“Urubus”, livro de contos de Carla Bessa, mostra personagens que se alimentam das próprias contradições

Por Ney Anderson

Pense na figura do urubu. Uma ave que é conhecida por sobrevoar restos em decomposição, que se alimenta do fim, do cru, do que não presta mais. São lembrados sempre por este hábito corriqueiro para eles, mas que causa repulsa em nós. No entanto, eles não diferem tanto assim dos seres humanos. A linha que separa e, ao mesmo tempo, os conecta, é a necessidade que a tragédia tem alimentar ambos os seres. Enquanto tentamos nos esconder passivamente da miséria, da calamidade, porque temos algo que se chama de consciência ética, os urubus vão direto ao ponto. São consumidores ativos. Mas, igual a essas aves, o ser humano está sempre à espreita de algo para poder se fortalecer. É o seu néctar.

O que é o instinto de sobrevivência nos animais, e já faz parte da natureza deles, em nós essa noção vem acompanhada da consciência lúgubre.  Ao ler o livro de contos Urubus (Confraria do Vento), de Carla Bessa, é impossível não lembrar do conto “A causa secreta”, de Machado de Assis, quando o personagem principal se regozija com o sofrimento alheio. Mas, no livro de Carla, tudo é muito mais sutil. Nos contos da autora, ela trabalha com nuances das possíveis situações maldosas. E não percebemos, muitas vezes, no primeiro momento. Vamos sendo fisgados aos poucos.

O leitor entra no conto sobre a mulher que desanda a falar com um balconista do quiosque na praia, depois de ter deixado um estranho embrulho enterrado na areia. Enquanto come os quitutes, ela vai falando sobre quase tudo do passado. “E depois que eu cresci, quando já era uma mocinha, aquilo de pôr no colo continuou…”, diz, se referindo ao pai. Nesse conto, aliás, de tons tragicômicos, a linguagem é muito bem trabalhada para dar conta da tagarelice da mulher e esconder algo que só mais na frente será descoberto.

Em meio à podridão de um lixão, um jovem catador, Zezinho, encontra algo que parece ser o cadáver de um homem que se tornou, ele mesmo, o lixo, a partir da sua matéria (da sua alma) em decomposição. É ali que o garoto vislumbra o seu próprio futuro. Vendo o substrato da vida do jovem que retira a subsistência através daquele lugar insalubre, ainda mais para uma criança, espreitamos a história de alguém no limiar entre a vida, a esperança e a morte. E que ele mesmo pode ter o mesmo destino do corpo que encontrou. “O menino se ergue apoiando o bracinho naquele corpo encontrado ali. Observa espantado os urubus sobrevoando o lugar”.

Acompanhamos também um dia na vida de Wellington, motorista de ônibus, que começa o dia para cima, mas depois de alguns acontecimentos, tem a rotina modificada. Aqui a autora utiliza diálogos entrecruzados, pensamentos em flash back, tornando o andamento do conto com um bom ritmo. Em outro conto, sobre a senhora que tem obsessão em tirar fitas adesivas das frutas, ela relembra da maçã que sempre comeu descascada pelo marido durante 40 anos de casamento, mas que já não suportava o cheiro do outro, e o arrependimento por tanto tempo servidão. “A liberdade nascia velha, já não servia para nada”, resmunga para si mesma.

As situações dos livros vão se desenrolando, se cruzando levemente, até serem concluídas num rápido jogo de cena. Como no encontro fortuito entre os dois velhos que jogam tabuleiro em uma praça e dois assaltantes. Aqui o desfecho é impactante.

O impacto, inclusive, é matéria prima em todos os contos. Seja por seu caráter de surpresa, pela emoção ou do susto sem enfeites. Como, por exemplo, no dia em que um idoso, de mobilidade reduzida por conta da idade, sai do terceiro andar de um prédio sem ninguém ver e é atropelado. Da janela do ônibus, outros personagens o veem no chão. E o povo em volta, como urubus.

