“Nós, os velhos, sabemos como se faz resistência”, diz Maria Valéria Rezende, em entrevista exclusiva ao Angústia Criadora

Fotos: Adriano Franco

Por Ney Anderson

Um dos nomes mais celebrados da literatura Brasileira, Maria Valéria Rezende lançou recentemente o livro Carta à Rainha Louca (Alfaguara), ambientado em Olinda no ano de 1789, de onde Isabel das Santas Virgens, presa no convento do Recolhimento da Conceição, escreve à rainha Maria I sobre os absurdos cometidos pelos homens da Coroa. Principalmente contra as mulheres, sendo ela mesma uma vítima. Com uma linguagem que mescla o vocabulário próprio da época retratada com o moderno, a autora nos apresenta uma história que utiliza a colonização brasileira para mostrar a situação das mulheres que, via de regra, ainda são desafiadas a lutar por igualdade e respeito, sobretudo no combate ao machismo crônico, que infelizmente impera em todas camadas da sociedade até hoje.

Além deste livro novo, Maria Valéria Rezende já publicou outros quatro romances, três trabalhos de contos e crônicas, e dez livros voltados para o público infantil e juvenil. Já ganhou os prêmios Jabuti, São Paulo de Literatura e o prêmio internacional Casa de las Américas, entre outros.

Nesta entrevista exclusiva ao Angústia Criadora, Maria Valéria fala sobre o Carta à Rainha Louca, mas também comenta aspectos da leitura no país, que está intimamente ligada à política educacional brasileira; a ficção brasileira contemporânea, as pequenas e médias editoras, além do seu trabalho como missionária em vários países, e o percurso como escritora que começou a publicar relativamente tarde, beirando os sessenta anos de idade. Ela ainda comentou sobre a escolha da poeta norte-americana Elisabeth Bishop como homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

ENTREVISTA:

Não vejo sentido em homenagear uma estrangeira que desprezava tanto a terra quanto a gente daqui

ANGÚSTIA CRIADORA – Carta à Rainha Louca é um livro onde se percebe um alto grau de sofisticação estilística, tendo como base a pesquisa apurada. Com o efeito da linguagem antiga (arcaica). Como conseguiu fazer com que isso não se tornasse um entrave para a legibilidade?

MARIA VALÉRIA REZENDEEssa foi uma das razões pelas quais levei anos escrevendo esse livro. No período colonial, e mesmo muito depois dele, escrever era coisa ao alcance de muito pouca gente, em geral só os homens, clérigos e leigos que faziam disso uma profissão. O estilo em que escreviam, tudo arrevesado e cheio de abreviações, certamente estava muito longe da fala das pessoas e poderia ser feito assim para que fosse difícil para outros competir com eles no ofício de “escrevente”. Minha narradora é uma mulher que aprendeu a escrever e lia de tudo quase clandestinamente, e servia à burocracia intensa do período colonial. Então, como é uma carta que ela escreve, tentei fazer um texto plausível no sec. XVIII, conferindo, palavra por palavra, se já estava em uso naquela época, arrevesando um pouco, por supor que ela estivesse “contaminada” por todos os documentos que leu e copiou, mas dosando cuidadosamente para que fosse legível no sec. XXI, mesmo para leitores não habituados ao estilo dos escribas oficiais.

AC – O texto retrata uma época obscura, principalmente no que diz respeito às mulheres. Te impressiona que a questão feminina nos dias de hoje, mesmo com todos os avanços, se assemelha bastante com a submissão que elas sofriam em épocas remotas?

MVR – Exatamente isso é que chama a atenção. Meu problema era fazer uma carta de mulher do sec. XVIII com minha cabeça de feminista do século atual. Resolvi esse problema fazendo-a autocensurar-se, através das rasuras na carta, como se ela mesma estivesse espantada das coisas que ousava dizer.

AC – A ideia de ambientar a história em Olinda surgiu como?

MVR – O Recolhimento da Conceição, de Olinda é o mais antigo que se fundou na colônia, e eu conheço aquele prédio muito bem, por fora e por dentro, o que me ajudava a ambientar a história. Além disso, sabemos que não havia presídios construídos para mulheres, e quando havia ordem de prisão contra uma delas, encarregavam recolhimentos ou conventos de mantê-las presas, como, aliás, presas estavam todas as recolhidas, raramente por vontade própria mas sim por interessas de suas famílias. Outro elemento da História é o fato de que, para defender-se da pirataria, raramente um barco partia só, e esperava-se em algum porto que se juntasse uma frota para atravessarem juntas o Oceano. Por isso, Olinda me pareceu o lugar certo para deixa-la “esquecida” por anos, até que se ponha a escrever a carta.

AC – Você acredita que, assim como Isabel, a protagonista do seu livro, que transgride a regra que é imposta a ela escrevendo justamente uma carta-denúncia, a escrita serve como espaço de rebeldia?

MVR – Sim, especialmente a escrita das mulheres, a quem não era permitido às vezes nem aprender a escrever, quanto mais publicar. Até muito recentemente, ou mesmo até agora ainda é assim. Há pesquisas que mostram um sem número de mulheres que publicavam com nomes masculinos, ou pseudônimos, ou mandavam seus poemas, por exemplo, para jornais portugueses ou de outro país para não serem “descobertas” pela família. Há hoje um amplo movimento de mulheres tratando de resgatar essa literatura “proibida” ou as escritoras esquecidas. Por outro lado, nem toda escrita é rebeldia… pode ser meio de impor um pensamento dominante, ou pode ser pura lamentação individualista.

AC – A carta representa de forma metafórica a liberdade da narradora. Utilizar a escrita como símbolo de liberdade já estava pensado no esboço da obra ou foi algo que surgiu durante o desenvolvimento do livro?

MVR – O fato mesmo de escrever às escondidas e clandestinamente já veio na própria concepção inicial do livro, e era, como ela mesma diz, a única forma de liberdade que podia ter, a de pensar e de escrever o que pensava.

“Eu inicialmente só sei o que escrevo nas linhas, mas o que está nas entrelinhas são os leitores que me ajudam a ver”.

AC – Quando um autor lança um livro são várias as leituras que a crítica faz dele. Com o autor é a mesma coisa, no sentido dele fazer várias considerações acerca do livro que escreveu? Quais as leituras que você fez (e faz) de Carta à Rainha Louca?

MVR – Eu me interesso mais pelo que os outros leem, e a partir daí é que releio o que escrevi, descobrindo nuances que eu mesma não tinha percebido antes, mas são detalhes, outros sentidos possíveis de um único parágrafo. Eu inicialmente só sei o que escrevo nas linhas, mas o que está nas entrelinhas são os leitores que me ajudam a ver.

AC – A leitura que eu fiz de Isabel é que ela é um símbolo da mulher que sempre foi silenciada, colocada em segundo plano pelos homens. E que por isso mesmo mostra a sua força como forma de superação, de transgressão. É livro que fala de injustiça. É isso também?

MVR – É evidente, naquele tempo e agora. Não é injustiça somente para com as mulheres, é injustiça para com toda a humanidade, que fica privada da contribuição de mais da metade dos cérebros, que podem ter ideias novas, pontos de vista e sensibilidades diferentes e contribuir para fazer outro mundo muito melhor do que este mundo fracassado em que estamos vivendo, pensado e ordenado só pelas cabeças de uma minoria de homens brancos do hemisfério norte.

No alto da imagem, as estatuetas do Jabuti e do Prêmio São Paulo de Literatura

AC – Dessa forma, a sua obra, este livro principalmente, é política, mesmo sem ser panfletária?

Tudo o que tem a ver com poder e com o modo como a sociedade se estrutura, sobretudo com as desigualdades, é sim, necessariamente relativo à política.

