Crimes e conspirações no Rio de Janeiro pré-golpe militar de 1964

Foto: (Leo Aversa/ Divulgação)

Por Ney Anderson

Quinto romance do jornalista e escritor, Edney Silvestre, O último dia da inocência (Record) volta 55 anos no tempo para contar a história de um jovem jornalista que ao tentar fazer uma reportagem sobre um assassinato, se vê como principal suspeito de outro crime. A partir desse fato, ele tenta descobrir quem o colocou na armadilha, ao mesmo tempo em que busca escrever a reportagem responsável por lhe tirar do anonimato. Tudo isso em meio à atmosfera política efervescente do país, onde a trama se passa, justamente no dia 13 de março de 1964, durante o famoso comício na Central do Brasil do presidente João Goulart. Semanas antes do golpe militar.

Narrado em primeira pessoa, o leitor acompanha os meandros, os bastidores, da busca do jornalista tentando encontrar as pistas, juntar as peças soltas para realizar o seu trabalho da melhor forma e, ao mesmo tempo, se livrar da enrascada na qual entrou. O romance acontece em um ritmo vertiginoso, que não poupa no uso de muitas digressões para contar o passado desse jovem, órfão de pai e mãe, e sem família, que ficou no orfanato até chegar a maioridade e ter que se virar para sobreviver.

O livro de Edney não se propõe didático para contar uma história de determinada fase política, já que o livro acontece no período pré-golpe militar, com as tensões já aparentes do que aconteceria depois. Tudo isso, claro, está jogado na mesa. Mas de forma pulverizada, porque o burburinho do comício de Jango ecoa por todos os cantos e a cidade parece ter parado para acompanhar as palavras do presidente. Menos o jovem jornalista, que está alheio ao fato em que todos estão atentos para tentar encontrar algo jornalístico novo, uma matéria que vá lhe tirar do anonimato, porque ele é alguém invisível, que ninguém dá atenção. Inclusive, ele é inominado, reforçando mais ainda esse caráter da invisibilidade. Até a sua vida sofrer uma reviravolta.

Não é por um motivo qualquer que o título do romance faz referência à perda da inocência. Realmente o que o protagonista vive em apenas um dia faz ele se tornar uma outra pessoa, literalmente. O personagem não é uma figura amorfa, ele vai atrás, corre contra o tempo, para encontrar a resposta para as suas dúvidas, que são explicações de uma trama bem maior do que ele imaginava ser. Fazendo da melhor forma possível, com os recursos que tem, o que se condicionou chamar de jornalismo investigativo.

O texto é cheio de perguntas que vão sendo respondidas ao longo da obra. Com a recriação de um Rio de Janeiro em um momento crucial para a história nacional. Um espectro curto, com foco no passado carioca. Assim como a redação, as entranhas do jornalismo, são utilizados de forma a ilustrar os princípios de um jovem repórter que se vê envolvido em um crime, do qual não faz ideia de como aconteceu. Ao mesmo tempo que tenta se livrar da armadilha, o foca pretende entrar para o primeiro time da imprensa fazendo uma grande reportagem sobre o caso, que envolve gente poderosa da política, empresários, pessoas da alta sociedade, irmandades e associações secretas em uma conspiração que tem por objetivo mudar os rumos do país, em uma trama complexa, mas habilmente tecida. Vários personagens reais são citados, como Miguel Arraes, Leonel Brizola, Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, Carlos Lacerda, barão Stuckart, Maria Thereza Goulart, entre outros.

Enquanto tudo isso se desenrola, o comício paira por toda a obra. “Ouvimos” ao longo da narrativa, em intervenções bem marcadas, os comentaristas políticos noticiando os fatos através das rádios, com informações atualizadas de instante em instante, até a chegada do presidente Jango ao palanque, e depois ele bradando várias medidas sociais para o povo brasileiro na frente de milhares de pessoas. É possível “ver” também o Rio de Janeiro de 1964 através das ruas e locais que o jornalista percorre, dos transportes que ele utiliza, das músicas que escuta e das redações dos jornais, ainda que sob o pincel da ficção, com figuras como Carlos Heitor Cony e Otto Maria Carpeaux fazendo figuração de luxo. A cidade ferve e o jornalista e narrador também pulsa no mesmo ritmo alucinado.

Marcado por uma escrita que coloca no mesmo ambiente personagens reais, fictícios, conspiradores, assassinos e assassinados e o mundo do jornalismo, dentro do Rio de Janeiro efervescente por conta dos rumos da política, O último dia da inocência prova que tudo pode ser verdade e também pode ser mentira. Depende somente do ponto de vista. Cabe a cada um ser inocente. Ou não.

Todos queremos, todos um dia desejamos, todos, indistintamente, de uma forma ou de outra, voluntária ou inconscientemente, todos ansiamos trocar nossa vida por outra, adotar uma nova identidade, encarnar em outra pessoa, alguém diferente do que somos ou nos formamos, alguém que os fados ou a genética não permitiram que nos tornássemos. Todos sabemos que é impossível. Acordado de madrugada, insone no dormitório da Instituição, afundado em meu isolamento, eu sabia. Aquela era minha vida. Nunca haveria outra. Aquela, esta, ontem, hoje, amanhã, a única vida possível. E se não for?”

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