A humanidade que perde o sentido

Por Ney Anderson

Quando Gregor Samsa, certa manhã, despertou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado em um inseto monstruoso.

Uma das aberturas mais arrebatadoras da literatura mundial. A incomum história do personagem criado por Franz Kafka na Metamorfose, em 1915, diz muito como é ser alguém visto com indiferença. Mas não apenas isso. Tratado com misto de pena e repugnância.

Gregor é um caixeiro-viajante. Portanto, estrangeiro no mundo. Mas ao ser “invisível” dentro da própria casa, não ter o amor dos pais e da irmã, se sente, de fato, um estorvo.

E é justamente nesse ponto que a humanidade dele começa a se desfazer pouco a pouco. Dia após dia. O olhar de Gregor se torna oblíquo, sempre observando por ângulos inferiores, de um ser que se sente rasteiro. O paladar começa a perceber (ou não sentir) outros sabores. As sensações mudam e os pensamentos tornam-se apenas espectros do que ele era.

Então, Gregor se torna realmente algo repugnante, quem nem ele mesmo sabe o que é. E como viver desta forma, dentro desta eterna quarentena, já tendo sido humano e, por isso mesmo, sonhador? Alguém cheio de desejos e aspirações?

Este texto é atemporal por mostrar através de uma poderosa metáfora, a humanidade corrompida. Esmigalhada. A metáfora da transformação do homem em um inseto monstruoso não poderia ser melhor explorada no estupendo texto de Kafka.

A Metamorfose será sempre atual. Ao menos enquanto a raça humana teimar em existir.

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