“Sobre os ossos dos mortos”, da Nobel Olga Tokarczuk, faz da natureza perversa do ser humano, uma fábula sobre a vida e a morte

Foto: Jacek Kolodziejski

Por Ney Anderson

Sobre os ossos dos mortos (Todavia), da Nobel de Literatura Olga Tokarczuk, é sobre uma senhora, Janina Dusheiko, apaixonada por animais e astrologia, que vive em uma região montanhosa da Polônia, habitada por poucos moradores (principalmente por conta do forte inverno), onde algumas pessoas começam a morrer durante o enredo, e ela tem uma teoria de que essas vítimas (sobretudo caçadores) estão sendo mortas pelos animais selvagens que vivem na floresta gelada, possivelmente agindo de forma pensada. Ela tenta comprovar isso com várias teorias, utilizando a astrologia, a influência dos signos, e da própria natureza. É um romance que tem uma base de thriller policial, sombria, a partir da voz dessa senhora que não se sabe muito bem quem ela é. Uma narradora estranha, excêntrica, de tom macabro. “Com a minha idade e nas minhas condições atuais, deveria sempre lavar bem os pés antes de dormir, caso uma ambulância precise vir me buscar à noite”.

É um texto muito bom, para quem gosta de romance de várias camadas de interpretação. A atmosfera lúgubre, em meio ao gelo, com os acontecimentos bizarros se acentuando página após página, mergulha a história em infinitas possibilidades. A narradora é o princípio de tudo nessa trama. Uma voz incomum, de observadora atenta aos detalhes, que mostra a paisagem de uma forma totalmente imersiva, transmitindo a sensação do estranhamento proposto pela autora, através de diversas possibilidades. “Às vezes penso que é possível desconhecer completamente a pessoa com quem si vive há anos”.

Não é uma simples trama policial. Ou melhor. Não é apenas um texto de suspense policial. Muitas coisas estão envolvidas nas entranhas desta história. A começar pela figura da senhora Dusheiko que tudo observa, desde os mínimos detalhes. É uma mulher que tem uma enfermidade desconhecida do leitor e também é amante de poesia. Ela tem um jeito de contar, de narrar os fatos, totalmente original, obcecado. A perturbação dos acontecimentos vai se dando aos poucos, na imersão. É uma personagem que tenta ter esperança no humano, mas não consegue totalmente, porque vê nele uma espécie sem conserto, que funciona a partir da própria ganância. “As crianças deveriam ser batizadas com nomes de insetos. E de pássaros, e de outros animais”, diz, em determinado momento.

“Se examinássemos de perto cada fragmento de um instante, nos engasgaríamos aterrorizados. Nosso corpo passa por um incessante processo de desintegração, em breve adoeceremos e morreremos. Nossos entes queridos nos deixarão, a recordação deles se dissipará na agitação; não sobrará nada. Apenas algumas roupas no armário e alguém numa foto, já irreconhecível. As lembranças mais preciosas se desvanecerão. Tudo tombará na escuridão e desaparecerá”.

No meio da trama existem as traduções do poeta inglês William Blake, de onde vem o título do livro, que ela é um amigo estão traduzindo para o polonês. Na verdade, o poeta paira em todo o romance. Inclusive o título vem de um poema dele. Os títulos dos capítulos, aliás, são uma joia à parte. O texto cheio de pequenos segredos.

A autora, no entanto, utiliza longas digressões. O que atrapalha a leitura em alguns momentos. Talvez esse recurso sirva para aumentar mais ainda o estranhamento. Embora tenha elementos do presente, o romance parece ter sido escrito em uma outra época, sobretudo por conta do tratamento longo dos parágrafos.

O texto de Olga é todo montado em um estranhamento sem fim. Dentro de uma teia que vai sendo tecida justamente para aprisionar. A narradora produz muito bem a armadilha que faz do leitor uma simples marionete. O recurso amplamente utilizado por autores policiais em muitas décadas, alcança aqui um status superior. Sobre os ossos dos mortos (que virou filme pelas mãos da diretora polonesa Agnieszka Holland, recebendo o  Urso de Prata Prêmio Alfred Bauer) não é descaradamente do gênero policial (flertando com o terror), mesmo existindo mortes que precisam ser elucidadas (e aqui o leitor terá ainda mais surpresas), mas é um romance, sobretudo, que explora o potencial da mente humana em sentido amplo.

“Temos este corpo, esta bagagem que só causa problemas, e, de fato, não sabemos nada sobre ele. Precisamos de diversas ferramentas para nos informar sobre os processos mais simples. A única ferramenta primitiva e grosseira que nos foi dada como consolação é a dor. Os anjos, caso existam, morrem de rir de nós. É nisso que dá ganhar um corpo e não saber nada sobre ele. Nem sequer ter um manual de uso”.

O romance é entremeado pelos sonhos esquisitos da protagonista, e ao menos outros quatro personagens tão estranhos quanto a narradora, que servem muito mais para afundar o leitor na psique dela mesma, do que necessariamente no andamento da história. Só a partir da página 212 é que a trama assume o contorno de investigação policial, dando uma rápida guinada e tendo um desfecho que é, literalmente, um banho de água fria.

Mesmo assim, é um romance acentuado sobre a natureza perversa do ser humano. E do que ele é capaz de fazer para alimentar os instintos mais primitivos.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *