Crédito da foto: Fernando Rabelo

Por Ney Anderson

Thriller ecológico de Morgana Kretzmann apresenta um país misterioso e desconhecido, onde o meio ambiente é força vital para a existência

Existe uma máxima quase universal em terras tupiniquins que diz que o Brasil desconhece o Brasil. Expressão que pode ser entendida por diversos fatores, tanto pelo tamanho continental do seu território ou, principalmente, por conta do apagamento, ao longo dos séculos, da verdadeira história do país. Uma nação que pulsa, sobretudo, a partir das riquezas e mistérios existentes em seus recônditos, pertencentes a um todo maior chamado latino-américa. Saber isso é compreender que há nas profundezas do Brasil muito mais coisas ocultas do que se possa imaginar, tendo o meio ambiente como o grande coração que mantém a vida em estado de permanência e esperança.

É com essa ideia de um Brasil de fronteira que a escritora Morgana Kretzmann trabalha em seu novo romance, “Água turva” (Companhia das Letras). Na trama, a autora cria uma contundente ficção para mostrar a ambição de poderosos que visam apenas dinheiro em detrimento da sustentabilidade. O cenário do romance é o Parque Estadual do Turvo, no Rio Grande do Sul, na fronteira com a Argentina.

Nessa região, políticos, empresários e moradores inescrupulosos pretendem construir a usina hidrelétrica Gran Roncador, prometendo uma suposta prosperidade ao lugar. Em paralelo à trama, mas não desconectada da história, existe o combate à caça ilegal exploratória de animais silvestres, sobretudo da onça-pintada, que só existe lá, feitas por um grupo do lado argentino denominado de Pies Rubros. Tudo isso envolto na mitologia de Sarampião, guarda-florestal que se tornou lenda após desaparecer no parque. Para muitos, desde então, tornou-se o guardião da mata.

A responsável pelo Parque do Turvo, a destemida Chaya, bisneta de Sarampião, tenta combater com unhas e dentes a ação dos caçadores, comandados por sua prima e rival, Preta. Na história também está a jornalista Olga Befreien, ex-moradora da cidade de Dourado, onde fica o parque, e assessora do deputado Afrânio Heichma, o cabeça por trás da construção da hidrelétrica. Olga, no entanto, não quer o sucesso da empreitada, mas a derrota do deputado corrupto. Voltar à cidade, entretanto, reaviva sombras do passado que ela julgava superadas.

Dividido em cinco partes intitulados Terra, Água, Fogo, Sangue e Fé, o romance apresenta nas páginas iniciais praticamente todos os personagens da trama, cerca de vinte e quatro. A maioria deles tendo alguma relação de parentesco com o Sarampião. “Água turva” começa bastante vertiginoso, com Chaya e Ângelo, um dos chefes do parque, tentando prender os caçadores no meio da floresta. Nesse capítulo de abertura é possível vislumbrar a ferocidade da narrativa, mostrando já aí, bem no início, que é um romance intenso.

O romance apresenta a conexão das pessoas com a terra, com a ancestralidade, misturada à contemporaneidade ligada ao tema da corrupção dos que tentam destruir o passado em troca de dinheiro em abundância, podendo ocasionar uma tragédia irreparável, talvez o possível fim dos recursos naturais. Não por acaso, a jornalista Olga tem participação determinante na história.

“Água turva” é um romance que mais parece um livro-reportagem, tamanha é a riqueza de detalhes e proximidade com a realidade do país. Sobretudo do jogo sujo político, da ganância dos representantes do povo e nos embates no entorno da construção da hidroelétrica Gran Roncador. De iniciativa, ironicamente, do Partido Nacional Ambiental, aliado do mandatário extremista que comanda o país. A linguagem é composta por várias vozes.

