Novela “Mauricéa”, de Adrienne Myrtes, fala das dores, amores e sobrevivência de uma personagem transgênero

Foto: divulgação

Por Ney Anderson

Rebeldia, transgressão e sobrevivência. Essa é uma tríade, entre tantas possíveis, que permeiam a vida de Mauricéa, travesti e personagem principal do livro homônimo da escritora Adrienne Myrtes. Publicado pela editora Edith, a novela Mauricéa é narrada em primeira pessoa através do pensamento de Omar, o nome verdadeiro da travesti, que está em recuperação depois de ter sido espancada por idosos homofóbicos.

Ambientado no Recife em tempos de ditadura, o texto é montado com os pensamentos de Omar se misturando com a sua rotina moribunda, em pequenos diálogos com a amiga Izildinha, que cuida da saúde dele. É uma personagem que recorda das suas paixões, dos seus dilemas, dos desejos e da condição de estar no mundo enquanto transgênero. Mesmo relembrando momentos sombrios ditatoriais, de liberdades vigiadas, a agressão física que lhe colocou de cama acontece justamente nos dias atuais. Onde a tal liberdade individual, principalmente de LGBTs e negros, é só uma teoria.

Ela quando foi para São Paulo atrás do amante. Mas se decepciona com o homem que julgava ser o seu verdadeiro amor para o resto da vida, mesmo o outro sendo casado com uma mulher. Depois disso, se envolve com alguns companheiros, mas não consegue estabelecer um tempo maior de convivência (e segurança) com nenhum deles. Para sobreviver na capital paulista, ela se prostitui e faz alguns bicos. Mauricéa é cheia desses amores transviados, que não cabem numa relação tradicional, porque ela mesma é oposta a isso. “Ilusão era pensar que deixando o Recife, o Recife me abandonaria”, diz, evocando um valor que ela sempre carregou.

O texto vai e volta no tempo, com ele já idoso, em recuperação após o espancamento. É nesse fluxo de consciência que conhecemos o jovem tentando se afirmar como alguém deslocado do mundo. Até a descoberta real por tratar-se de uma pessoa diferente. Justamente em um momento de medo e incertezas. “Vida sem sossego sempre foi a mim destinada, uma delícia para quem gosta de desatino”.

O discurso da questão de gênero é um ponto forte e significativo da história. Mas não é colocada de forma forçada ou panfletária. A autora vai direto nos dilemas da personagem, que solta-se das amarras dos desejos contidos pouco a pouco, se transformando em quem Omar verdadeiramente era. Mostrando puramente a vida como ela é, como diria Nelson Rodrigues. “Além do conflito por não saber o significado de minha diferença, da compulsão erótica por homens, eu tinha medo de ser na verdade um doente”.

Mesmo Omar sendo o extremo oposto de Mauricéa, criador e criatura são forjadas da mesma matéria-prima da rebeldia e da transgressão. De não aceitação do mundo estabelecido por regras pessoais e restritas, que não deixa que figuras fora da caixa sejam quem realmente elas são. Enquanto Omar é pensamento, Mauricéa é atitude. A personagem personificada pelas ruas de um Recife que não existe mais e, depois, de uma São Paulo agressiva. Durante a recuperação do velho Omar, agredido por idosos homofóbicos, sua mente vagueia para o seu passado de afirmação e luta pela própria sobrevivência física, mental e espiritual. “Para lembrar quem sou ou, de verdade, para esquecer: sou um velho em decrepitude, lembrando e fazendo confusão com um tempo que vai e vem ao sabor da pulsação sanguínea”.

“Eu tinha tudo para virar estatística; pobre e encardido, sobrevivi aos militares durante o regime e à polícia em geral depois dele. Coisa, gente, em meio à manada não andei. Nesse mundo feito por e para homens, desperdicei a oportunidade natural de ser senhor, me fiz senhora. Fazer o quê. Carregar essa contradição vida afora, tecer com ela minha verdade; mesmo uma mulher precisa ser dona de si e saber botar o pau na mesa quando necessário”.

Mauricéa fala com o leitor por meio das suas angústias e recordações. Sobretudo dos amores que não deram certo. Entregando a sua história que, segundo ela, já está perto do fim. É um livro de muita memória. A leitura agrada pelo tratamento poético. A história se dá nesses dois tempos, com a Mauricéa de outras épocas, no passado, e sendo lembrada, no presente, por Omar. A autora Adrienne Myrtes vai na alma da personagem e mostra a sua gênese e os seus conflitos mais secretos.

O título do livro faz referência à Cidade Maurícia, da época da colonização holandesa por Maurício de Nassau, também é o nome da mãe do narrador. O Recife, contudo, faz parte da história de uma forma mais sentimental do que geográfico, embora a antiga boate Chanteclair (hoje em restauração) , e as ruas da capital pernambucana, estejam presentes de forma significativa.

Através de um texto bem escrito e tocante, a novela apresenta um mundo que não suporta Mauricéa. Ou melhor, que não está preparado para ela.

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