AC – A rainha louca do título é a Maria I, da Coroa Portuguesa, para quem Isabel escreve a carta. Qual o principal eco que perdura no país no que diz respeito à colonização portuguesa?

MVR – Como a própria Maria I foi “enlouquecida” – não tenho dúvida quanto a isto – para devolver o poder aos homens, ainda hoje é difícil aqui que se respeitem as mulheres que chegam a algum grau de poder. Serão chamadas de loucas, serão “impichadas”… Por outro lado, creio que nossa mentalidade ainda é “monárquica”: nasta prestar atenção às placas numa rua comercial qualquer ounuma estrada: “O império das coxinhas”, a “Padaria imperatriz “, o “Rei dos pneus”, as “Lojas Imperial”, além de outros reis da música ou do futebol e assim por diante, e grande parte da população está sempre disposta a endeusar e deixar-se submeter por aquele que se apresentar como todo-poderoso, e ainda não compreendeu que uma vida melhor só chegará com a contribuição e a participação no poder de todos nós. Democracia não é fácil de se entender quando por tanto tempo se esteve esperando as “ordens de El Rei”

AC – Você comentou recentemente que ninguém mais fala neste seu livro novo. Que parece que Isabel morreu e não conseguiu fazer perdurar a sua voz. Até pela questão da quantidade de exemplares impressos. É um sintoma dos nossos dias que ela tenha morrido logo no Brasil de 2019?

MVR – Dizem que é por causa da crise no mercado editorial…

AC – Qual a explicação para um livro durar tão pouco tempo sendo comentado e lido?

MVR – Não se encontram nas livrarias, sobretudo nas cadeias de livrarias de shoppings que mataram as livrarias de rua, que tinham verdadeiros livreiros… essas enormes livrarias funcionam com uma lógica diferente: não vendem conteúdos, vendem marcas, as marcas famosas…

“Ainda hoje é difícil aqui que se respeitem as mulheres que chegam a algum grau de poder. Serão chamadas de loucas, serão “impichadas”…

AC – Por falar em leitura. Existe um Brasil que lê, mas não captado pelas pesquisas, ou realmente o brasileiro é um povo que está distante dos livros?

MVR – Fico irritada quando ouço dizer que “brasileiro não lê”. O certo é dizer que brasileiro não tem acesso a livro, o que é uma coisa inteiramente diferente. E agora até mesmo as compras do MEC para as bibliotecas escolares estão quase completamente extintas. O livro é caro demais, e acho que é assim para mantê-lo mesmo como privilégio dos “de cima”. E se desconsidera o que o povo lê porque é o que encontra ao seu alcance, os folhetos de cordel, por exemplo, literatura de longa linhagem, ou os livrinhos de banca de jornal que são o que é possível comprar.

AC – No seu trabalho como missionária você alfabetizou agricultores na Nicarágua e em Cuba. Passou também no Timor Leste, Angola e no Nordeste brasileiro. Quando iremos ter uma revolução educação em nosso país?

MVR – Vamos esclarecer uma coisa logo: nunca alfabetizei ninguém em Cuba… quando cheguei lá a primeira vez, já nos anos 80, havia muito tempo que não existia mais analfabetos na ilha… desde 1961 o analfabetismo foi erradicado lá. Também participei apenas parcialmente, na avaliação do processo semelhante na Nicarágua. E quando falamos de Educação Popular, não é especialmente de alfabetização que se trata, é de um diálogo entre a cultura e os conhecimentos populares, e a partir deles, e o conhecimento mais acadêmico ou científico. Estávamos caminhando na direção de uma radical mudança na educação brasileira, na medida em que a expansão das escolas públicas e das universidades e institutos federais ampliou muitíssimo o acesso aos estudos daqueles que até então vinham sendo excluídos. Isto tudo está sendo desmantelado estupidamente por gente que tem mesmo essa intenção, parece-me. Há, porém, uma coisa que não volta atrás: nenhuma família daqui por diante vai acreditar que seu filho não seja capaz de ser doutor porque é filho de analfabeto, que pobre é pobre porque é incapaz, ou porque não se esforça e esse monte de mentiras que mantiveram nosso povo submisso. Daqui para diante o povo mesmo vai se encarregar, quando perceber com clareza o que acontece, de retomar o caminho da revolução educacional.