O romance mostra um Brasil de fronteira, povoado por muitos mistérios, segredos e lutas geracionais, marcadas por muitas mortes ao longo das décadas. São personagens com histórias mal resolvidas e de passado nebuloso, nunca mostrado totalmente ao leitor. Sempre existe um tipo de neblina metafórica por trás das coisas que acontecem, o que ajuda a dar robustez à narrativa e bastante densidade psicológica, reverberando nas ações violentas.

A estrutura do texto é um ponto positivo, que ajuda a dar forma ao poder da mensagem do romance, com a clara mensagem do combate à agressão ao meio ambiente. A questão ecológica é bastante forte e central.

Curiosamente, no centro familiar da atual geração da família Sarampião reina a intriga e confusão, com vários deles tomando rumos diferentes, mesmo o patriarca sendo uma espécie de protetor xamânico daquele lugar. É uma trama com muitos cruzamentos e ligações, tendo como conexão a Unidade de Conservação do Turvo, com dezessete mil hectares, de onde brotam histórias e mais histórias do povo ligado à terra em várias épocas.

Uma ligação bem mais do que ancestral, quase sobrenatural, de pertencimento, mas numa rivalidade histórica. O enredo funciona com as pontas dessas histórias todas sendo tocadas em menor ou maior grau. Nada existe por acaso no romance, tudo é muito bem articulado, com causa e efeito.

É um povo rude e lutador, que não baixa a cabeça para ninguém, muito menos para bandidos do colarinho branco. O povo que luta pela terra dos desmandos dos poderosos, ajudados pelas “almas” que protegem a floresta e tudo o que há nela, dando um saboroso e sutil toque sobrenatural.

“Salto do Yucumã”, no Rio Grande do Sul, é conhecido por ser o maior salto longitudinal do mundo.

Aqui existe uma trinca bem clara: família, política e comunidade. Como bem observou Jeferson Tenório na quarta capa. Mas o que está em jogo, claro, é o meio ambiente. Um livro onde a questão ambiental é matéria-prima para a força da narrativa, em conflitos que se estreitam a cada página. O leitor acompanha cheio de expectativas sobre o que irá, de fato, acontecer. Tudo isso engendrado em uma narrativa polifônica, onde todos as vozes têm um peso muito grande.

Destaque para as personagens femininas fortes, que comandam verdadeiramente o romance. São elas que rezam para Sarampião como um mantra de proteção à natureza, repetindo para si próprias do fundo do coração.

“Água turva” é um romance que traz utiliza, em alguns momentos, os recursos na narrativa policial, mas dando um frescor na construção das cenas, mesmo não sendo declaradamente um texto do gênero. A autora usa deste recurso, transformando a história em algo maior, com diversas conexões, para nos contar uma história tendo como principal personagem o Parque Estadual do Turvo e toda a mitologia que habita a região. Aí é que o thriller se apresenta tão bem, pois o texto não para um minuto sequer. Não apenas na ação pela ação, mas, principalmente, no que os personagens têm a preencher nesse thriller ecológico.

Cabe ressaltar que é impossível não se sentir dentro história e ficar impressionado com cenários deslumbrantes como a queda d’água Yucumã, o maior longitudinal do mundo, enriquecida pela bela pintura na capa da obra “Jaguari”, do respeitado artista plástico gaúcho Iberê Camargo.

Ao criar essa história sobre o Brasil de fronteira, Morgana nos mostra que conhecemos pouco esse país e os seus mistérios que se escondem nas matas e nos rios, nos segredos ainda tão intocados dessa nação latino-americana. Neste livro poderoso se entrelaçam ficção, realidade e fantasia, a partir da improvável união e amizade entre essas mulheres, Chaya, Olga e Preta, baseada na resistência delas e na força das comunidades por um bem comum.

Morgana Kretzmann escreveu um intenso romance sobre a fé na vida, mas também sobre a fé no que não se pode ver, apenas sentir e respeitar.

Texto publicado originalmente no dia 18 de maio, no Pensar, do Estado de Minas. 

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