Por Ney Anderson

Um dos livros mais alucinantes do ano. Assim pode ser definido o romance “Não se começa um incêndio sem uma faísca”  (Editora Penalux), de Zeca Sixx. A história é sobre Vicente, ou Vic, um homem de quarenta e poucos anos, arquiteto, recém-separado e pai, que acha que os seus anos-dourados já tinham ficado para trás. Até ele conhecer em uma balada, uma festa aleatória, ou quase, no qual se mete como DJ, a escritora best-seller Bianca Rossi, que está enfrentado uma baixa na carreira. Esse encontro entre os dois é uma união explosiva. O enredo se passa em Porto Alegre, em 2022, no período turbulento da eleição e ainda com ecos da pandemia.

A história toda acontece em dois meses. É um romance febril, vertiginoso, que não para um segundo sequer. Zeca Sixx não poupa nas referências, sobretudo do rock porque os personagens, além de gostar do gênero, pedem isso. São jovens, saudáveis, vivendo tudo que a vida tem a oferecer, mas também com uma forte dose de desilusão. Eles querem apenas viver em alta frequência e assim o fazem.

O autor, aliás, tem a capacidade de colocar referências sem estragar a narrativa. É um livro carregado de citações, cheio de clichês, mas que funcionam perfeitamente no desenrolar da história. É quase impossível largar o romance até o final. Um texto atualíssimo, com bastante críticas às volatilidades das redes sociais. É um texto que reúne muitos elementos como sexo, drogas e rock and roll, com personagens (inclusive os secundários) loucos, histéricos, como uma balada regada aos encantos e mistérios da noite.

Zeca utiliza como recurso uma forma de ir e voltar no tempo, embaralhando a narrativa presente com pequenos flashbacks, recheadas por cenas enlouquecidas. Tudo acontece muito rápido, freneticamente. Os personagens estão, por vezes, presos na rotina, na mesmice, e buscam a todo custo mudar esse aspecto da vida nas loucuras que praticam.

O livro é intercalado por capítulos narrados em primeira pessoa, aproximando o leitor da história, por Vic e por Bianca. Na parte dela, a escritora de sucesso, tem muito sobre ser uma autora best-seller brasileira, com referências e influências de figuras literárias, como Pergunte ao Pó, de John Fante, também o uso da internet bem colocado nas cenas e no desenvolvimento da trama. O autor faz o dia a dia desses dois personagens brotar nas páginas de maneira muito tranquila. Por isso, as tantas referências surgem quase que casualmente.

O romance de Zeca Sixx é vivo. Fala de vida pulsante, de relações humanas, da experiência maravilhosa da existências e todas as suas possibilidades, mas também da chatice dos dias iguais e da incerteza do futuro. Muitas cenas com coisas corriqueiras e engraçadas dão frescor à narrativa, movimentando muito bem a história. É um texto também incendiado pela política atual, pela polarização, mas com bastante ironia. O autor utiliza toda essa salada sensorial de citações com incrível habilidade, preenchendo a história com elementos que ajudam a compor a velocidade da narrativa, com a vida que pulsa em toda a sua extensão.

Então, dessa forma, entram vários elementos nesse caleidoscópio narrativo de sensações e emoções. A trilha sonora, inclusive, é muito presente na trama. É como se a música não parasse de tocar enquanto estamos lendo, justamente porque são festas regadas a muito álcool, drogas e sexo. É um livro que apresenta dois pontos de vista diferentes, dois mundos distintos, mas complementares de Vicente e Bianca Rossi, personagens que se encaixam perfeitamente, nessa mistura de nitroglicerina pura.

“Não se começa um incêndio sem uma faísca” é um livro bastante atual, que é preciso ser lido agora, no calor dos dias, antes que a centelha exploda e jogue tudo pelos ares.

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