“Estávamos caminhando na direção de uma radical mudança na educação brasileira. Isto tudo está sendo desmantelado estupidamente por gente que tem mesmo essa intenção, parece-me”.

AC – Sobre a crítica literária no Brasil, existem atualmente os canais no YouTube, páginas nas redes sociais, blogs e sites. Tem te agradado o trabalho que é feito na internet ou você sente falta da crítica que se fazia em outras épocas, em jornais e revistas?

MVR – Para dizer a verdade, não tenho muito tempo de acompanhar essas coisas, e mesmo sobre meus livros, só fico sabendo quando alguém me manda um link por mensagem pessoal. Nunca fui grande leitora de crítica literária, pois sempre tenho que escolher entre ler os comentários ou a própria literatura… prefiro sempre a segunda, e não entendo nada de teoria literária, apenas pretendo entender a literatura.

AC – A sua literatura sempre parte de algo real. Te interessa escrever uma literatura totalmente dissociada da realidade? A ficção pela ficção. Ou não existe, para você, arte que não esteja intimamente ligada com questões urgentes dos nossos dias?

MVR – Só escrevo sobre o que me interessa, e o mundo está cheio de coisas que precisam ser vistas e eu gosto de descobrir e contar. Às vezes, mais por brincadeira e exercício de escrita, escrevo alguns contos mais desligados da realidade social, sobretudo nas sessões do Clube do Conto da Paraíba, mas o esforço de escrever um romance tem de ser coerente com minhas escolhas de vida.

AC – Este ano, particularmente, autores de ficção estão utilizando temas atualíssimos nos seus enredos. Como o racismo, escravidão, feminismo, temática LGBTQ, corrupção, entre outros. Isso está acontecendo justamente como uma resposta/defesa natural dos artistas ou faz parte do papel da arte, em qualquer época, a investigação e a tentativa de entendimento do seu tempo?

MVR – É importante que em tempos como estes os artistas deem sua contribuição crítica, mas não vejo isso acontecer tão generalizadamente… embora de fato tenhamos excelentes escritores, se revelando como vozes fortes nessa linha. Mas há também muita literatura sobre a “decadência” do sujeito narrador, ou aquilo que eu chamo de “literatura de quitinete”, em que o autor escreve páginas e páginas sobre os sentimentos, em geral depressivos, do narrador. Nem sempre a arte é fruto de um esforço de compreensão do mundo, pode ser também extremamente egoísta, mercantilista, quase solipsista.

AC – Você é uma escritora que começou a publicar tarde. Indo de encontro à agonia onde o “mais” parece sempre subjugar o “menos”. Nesse sentido, acredita que a sua obra tenha se beneficiado, amadurecido, por não ter sido lançada na sua juventude?

MVR – Meus livros de ficção saíram quando tinham de sair… antes eu estava ocupada escrevendo outras coisas, a serviço mais direto da educação popular. Mas é certo que o ter já vivido muito em vários lugares diferentes me abasteceu de histórias a contar.

AC – Tinha algum tipo de receio em lançar os livros ou a literatura te servia como companheira secreta e silenciosa, o local apenas para registro da memória, das ideias etc?

