Adrienne Myrtes: “se a escrita não for o que empresta significado a tudo que você faz, não perca tempo com ela, vá fazer outra coisa”

Crédito das fotos: Dani Ortiz

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Adrienne Myrtes nasceu no Recife/Pernambuco e vive em São Paulo desde 2001.

É artista plástica e escritora. Participou de algumas antologias, destacando: Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século, (Ateliê Editorial, 2004), 35 Segredos para Chegar Lugar Nenhum, (Bertrand Brasil, 2007) e Assim você me mata (Terracota Editora, 2012). Publicou: A Mulher e o Cavalo e Outros Contos (Alaúde e eraOdito, 2006), o romance Eis o Mundo de Fora (Ateliê Editorial, 2011) cujo projeto recebeu o Prêmio Petrobras Cultural 2008/2009, a novela uma história de amor para Maria Tereza e Guilherme (Terracota Editora, 2013) e Mauricéa (Edith, 2018), finalista do Prêmio Jabuti, 2019.

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O que é literatura?

A inventora do ser humano. Explico: se o que separou o homem pré-histórico do homo sapiens foi o desenvolvimento da escrita, a literatura inventou o que pensamos ser.

O que é escrever ficção?

Mentir bem

Vocação, talento, carma, destino…..o escritor é um predestinado a carregar adjetivos que tentam justificar o ofício?

Creio que a literatura nos escolhe, a arte, de maneira geral.

Qual o melhor aliado do escritor?

A página, ou tela, em branco.

E qual o maior inimigo?

Se levar a sério.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Sempre. Mesmo que o escritor se pense avesso à política, viver é um ato político.

Quais os aspectos que você leva em conta no momento que começa a escrever?

Minha necessidade de pensar, ou mastigar algum sentimento. No geral, esse é o gatilho para o texto, e é o que eu levo em conta quando inicio a escrita.

A literatura existe para entendermos o começo, o meio ou fim?

A literatura existe porque, humanos que somos, necessitamos perguntar. Se isso nos leva a alguma compreensão é aleatório.

Se escreve para buscar respostas ou para estimular as dúvidas?

Para estimular as dúvidas e nos apaziguarmos do fato de sermos seres duvidosos.

Criar é tatear no escuro das incertezas?

Não gosto do usar criação quando se trata da escrita porque penso que não damos origem a algo a partir do nada. Penso que sempre partimos de nós e do nosso olhar mesmo quando dizemos de coisas diversas. Mas escrever é tatear sentidos para as palavras e as palavras são incertas.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“Nem parece que todos vós tendes intestinos e, na ponta desses intestinos, um lamentável cu, exatamente igual ao que tem vosso açougueiro, vosso chofer, vosso camareiro, vossos cachorros e vossos cavalos de raça. Vosso cu é a melhor arma que tendes para afugentar os maus pensamentos, que são aqueles que vos afastam da simplicidade humana e da humana aceitação da vida _ e é para o vosso cu que vos conclamo olheis diante do espelho, se preciso de joelhos e com uma vela nas mãos para enxergar melhor, toda vez que vos sentirdes possuídos de um orgulho oceânico e vos julgardes tão poderosa quanto vosso Deus, que pelo menos (que eu saiba) não tinha nenhum cu à vista.”  Campos de Carvalho in, A Lua vem da Ásia

É possível recriar o silêncio com as palavras? Como?

Acredito ser possível e mesmo necessário a certos trabalhos literários, não sei se recriar, mas compor com o silêncio.

O como é algo que sigo perseguindo, tateando as letras tentando encontrar as brechas para deixar o não dito falar mais alto.

Você acredita que qualquer pessoa pode escrever uma história? Mas, então, o que vai fazer dela escritora, de fato?

Escrever, sim, acredito que qualquer pessoa possa fazer, se essa história vai de fato se comunicar com a humanidade no outro, se vai estender uma ponte entre esses mundos, é outra história.

A meu ver o escritor nasce quando existe a necessidade da escrita. Costumo dizer que se a escrita não for o que empresta significado a tudo que você faz, não perca tempo com ela, vá fazer outra coisa.

É preciso saber olhar o mundo com os olhos da ficção? O mundo fica melhor ou pior a partir dessa observação?

Sim, a meu ver, o olhar é o diferencial na escrita.

O mundo é o que é, tomamos mais consciência, passamos a enxergar melhor, o julgamento de valor é individual e, no meu caso, varia a partir da lua. Em alguns dias convivo bem com a humanidade,  em outros ela é uma roupa na qual eu não caibo.

Todo texto ficcional, mesmo os mais extensos, acaba sendo apenas um trecho ou fragmento da história geral? Digo, a ficção lança o seu olhar para as esquinas das situações, sendo praticamente impossível se ter uma noção do todo?

Cada esquina é um excelente ponto para se observar e analisar o mundo. Os recortes ficcionais, em minha opinião, ao mesmo tempo em que estão contidos, também contém o todo.

Nesse sentido, uma história nunca tem início, meio e fim?

R – Penso nas histórias feito espirais, DNA do sentimento humano.

Você escolhe os seus temas ou é escolhido por eles?

Sou escolhida.

É necessário buscar formas de expressão cada vez menos sujeitas ao cânone, desafiando a língua, tornando-a mais “suja”, para se aproximar cada vez mais da verossimilhança que a história pede? Ou seja, escrever cada vez “pior”, longe da superficialidade de escrever “certinho”, como disse Cortázar, talvez na tentativa de fugir da armadilha do estilo único?

Para fugir da armadilha do estilo único, procuro escrever a partir da minha ferida. Tenho dificuldade com colocar regras gerais porque sei que todas têm exceções e essa também é uma regra geral. Enfim, acredito que se cada um partir do que lhe move em direção às palavras, vai encontrar a pulsação do texto, movimentada pela pressão sanguínea.

Quando é que um escritor atinge a maturidade?

Cada livro é o ápice da maturidade possível.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

Quando reescreve a história a partir de suas experiências, durante a leitura.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Obra Reunida, de Campos de Carvalho

Qual a sua angústia criadora

Criar pontes entre mim e o outro a partir da escrita.

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