente o que acontece com A ridícula ideia de nunca mais te ver, da escritora Rosa Montero, publicado originalmente em 2013, e recentemente lançado no Brasil pela editora Todavia.

O livro nasceu após a autora ter recebido um pedido para escrever algum texto a partir do diário de Marie Curie, uma cientista pioneira polonesa, radicada na França, que ganhou dois prêmios Nobel (Química e Física), numa época de forte repressão contra as mulheres. Marie tinha deixado um relato curto dedicado ao marido morto, o também brilhante cientista Pierre Curie. Foi então que Rosa se sentiu tocada a escrever algo maior, este livro, porque também havia perdido o marido Pablo há pouco tempo.

Ao se debruçar sobre a vida de Marie, e o luto que durou até o fim dos seus dias, Rosa também faz uma autorreflexão da própria situação, com passagens emocionantes e muito sensíveis. O livro tem um importante espaço para dimensionar quem foi Marie Curie. Principalmente sobre o feito que ela alcançou com a descoberta do polônio e do rádio, elementos da radioatividade, quando a mulher não tinha espaço na ciência.

A vida de Marie Curie (sobretudo a doméstica) quase lhe faz desviar o caminho que estava predestinada a seguir. Mas algumas coisas no percurso, aliada a determinação, e a sorte, a fizeram continuar. “Durante esses anos, Pierre publicou muito mais artigos científicos do que Marie. Não posso dizer que me surpreende: enquanto isso, Marie fazia geleias. Aproximar-se da vida de Manya Sklodowska (verdadeiro nome dela) é como olhar uma gota d’água pelo microscópio e descobrir um turbilhão fervilhante de bichinhos. Quero dizer que, se prestar bastante atenção na biografia dela, você percebe as infinitas dificuldades que Marie teve de superar e fica pasma. Como pôde sobreviver, como seguiu em frente?”.

Marie foi uma pessoa que, segundo a autora, não teve modelos de referência, quase sem outras mulheres abrindo brechas na dura crosta de preconceitos “como um pequeno navio quebra-gelo”, diz. Para compreender a vida da cientista, Rosa leu seis livros e fez pesquisas na internet para desenvolver um estilo que não é uma simples biografia ou o relato da perda. Mas a imersão na história de uma mulher fora da curva.

Pierre, inclusive, apareceu em sua vida quando ela tentava se firmar, mas a importância de Marie também foi determinante para o despertar da genialidade do marido. Rosa diz que o encontro dos dois foi quase um milagre, por conta da personalidade avessa de ambos. Se tornaram imbatíveis juntos, com descobertas revolucionárias. Dois apaixonados por pesquisas científicas.

Em 1903, Marie dividiu o Nobel de Física com o seu marido e o físico Henri Becquerel pelas descobertas do polônio e o rádio. Em 1911 ela recebeu sozinha o Nobel de Química também por conta dos estudos desses elementos da radioatividade. O pioneirismo dela se mantém até hoje. A descoberta dos Curie foi a escada para a fama, mas também um atestado de óbito, porque eles sentiram na pele os efeitos radioativos.

O marido morreu aos 46 anos atropelado por uma charrete quando saia de casa, mas já sofria com graves problemas de saúde. Já Marie morreu aos 66 anos, totalmente devastada pela leucemia. A autora mostra o alvoroço em torno dos dois e das descobertas que eles fizeram, inclusive sendo popularizados e utilizados de forma insegura pela indústria em diversos produtos.

Marie também foi uma grande humanista, ajudou muitas pessoas durante a Primeira Guerra Mundial, montando uma organização para tirar crianças judias da Alemanha e unidades móveis para a realização de radiografias em soldados feridos. Além dos prêmios Nobel, a polonesa foi a primeira a se formar em Ciências na Sorbonne, a primeira a se doutorar na mesma área e a primeira a ter uma cátedra. E também a primeira mulher a ser enterrada pelos méritos no Panteão do Homens Ilustres (sic) de Paris. Portanto, “uma mulher inédita, guerreira e mutante”, como diz Montero.

A autora, no entanto, levanta a questão de Marie nunca ter falado, ou se posicionado, sobre o machismo que enfrentou numa época totalmente opressiva. Ao mesmo tempo que tenta explicar os possíveis motivos dela não ter feito isso. A campanha de difamação, por exemplo, contra a cientista depois da morte do marido, utilizando do envolvimento amoroso dela com Paul Langevin, outro célebre cientista, para tentar minar a sua entrada na Sorbonne na cadeira de física deixada pelo marido, foi algo muito significativo sobre o fato do machismo. Mesmo assim, ela conseguiu ocupar a vaga.