MVR – Escrevia ficção para dar de presente aos amigos, quando não tinha dinheiro pra comprar outro presente… Desde criança eu escrevia histórias, por divertimento também. Quando minhas histórias caíram na mão de um editor que quis publicá-las, fiquei cabreira. O simples fato de quererem publicar não me parecia garantia que fosse bom, se não não haveria tanto livro ruim no mundo. Então mandei um livro para um concurso desses de pseudônimo, o Cidade de Belo Horizonte, e me comunicaram que eu estava entre os seis finalistas. Daí topei publicar, pois me pareceu que não devia ser ruim.

AC – Você é um dos nomes mais celebrados da literatura. No entanto, frequenta os diversos eventos que participa carregando uma mala vendendo os próprios exemplares. Ser escritor de sucesso no Brasil é o quê?

MVR – Depende do que a gente considera sucesso… pode ser receber uma boa resposta dos leitores, o que é muito bom e não posso me queixar da falta desse sucesso. Pode ser também uma espécie de lazer, para quem já tem outra carreira que lhe garanta cobrir as despesas do dia a dia. Para outros pode ser viver disso e folgadamente, se ele consegue ser best-seller, mas muito best-seller mesmo, ou ter contratos diferentes com as editoras, e não apenas os a gorjeta de garçom, de 10% do que foi vendido… Para quem, como eu, não tem outra fonte de renda, senão a aposentadoria de velhinha, pelo INSS, abaixo do teto, o jeito é ser camelô de meus livros, para ganhar um pouquinho mais do que a gorjeta, e também substituir a falta de meus livros nas grandes livrarias.

“Para quem, como eu, não tem outra fonte de renda, senão a aposentadoria de velhinha, pelo INSS, abaixo do teto, o jeito é ser camelô de meus livros, para ganhar um pouquinho mais do que a gorjeta”.

AC – Há algum tempo você foi alvo de uma crítica negativa do romance Outros cantos. Imediatamente muita gente questionou a análise da jornalista, que também é editora. Esse caso te chateou ? Qual o papel da crítica literária?

MVR – Chateou mais minhas amigas e amigos, minhas leitoras e leitores e por isso me fez perder um pouco de tempo respondendo a mensagens… Acho perfeitamente normal que alguém não goste do que escrevo, e acho mesmo louvável que tenha a coragem de dizê-lo com todas as letras, apesar do livro ter prêmio e “sucesso”. A crítica serve mais para orientar os leitores do que para o escritor, mas este também pode se beneficiar e aprender com a crítica.

AC – Você é paulista, radicada na Paraíba há muitos anos, mas consegue ter circulação pelo país e publicar por grandes editoras. O discurso do autor fora do eixo Rio-São Paulo não conseguir visibilidade ainda é válido?

MVR – Parece que sim, embora esteja diminuindo essa dificuldade, mas nota-se ainda a tendência dos que buscam ou já obtiveram algum sucesso de se mudar para São Paulo ou para o Rio… Afinal, ainda há muita gente que manga de nós, os “paraíbas”…

AC – Nos últimos anos o crescimento das editoras pequenas também se acentuou no país, dando a oportunidade para escritores publicarem os seus trabalhos em variados formatos de publicação, inclusive no digital. Essa é uma realidade que só tende a aumentar, mesmo com os entraves financeiros para manter um selo editoral?

MVR – É esse mesmo o caminho, que já estamos trilhando e tem mostrado muito bons resultados! Eu mesma, apesar de ser publicada também por editoras grandes e “em crise”, tenho distribuído livros meus pelas editoras “de escritores”, como prefiro dizer, que vão fazendo sucessivas pequenas tiragens, e muito corajosamente abocanhando prêmios porque têm compromisso com a qualidade literária e também ando lançado em lugares “alternativos”. O caminho é sempre espalhar e não concentrar.

AC – O movimento Mulherio das Letras, do qual participa, foi criado para cobrar por mais igualdade de gênero no mercado editorial. Como está o movimento atualmente? Tem surtido o efeito desejado?

