André Balaio: “é possível recriar tudo com as palavras. O mundo, o caos, a guerra, o gozo, o mistério e o silêncio”

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Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

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André Balaio (Recife/PE) é escritor e roteirista de quadrinhos e cinema. Tem inúmeros contos publicados em revistas literárias como Gueto, Vício Velho e InComunidade (Portugal) e coletâneas impressas. Seu conto O lado de lá foi o vencedor do prêmio literário internacional Off Flip em 2016. Foi finalista dos prêmios nacionais SESC e CEPE em 2018. Neste mesmo ano publicou o livro Quebranto pela Editora Patuá, com 13 contos. Quebranto foi o vencedor do Prêmio Vânia Souto Carvalho da Academia Pernambucana de Letras como melhor obra de ficção do ano. Atualmente está concluindo um novo livro de contos e tem um romance já iniciado.

É autor dos roteiros das histórias em quadrinhos: A Rasteira da Perna Cabeluda (Edições Bagaço, 2015), Malassombro – Assovios na Mata (Edições do Autor, 2016) e A Maldição Circular (Edições do Autor, 2017). Adaptou o livro Assombrações do Recife Velho de Gilberto Freyre para quadrinhos (Algumas Assombrações do Recife Velho, Global Editora, 2017). Colaborou no roteiro do longa-metragem Recife Assombrado lançado em 2019 e disponibilizado no Canal Brasil em 2021.

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O que é literatura?  

Há muitas respostas possíveis. Para mim, literatura é o afeto criado através da linguagem. Afeto vem do latim affēcto que quer dizer sentimento. Então, fazer literatura é usar a linguagem provocar o sentimento, a emoção das pessoas. A palavra sentimento aqui não está relacionada ao sentimentalismo. Pode ser um sentimento de prazer estético, de algo profundo que nos eleva e modifica.

O que é escrever ficção?

É questionar através da narrativa. Criar o real a partir do irreal. E usar personagens e seus conflitos para deixar um grilo falante na cabeça do leitor.

Vocação, talento, carma, destino…..o escritor é um predestinado a carregar adjetivos que tentam justificar o ofício?

Não acredito em predestinação ou carma. É preciso ter aptidão, vontade e algum talento, nada que seja inato, mas construído ao longo do tempo. Há de se amar a leitura e a companhia dos livros, ter uma curiosidade sobre o mundo e a vida das pessoas. E ter desprendimento para a perda, certa dedicação à solidão, à análise, à tentativa e ao erro.

Qual o melhor aliado do escritor?

A paciência. Dificilmente um texto fica bom nas primeiras versões. “O lixeiro é o maior amigo do escritor”, já disse Margaret Atwood. Então é preciso saber que o tempo do fazer literário pode não ser o das nossas expectativas. A ansiedade pela publicação e pelo reconhecimento, pode ser fatal para um projeto literário.

E qual o maior inimigo?

A autocomiseração. Achar que já fez muito, que não há o que melhorar. A autocrítica é necessária. Não ao ponto de um Kafka, que pediu a amigo Max Brod que queimasse seus manuscritos, mas no sentido de não publicar aquilo que se acha que pode melhorar.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

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Sempre. Escrever é lidar com subjetividades, questionar o estabelecido, o status quo. Nada é mais político. Não é preciso tratar de temas diretamente relacionados, talvez até melhor deixar que eles fiquem em camadas mais profundas. Escrever é o mais profundo dos atos políticos, porque a literatura provoca pequenas revoluções internas que transformam o ser humano.

Quais os aspectos que você leva em conta no momento que começa a escrever?

Sempre começo por uma ideia que martela a cabeça. Pode ser uma cena, uma imagem, uma história que ouvi falar. É a centelha inicial. Dela, chego aos personagens e suas contradições, angústias e conflitos. À medida que escrevo, tento ler o texto com os olhos de um leitor ou leitora inexistente, penso se não estou sendo banal ou desinteressante. Sempre busco provocar um efeito no leitor, mas tento evitar as ideias prontas, a redundância e o lugar comum.

A literatura existe para entendermos o começo, o meio ou fim?

Não sei se a literatura existe para entendermos algo. Acredito que ela não tem uma função específica, mas que deve provocar a fruição estética e uma transformação íntima. Se com o prazer e a transformação vem o entendimento de alguma coisa, ótimo. Mas pode não vir. E isso não a diminuirá.

Se escreve para buscar respostas ou para estimular as dúvidas?

Estimular as dúvidas. A incerteza de uma obra é o terreno fértil para a semeadura do leitor. Deve-se plantar a dúvida, desequilibrar as certezas, perguntar sem esperar respostas. São as perguntas que emocionam e transformam.

Criar é tatear no escuro das incertezas?

Sim. Criar é lidar com o que não se sabe, procurar saídas, queimar navios, alçar voos cegos, partir sem saber aonde vai chegar. Você vai em frente como um explorador, não como um entregador de correio. A obra se faz durante o processo de escrita e cada palavra, cada vírgula, pode mudar tudo.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta. Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita. Será que teve uma precursora? Sim, de fato teve. Na verdade, talvez jamais teria existido uma Lolita se, em certo verão, eu não houvesse amado uma menina primordial.”