A ridícula ideia de nunca mais te ver, no entanto, não é uma biografia de Marie Curie, embora seja um livro que reflita sobre a vida da cientista de forma ampla, mas é sobre vários temas que se entrecruzam. A perda dos maridos, de ambas as mulheres, autora e biografada, é a base de tudo. A autora nos mostra detalhes muito íntimos da própria vida. Coisas muito pessoais, como a ligação afetiva com o cheiro do marido Pablo, por exemplo.

“É preciso fazer algo com os mortos. Depositar flores. Falar com eles. Dizer que você os ama e que sempre os amou. É melhor dizê-lo em vida, mas, se não, também pode ser depois. Gritar para o mundo. Escrever num livro como este”.

Ela fala também sobre o processo de escrita de alguns romances e as coincidências que os cercaram durante a escrita de algumas obras. No entanto, os momentos em que a autora fala do luto (de ambas) são os mais bonitos. Rosa diz que a arte pode ajudar a enfrentar a perda, como a reflexão trabalhada por ela neste livro. Da mesma forma que o diário de Marie deve ter lhe ajudado a expurgar o sofrimento.

Rosa faz a análise da dor, envolvendo a depressão que acomete, segundo estudo que ela mostra no livro, mais pessoas quando se separam e não as que ficam viúvas. Além disso, a culpa, diz a autora, é um sentimento tradicionalmente feminino.

É esse contexto que contribuiu para Montero se tornar avessa ao casamento, mas que acabou cedendo, por encontrar uma pessoa realmente que combinava em todos os aspectos. Algumas imagens do acervo da autora recordam os momentos dela com o marido Pablo, e as fotos de Marie, aproximam o leitor da intimidade, mesmo que por algo tão sutil. É uma imersão no sentimento das duas mulheres. O uso de hashtags em algumas palavras se repetem ao longo do texto, marcando a importância de cada uma delas no contexto da história.

A autora também dedica espaço para análise literária, a partir da experiência como escritora. Mas a grande questão que a obra propõe é como lidar com a morte. O que se espera que alguém se comporte durante o luto? Rosa vai passeando pela própria experiência, oferecendo reflexões poderosas, realistas, sobre a partida de alguém querido. E não deixa ser incrível a capacidade dela em transmitir, de uma forma tão palpável, o sentimento da perda.

Entretanto, esse não é um livro sobre a morte. É uma reflexão sobre a vida, onde o luto ocupa, claro, papel importante. Longe de ser um texto triste, a elegância da escrita da autora nos leva por uma análise mais profunda da finitude, da própria escrita, da existência e da trajetória de Marie Curie. Uma mulher que pagou um preço altíssimo em busca de uma causa maior.

De tão inacreditável, a autora e sente na obrigação de reforçar a veracidade do que foi escrito, reafirmando que a vida de Marie foi realmente grandiosa. Rosa compara a experiência e a luta em ser mulher ainda nos dias de hoje, mas sublinha o peso muito maior que a outra passou.

Rosa Montero escreveu não apenas um livro incrível sobre o luto, mas produziu arte em forma de feridas feitas de ausência, como é a dor de perder alguém insubstituível. Como ela mesma diz na abertura, fez o exercício de “Refletir sobre palavras que despertam ecos. Escrever como quem respira”.

O apêndice com o diário de Marie Curie, que começou a ser escrito no mesmo mês do falecimento do marido e durou exatamente um ano, encerra de forma brilhante este livro sensível. “Querido Pierre, que nunca mais verei, quero falar-te no silêncio deste laboratório, onde eu não imaginava ter de viver sem ti”., diz Marie Curie. A ridícula ideia de nunca mais te ver utiliza justamente o vazio, o silêncio, da perda para mostrar o significado da vida. Sem dúvida, esse é um dos melhores livros dos últimos anos.

“Quando alguém com quem você conviveu por muito tempo morre, não é só você que é afetado de maneira indelével, mas o mundo inteiro fica tingido, manchado, marcado por uma mapa de lugares e costumes que servem de disparador para a evocação, muitas vezes com resultados tão devastadores quanto a explosão de uma bomba. E assim, um belo dia você está folheando tranquilamente uma revista quando vira uma página e zás, dá de cara com a fotografia de uma daquelas maravilhosas igrejas de madeira medievais da Noruega, aquelas incríveis construções arrematadas com dragões que mais parecem saídas de um passado viking que do cristianismo. E você havia estado ali com ele naquela viagem deliciosa à Noruega, vocês estiveram bem ali, diante dessa belíssima igreja de Borgund, absortos, entusiasmados e felizes. Juntos. Vivos. Buuuummmmm, a bomba da lembrança explode na sua cabeça, ou talvez no coração, ou na garganta. Puro terrorismo emocional”.

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