Antologia Luz Severa apresenta histórias soturnas de autores com domínio narrativo

Por Ney Anderson

Antologias quase sempre apontam a lupa para um tema, na ideia de alguma unidade. Não é diferente em Luz Severa (Contos de Oficina), organizada pelo escritor Raimundo Carrero, como conclusão de um ano de estudos da sua famosa oficina literária. Na obra publicada pela editora Bagaço, e com designer de capa de Halina Beltrão, 27 contos escritos por dezesseis autores dão a tônica da severidade que o título propõe.

Dos mais variados estilos, os textos funcionam por si só, subvertendo a lógica de um trabalho amarrado sob um tema. Justamente por conta da liberdade criativa que lhes é ensinado em sala de aula. O que o leitor acompanha são contos bastantes diferentes entre si, que revelam, no entanto, escritores com recursos narrativos interessantes. Por se tratar de uma antologia que nasceu como encerramento do ano letivo da oficina de escrita, os participantes de Luz Severa compreenderam que não se aprende na oficina somente a escrever uma história, mas entender os signos que compõe o texto literário.

Assim como Priscila Faisbanchs faz tão bem no conto “Nuvem”, onde a personagem de apenas sete anos de idade planeja junto com a mãe o assassinato do pai, homem agressor, que não merece o perdão de ninguém. Ou então em “Atire”, de Geórgia Alves, que mostra a surpresa que o narrador causa ao assaltante, quando encomenda a própria morte. Um conto, aliás, que apesar de curtíssimo, carrega a incrível densidade submersa nas entrelinhas. E assim o leitor segue, começando pelo conto “A espera”, do autor Ademilson Costa, em um jogo de diálogos muito bons, sobre a senhora que traz a triste notícia para um dos personagens que está esperando a esposa em casa, que foi visitar a mãe idosa. Conto seco, rápido, cortante. Como um deslizamento de terra que destrói vidas e encerra futuros.

“Cassandra”, de Adriano Dechicha, narra a vida da jovem perseguida pelas tias conservadoras, que trabalham nas sombras pela infelicidade da sobrinha. No conto seguinte, “Como antigamente”, acompanhamos um velório sob o ponto de vista do irmão do falecido, através da percepção curiosa que ele tem sobre a finitude. André Albuquerque apresenta a história do jornalista às voltas com a cobertura do assassinato de uma mulher, na linguagem crua que evoca Rubem Fonseca, com elementos surpresa. Centrado na fixação pelo caso que não sai da cabeça do protagonista. “O que é um nome?” é digno para entrar no hall dos melhores contos policiais.

“Formigas”, de Conceição Rodrigues, é sobre a estranha admiração do rapaz por esses insetos e também por figuras que povoam a sua vida, baseado fortemente nas lembranças eróticas dele nas relações com as mulheres que fazem (ou fizeram) parte da sua vida. O conto seguinte, “Sr. Ávila”, da mesma autora, mostra um velho abandonado pela família no asilo. Aqui, a violência e a amargura é trabalhada nos detalhes das falas, nas observações do idoso, em terceira pessoa. “Todos os anos fazem missa em ação de graças à sua ausência?”, um enfermeiro pergunta ao idoso.

Já no conto “Em branco”, de Fábio Albert Mesquita, um homem vai perdendo a própria identidade, até não lhe restar nada mais que o vazio de si mesmo. “Pizza”, do escritor Filipe Souza Leão, apresenta a vida do pastor evangélico que não aguenta o peso do ofício, ainda mais por não ser exatamente quem as pessoas acham que ele é. O texto, de forma acertada, esconde mais do que revela. Num jogo dúbio de palavras e mistérios. “Não ser o pastor e nem ser Neto, queria ser quem é”, o personagem-narrador observa em determinado trecho. “Meu encontro com um morto vivo”, de Francisco Bacelar, traz à luz um enredo fantasmagórico, ambientando na Recife de tons urbanos, que carrega a marca do cotidiano atravessado pelo insólito.

Os autores

“O mesmo mar”, de Lucas Fitipaldi, a divisão de classes é trabalhada em linhas longe de qualquer clichê. Mostrando realidades distintas entre uma advogada rica e um professor pobre de inglês, que estão curtindo a mesma praia no dia de sol e acabam entrando no flerte.

“A liberdade cheira à lama”, Marcelo Dantas escreve um conto de traços poéticos e pegada urbana, sobre um jovem que pode ter a vida modificada com a revelação que a namorada irá fazer. A lama do título, do mangue na beira do rio Capibaribe, ajuda a compor as sensações do narrador. “Frevo noir”, do autor Paulo André Souza, o leitor acompanha as peripécias de uma mulher do interior no carnaval recifense, se embrenhando na multidão com a mistura de sons, suores, desejo e morte. Texto afiado e rápido, como um passo de frevo.

No conto seguinte, “O princípio da incerteza”, do mesmo autor, algo como uma recriação de Mobe Dick é trazido para os mares da capital pernambucana. Mas ao invés da baleia, o tubarão, claro. Na elegância da prosa de Sônia Marques em “Tiques”, a psicanálise é o centro do enredo, entremeado com questões filosóficas sobre a existência, tendo como base a conversa entre duas amigas sobre o motorista de uma delas, que tem um tique nervoso. O final deste conto descamba para a situação de violência extrema. De forte impacto moral, ético e assassino.

Thaís Sales participa do livro com “O silencio e a fúria”, mostrando a rudeza da personagem que cresceu sem mãe. A maldade no centro da relação familiar. Com frases bem delineadas, de suspense que se mostra aos poucos. “Era a única coisa em excesso naquele pedaço de fastio. O silêncio cúmplice ficou pesado”, diz a narradora, justificando o peso da sua existência. Seguindo dessa forma no conto “Santo ofício”, também de Thaís, sobre a história de Agda, jovem que entendeu desde cedo o poder das palavras, mas que teve de enfrentar a agressividade do pai por não aceitar o desejo da filha em ser escritora. Neste texto, existem elementos fantásticos. De tão bem escrito, é quase possível sentir a mesma dor que a jovem carrega, tanto na alma quanto no corpo, em diálogos internos, deixando a narrativa ao mesmo tempo densa e fluida. Ambientado no sertão, este conto é de uma triste beleza.

Em “Luz Vermelha”, dois garotos descobrem os prazeres do sexo. Narrado através da lembrança de um deles já maduro. Do mesmo autor Walfrido Menezes, ‘As rosas não dizem”, apresenta a curiosa fixação do personagem com as rosas. “Amanhã bem cedo talvez ainda esteja escuro”, de Zuleide Lima, é a história do casamento que começou fracassado. “As juras do altar ainda ecoam no ouvido e se misturam aos xingamentos”, sentencia . Zuleide encerra a antologia com “O quadro torto”, mostrando os encontros e desencontros de uma família numa linha de tempo que vai se amarrando e revelando segredos, com o Transtorno Obsessivo Compulsivo ligando as mulheres da família.

Os textos da antologia carregam a marca incrustada da severidade e a arte de contar boas histórias. Luz Severa, no final das contas, se mostra como um livro recheado das melhores ideias. Cada um, claro, dentro dos seus estilos. É uma reunião de fôlego, que apresenta escritores atentos ao ofício literário. Teoria e prática unidas para o desenvolvimento do ato criativo, a maravilha de escrever e a liberdade da criação, que podem ser percebidos em textos tão bem cuidados, que comungam do mesmo verbo da excelência criativa.

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