Lolita de Nabokov provoca sentimentos muito contraditórios. É uma obra que nos desarma, nos tira o chão. Tudo isso através da linguagem, da narrativa, de personagens muito bem construídos. É uma das obras que mais me impactaram na vida.

É possível recriar o silêncio com as palavras? Como?

Sim. É possível recriar tudo com as palavras. O mundo, o caos, a guerra, o gozo, o mistério. E o silêncio. Recria-se com a linguagem, sempre ela. O silêncio literário não se faz com o vazio, mas com a descrição do vazio.

Você acredita que qualquer pessoa pode escrever uma história? Mas, então, o que vai fazer dela escritora, de fato?

Contar histórias é uma característica do ser humano. Desde o início dos tempos, a comunicação é feita através da contação de histórias. As pinturas rupestres são a prova disso. Escrever uma história, porém, requer domínio de uma técnica para criar interesse, mover o leitor de um lugar para outro, chegar às suas vísceras. Isso só se consegue através da leitura de muitos bons livros, do entendimento das possibilidades da linguagem, da intenção em causar o efeito no leitor e na prática insistente da escrita e reescrita.

É preciso saber olhar o mundo com os olhos da ficção? O mundo fica melhor ou pior a partir dessa observação?

A ficção faz do mundo um lugar melhor para viver.  A realidade pode ser por demais simples, rasa e bruta. Então, os olhos da ficção podem inclusive ajudar a entendê-la melhor. Através da ficção podemos viver outras vidas e ocupar outros lugares que a realidade não nos permite. Isso nos potencializa como seres humanos, nos faz aprofundar dilemas, traz questões mais sérias que, de outro modo, a vida cotidiana não nos traria.

Todo texto ficcional, mesmo os mais extensos, acaba sendo apenas um trecho ou fragmento da história geral? Digo, a ficção lança o seu olhar para as esquinas das situações, sendo praticamente impossível se ter uma noção do todo?

A noção do todo não existe nem na vida real. A gente vive nos espaços, nas esquinas. Uma história real também não existe, já que ela passa por inúmeros filtros. Mas a ficção pode recriar um todo, não o todo. Ou seja, a ficção pode criar algo novo, que ao mesmo tempo espelhe a história, a partir de seus recortes. A guerra de Troia durou dez anos, embora a Ilíada de Homero retrate apenas cinquenta e um dos seus dias. Esse restrito horizonte temporal foi suficiente para a criação daquela que é talvez a mais importante obra do Ocidente. O que importa não é a abrangência, mas o quão profundo se pode ir.

Nesse sentido, uma história nunca tem início, meio e fim?

No tempo cronológico, nunca. Mas tem no tempo mental. Aliás, gosto de pensar que a história tem início quando começa a leitura. E se for boa não terá fim, posto que continuará para sempre na cabeça de quem a leu.

Você escolhe os seus temas ou é escolhido por eles?

Alguns autores podem achar que foram escolhidos, mas os temas estão sempre em nós, às vezes de forma inconsciente. Então surge às vezes uma faísca, uma sugestão externa, que vai acender nosso interesse pelo tema. Mas ele já estava na nossa cabeça, faltava apenas despertá-lo.

É necessário buscar formas de expressão cada vez menos sujeitas ao cânone, desafiando a língua, tornando-a mais “suja”, para se aproximar cada vez mais da verossimilhança que a história pede? Ou seja, escrever cada vez “pior”, longe da superficialidade de escrever “certinho”, como disse Cortázar, talvez na tentativa de fugir da armadilha do estilo único?

Não. É preciso provocar o leitor com a linguagem. Pode-se usar uma linguagem erudita, tradicional e canônica para criar um texto absolutamente original e provocador. Penso em Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, como exemplo. Mas há muitos outros. Agora, se o uso de uma linguagem suja faz sentido para o projeto estético do autor, ele deve seguir em frente. Felizmente não há regras.

Quando é que um escritor atinge a maturidade?

Nunca. Se considerarmos que a maturidade é a plenitude da arte, torço para nunca achar que já cheguei a ela. O fazer literário requer a permanente inquietação. O autor nunca está maduro, porque a maturidade equivale à morte artística. Há sempre o que melhorar. Como disse uma vez Faulkner: “Não se preocupe em ser apenas melhor do que os seus contemporâneos ou antecessores. Tente superar a si mesmo”.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

Quando o texto o afeta. Aí está o segredo da coisa: a reação de afeto estético do leitor, sua emoção, é o que provoca a cumplicidade. É difícil criar essa relação. Demanda técnica, análise, sensibilidade. É a ela que nós autores aspiramos.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Se considerarmos que “Em Busca do Tempo Perdido” de Proust é apenas um livro em sete volumes será ele. Estou trapaceando?

Qual a sua angústia criadora?

Transformar em linguagem os demônios que me habitam e tocar as pessoas com esta transmutação.

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