A beleza brutal de “Entremeios”, romance de Cássia Penteado

Crédito: Manuela Valente

Por Ney Anderson

Uma artística plástica conhecida internacionalmente presencia um assassinato no centro de São Paulo, quando um corpo inerte cai aos seus pés. O choque inicial, no entanto, lhe serve de ideia para a próxima obra. Ao mesmo tempo que desperta nela sensações que até então estavam adormecidas. A partir desse fato, o novelo após o susto vai se desfazendo aos poucos, e uma trama incomum começa a se estabelecer.

Nas primeiras páginas do romance Entremeios (Ed. Reformatório), de Cássia Penteado, a história caminha a partir desse trauma que a protagonista sofre. Mas o que o livro estabelece no primeiro momento é uma espécie de não-lugar, porque tudo é centrado demais nas observações da personagem, tornando o texto, por vezes, monótono. No entanto, isso é puro artifício dos escritores que sabem dominar as mágicas do ofício, porque o romance de Cássia é desses que engam o leitor desatento.

É uma linguagem que não apenas pretende atingir o belo das frases bem construídas. Mas serve para mostrar as inquietações da artista, submergindo bem fundo nas suas emoções e pensamentos. São pinceladas sofisticadas que a autora faz com o texto. Ela atinge momentos altos de sofisticação.

Nenhuma palavra está escrita como simples enfeite. É tudo muito bem calculado, com acabamento cuidadoso em cada frase e sentença. É um trato diferente com as palavras. A linguagem como forma de alcançar a sensação dos sentimentos, seja ele qual for. Principalmente porque a personagem sempre é tomada por flashes do passado, e é carregada por lembranças e culpas por fatos ocorridos há muito tempo.

Ela tem um olhar poético sobre todas as coisas, até por conta do próprio ofício. Dona de um sítio no interior, onde fica instalado o seu atelier, a personagem passa por um período em branco, sem criatividade, até que tudo começa a voltar à normalidade.

Ela, que também é a narradora (o nome nunca é citado), mantém um relacionamento cada vez mais morno com Andrew, um músico americano que mora em Nova York. Tentando se encontrar consigo mesma, buscando por algo que vamos descobrindo aos poucos.

A calmaria esconde algo muito mais perverso do que a narrativa supõe nas primeiras cinquenta páginas. Assim como um peixe indefeso que se deixa fisgar por um anzol atraente, o leitor é capturado pelo aparente enfado com que a autora conduz o seu texto no início, até a trama dá uma virada e fisgar a nossa atenção até o final.

Com mudanças entre a primeira e a terceira pessoa, a narrativa vai apresentando o que de fato está acontecendo. A mudança do ponto de vista (uma falsa terceira pessoa, na verdade) se apresenta quase como uma catarse, quando o seu espírito parece flanar, observando tudo como espectadora atenta às próprias ações. Essas transições fazem a personagem se renovar, ainda que de uma forma totalmente incomum. São certos prazeres que dão sentido à outra personalidade que ela carrega.

A artista plástica é alguém que revela um traço da personalidade mais contido, ideal para realizar os atos que a outra pratica durante a história. Cássia Penteado maneja um arsenal técnico-criativo com maestria para engendrar o leitor na sua estrada bifurcada.

“Fecho os olhos e inicio uma jornada tátil em busca das matérias-primas representativas das agruras e do mélico ocultos na vastidão acinzentada no intrínseco da alma. Seleciono alguns materiais. Sinto a atmosfera úmida e gélida do interior das cavernas. Tateio a escuridão. A magnitude dos espeleotemas define-se no foco tímido de minha lanterna e de minha memória. O gotejar mudo germina estalagmites. Ouço o chiar das águas que as acompanham desde o percorrer do vale cego. No interior da gruta, o rio carrega em si os excrementos dos morcegos. Era como se eu tivesse por base o Quadro preto sobre fundo branco e na noite interna de Malovich atrevesse-me a projetar alguma luz. Na escuridão, lanço luminescência. Escondo sombras”.

O livro é recheado por mensagens interessantes, porque a personagem é uma artista muito ciente do seu trabalho, do que ele representa , e a transcendência que a obra de arte pode provocar. Em certo momento a narradora diz, “na escuridão, lanço luminescência. Escondo sombras”. Esse é um ponto chave para compreendermos a mente desta mulher. É alguém que tateia no interior das cavernas, da própria escuridão. Não por acaso, o nome das peças que ela produz, e das exposições que realiza, carregam o tom para dentro, como: “Vísceras e Vulcões”,  “Espelho côncavo”, “Abismo” e “Camuflagem”. É do habitat mais profundo que ela alimenta as ideias para a criação da sua obra. E é justamente por isso que o livro alcança ótimos resultados.

Entremeios tem uma pegada psicológica, com narradoras profundas, mudando sutilmente para mostrar a representação delas duas em uma só, ambas se cruzando de forma complexa. A dupla personalidade é trabalhada de maneira impecável. Enquanto uma é solitária, a outra é sedutora e sabe assumir o controle quando novas oportunidades surgem. O ponto de encontro entre essas as duas personalidades é o sítio no interior, onde tudo é mais lento, em outro ritmo. Justamente por ser lá o principal local de refúgio e de trabalho. Ideal para alimentar as obsessões.

É um livro de muitas camadas, que não se restringe com a primeira leitura. Ou a leitura que é apresentada em primeiro plano. Cada palavra tem um peso. Tudo é muito decisivo, inclusive (e principalmente) os silêncios. A narradora é alguém acorrentada na própria psique, em constante movimento para uma escuridão cada vez mais espessa. A linguagem é trabalhada como forma a alcançar a sensação dos sentimentos confusos da personagem central. O texto sorri como um sociopata, para depois mostrar a sua verdadeira face. Lendo este romance da autora, percebemos que a morte pode ser bela, no sentido estético da ficção. Mas quando nos damos conta, já entramos de cabeça na escuridão da narrativa, na beleza da sua brutalidade.  

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