MVR – Nem foi tanto com um objetivo principal de provocar o mercado, e sim para nos conhecermos e nos apoiarmos entre nós, saber quantas somos, estimular-nos a publicar e não guardar nas gavetas o que produzimos. E nesse sentido, como movimento, tem sido extremamente produtivo. Já se espalhou por todo o Brasil e entre escritoras lusófonas na Europa, nos Estados Unidos e talvez mais além. Creio que estamos confirmando que a solidariedade e a colaboração são muito mais produtivas do que a competição! Coisa de mulher…

AC – No começo da sua carreira como escritora utilizavam bastante o fato de você ter sido freira, antes da análise da obra em si. Quase como se uma freira não pudesse escrever algo potente, que não estivesse ligada necessariamente com o ofício da fé. Você via isso como preconceito, marketing, ou apenas a tentativa de querer te enquadrar em alguma classificação?

MVR – Mais uma coisa a esclarecer: eu não “fui” freira, eu continuo sendo irmã na Congregação em que entrei no ano de 1965, e nunca me arrependi disso. Pelo contrário, a minha vida de religiosa missionária, livre de tudo o mais para estar à disposição do que me aparecia como apelos do povo é que alimenta minha ficção. Tem a ver com uma falta de noção das pessoas em geral sobre o que é a vida das freiras, muitas vezes alimentada por lendas, filmes malucos, etc e por parecer uma esquisitice… ou a suposição de que uma freira só pode ser uma pessoa “bobinha”, que “não arranjou marido”, etc… então como poderia escrever livros elogiados? Ganhar prêmios literários? Em parte vem talvez da ignorância do fato de que, até muito recentemente, as freiras eram as mulheres mais cultas e estudadas do que as outras mulheres, eram as mulheres “que sabiam latim”!

AC – Literatura e fé são partes do mesmo mistério? A ficção é a sua religião?

MVR – Há algo de comum entre literatura e fé, na medida em que em ambos os casos muitas vezes se trata de tentar dizer o indizível. Mas não, literatura não é minha religião, é apenas uma das formas de agir, se for possível, para servir a meus irmãos os mais necessitados, se eu for capaz, como diz a essência do Evangelho ao qual procuro ser fiel.

“Há algo de comum entre literatura e fé, na medida em que em ambos os casos muitas vezes se trata de tentar dizer o indizível”.

AC – Te impressionou a repercussão negativa que o nome de Elisabeth Bishop gerou quando foi anunciada como homenageada da Flip do próximo ano? Qual a sua posição em relação a escolha?

MVR – Acho que os protestos têm razões fortes, pois não vejo sentido em homenagear uma estrangeira, que viveu no nosso país por alguns anos apenas, e não porque tivesse escolhido o Brasil e sim por razões lá dela, já que desprezava, como revelam suas cartas, tanto a terra quanto a gente daqui. Não faltam grandes escritoras e escritores brasileiros a quem homenagear.

AC – Qual o seu sentimento em relação ao desmonte que estão fazendo da cultura. Há alguma saída? Qual?

MVR – É quase uma confissão de estupidez que estão fazendo. Há saída, sim, a resistência, continuar produzindo cultura e animando eventos culturais, mesmo que seja num canto de praça, ou numa rua de terra, e sem microfone. Já fizemos isso no passado e, pelo menos nós, os velhos, sabemos como se faz. E pode crer que estamos fazendo.

AC – O que podemos esperar da sua produção daqui para frente? Já está rascunhando alguma coisa?

MVR – Estou rascunhando muita coisa, sim, sempre. Dois romances, dois infanto-juvenis, e contos esparsos para coletâneas que me pedem. Torce aí para eu ter tempo de acabar alguma dessas coisas!

AC – Neste momento no Brasil, politicamente falando, qual a principal função que a literatura deve exercer?

MVR – A de sempre, “mentir” para dizer melhor a verdade.

AC – Vou te colocar uma questão totalmente subjetiva. Se fosse possível te definir com apenas uma frase, qual seria?

MVR – Ainda estou viva!

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