Ou então a avó que vive quase como uma empregada doméstica na casa do neto e da nora, que enquanto prepara a mesa do café da manhã, relembra um grande amor da juventude. E o homem que escreve uma carta para colocar no caixão da amante morta, vai até o velório, e a encontra afogada num mar de crisântemos.

E ainda o trabalhador, religioso, que se relaciona com um michê e não aceita que o perdeu de vista. “Toda sexta depois do turno na padaria, ele vai direto para aqueles braços fortes, de uma força de figueira brotando em muro de pedra. A oração um crédito de bênção antes do pecado, deus nos perdoe. E agora, para onde eu vou sem meu michê?”. O leitor se deparada com o personagem que quer ver pessoas, conversar um pouco, sair do marasmo, mas que acaba pagando o preço da idade e das mazelas que carrega no corpo.

No conto sobre paloma, a moça decide abandonar o marido, trocando por outro, mas que de tão desesperada entra em conflito. E os garotos engraxates que sonham em se tornar uma dupla sertaneja de sucesso. Mais na frente, o livro segue com o conto sobre o estrangeiro que resolve tomar um banho de mar à noite, nu, na área mais poluída do Rio de Janeiro, e acaba sendo assaltado. Voltando nu

As narrativas de Urubus vão se entrecruzando num caleidoscópio de situações, deixando o livro com um ritmo intenso, pulsante. Os contos têm a característica de já nascerem em movimento, nunca os estão estagnados esperando pelo leitor. As histórias já acontecem antes disso, desde a primeira sentença.

E assim conhecemos a vida da travesti prostituta que conta as diversas peripécias. “Sempre quis ser puta. Vida de puta é um castigo e uma bênção. Porque a pessoa nasce prostituta, sempre tem um gostinho que já traz do berço. E ela tenta fugir, mas está acorrentada a isso, feito Prometeu à rocha. E os clientes feito a águia bicando-dilacerando o seu fígado toda noite. Uma transa é uma transação, é um escambo, um negócio. Tenho pernas abertas, mas o corpo fechado”.

E Aparecida, residente de uma casa de repouso, que vê o fantasma do marido, confessando para si mesma: “é, é a velhice, ela é assombrada. Nem a morte nos separa”. Nesse lar de idosos, onde vários deles veem fantasmas, o conto é construído de tal maneira, brincando com a credulidade do leitor, que no final acaba convencendo com o que estamos lendo, tamanha é a precisão da história contada. Estamos entregues, somos todos presa.

Os textos de Urubus têm o prisma do humor cáustico, embalado na arte de contar boas histórias, com personagens em níveis diferentes de confronto com as mazelas do dia a dia, na alegoria da existência. Terminamos a leitura devotos da natureza dessas figuras, urubus da vida alheia, criaturas sorrateiras nos mostrando que é a vida é um grande repositório de contradições. Como muito bem resume um dos urubus no conto que encerra o livro, “o dia passamos assim a pairar, à espera, tranquilos e confiantes na nossa sorte, pois o que não falta aqui é carniça, a cidade inteira um lixão”.

“Lá embaixo esforçam-se para manter a fachada a falácia, mas para nós as janelas são espelhos. Riem bastante, cantam, dançam, riem, riem e riem, mas aos nossos olhos abutres não escapa a podridão por debaixo de pele tão quebradiça, fedem aos céus as devastações, os desesperos, as solidões, as desesperanças, os desamores, os atropelamentos, os assassinatos, os abortos, os suicídios, os escárnios, as indiferenças, a falta de gozo. A verdade é que estão se devorando uns aos outros. E depois nós é que somos os abutres, A nós deixam o trabalho de livrá-los de seus próprios restos. Deviam nos agradecer. Nós os fatídicos, os mau-agourentos, o ser humano é um bicho estranho mesmo. A nós deixam o trabalho de livrá-los de seus próprios restos. Deviam nos agradecer. Pois se estamos no fim da cadeia, também fechamos um círculo, somos: recomeço”.

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