Andrea Nunes: “eu descrevo a imaginação do escritor como um bicho meio desvairado, que pode parecer assustador enquanto não aprendemos a domá-lo”

Lancamento Jogo de Cena | CEPE | 3por4Fotografia

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Andrea Nunes é  Promotora de Justiça em Pernambuco, membro da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror – ABERST,  e  membro da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba. Publicou a obra infantil O Diamante Cor-de-Rosa (Troféu Parahyba de Imprensa 1991), os romances policiais o Código Numerati em 2010, A Corte Infiltrada, (Prêmio Bunkyo de Literatura 2019) e Jogo de Cena (Prêmio ABERST de Literatura 2019). Andrea também recebeu a menção honrosa no prêmio Dulce Chacon da Academia Pernambucana de Letras- melhor escritora nordestina (2015). Participou da Printemps Littéraire Brésilien , a convite da Universidade da Sorbonne, palestrando sobre literatura entre os anos de 2015 a 2017 nas universidades da França, Alemanha e Portugal, e foi convidada pela Universidade de Kopenhague e pelo grupo de estudos em literatura brasileira contemporânea para o VII Colóquio internacional sobre literatura brasileira contemporânea, realizado em 2018 na Dinamarca, onde proferiu palestra sobre a literatura policial brasileira.  Foi ainda  indicada  pelo colunista e escritor Raphael Montes como um dos sete novos autores brasileiros para ler e se divertir, na sua coluna no jornal O Globo do dia 17.07.2017.

Andrea ainda foi colaboradora da revista Superinteressante na coluna Realidade Alternativa com o conto Querido Obituário (selecionado posteriormente para compor a coletânea com o mesmo nome lançado pela revista), e participou das antologias Olhar Paris e Escrever Berlim, organizados por Leonardo Tonus e publicados pela Editora Nós.  Participou da programação oficial da Bienal do livro de Pernambuco em 2019 com o bate-papo “O pós-colonialísmo  e a nova literatura policial brasileira”, com o jornalista Ney Anderson. Andrea também palestrou em São Paulo em 2019 sobre a representação da morte na Literatura , no evento HorrorExpo, a maior feira de suspense e horror da América Latina. Atualmente, está na fase de revisão ortográfica do seu novo romance policial, inédito,  que em breve buscará uma casa editorial.

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O que é literatura?

Penso a Literatura como a possibilidade de traduzir a vida em linguagem. Há, contudo, de se observar nesse processo de produção textual um certo padrão estético, e a capacidade de provocar transcendência no leitor. Por esse motivo, não há rótulos pré-estabelecidos para os tipos de gênero literário que caibam nesse conceito: até uma receita de bolo pode virar literatura. Desde que se saiba escrever com a técnica e a originalidade necessárias para tanto.

O que é escrever ficção?

O ser humano vem assimilando o conceito de que a arte existe porque a vida não basta, como já afirmou Ferreira Gullar. De tempos em tempos, a História nos oferece a possibilidade de compreender , revisitando agora Nietzsche , que sem uma válvula de escape, a realidade pode ser altamente destrutiva. Este é o segredo que a ficção proporciona: uma ferramenta pra escapar para dentro.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

A Literatura sempre ajudou a humanidade a compreender o momento em que vive. Não é por acaso que na República, Platão escreve sobre a expulsão do poeta da Pólis: a arte , em todos os tempos, ameaçou regimes totalitários e inspirou o questionamento dos seres humanos sobre o contexto em que viviam. Normalmente isso não é bem aceito por governos que querem impor seu ponto de vista. A literatura portanto nos regimes de exceção assume um duplo e essencial papel: manter vivo o pensamento crítico para além do autoritarismo das verdades impostas, e oferecer a válvula de escape da transcendência, da diversão e do arrebatamento dos espíritos quando tudo o que restar for pragmatismo e superficialidade. Nesse contexto, a Literatura é a um só tempo a trincheira e o campo de batalha: através dela, continuamos resistindo. Através dela, continuamos existindo.

Para além do aspecto do ofício, a literatura, de forma geral, representa o quê para você?

Eu vi uma vez uma coisa que me chamou atenção no prefácio de A Bagaceira, de José Américo de Almeida, que diz que existem muitas maneiras de se dizer a verdade, e que talvez uma das mais persuasivas seja contando uma mentira. Com essa frase dele – que também é promotor de justiça – eu tomei pra mim que a ficção é um caminho pra você falar as suas verdades, para você chegar nas pessoas e passar seu ponto de vista de uma maneira mais lúdica, mais palatável.

O escritor é aquela pessoa que vê o mundo por ângulos diferentes. Mesmo criando, por vezes, com base no real, é outra coisa que surge na escrita ficcional. A ficção, então, pode ser entendida com uma extensão da realidade? Um mundo paralelo?

Os escritores veem o mundo com lentes estranhas, como se precisassem o tempo todo traduzir tudo em palavras.  A ficção me parece uma realidade autocontida, ou apenas mais um modo de narrativa e vivência  coexistente com o que convencionamos ser efetivamente real. Há dias em que eu decido morar na Literatura.

Quando você está prestes a começar uma nova história, quais os sentimentos e sensações que te invadem?

Sinto mais entusiasmo do que os temores que alguns escritores relatam. A tela não branca não me intimida, ela me instiga, só sugere possibilidades.

A leitura de outros autores é algo que influencia bastante o início da carreira do escritor. No seu caso, a influência partiu dos livros ou de algo externo, de situações cotidianas, que te despertaram o interesse para a escrita?

Eu diria que foram as duas coisas: eu nasci num lar onde meu pai tinha sido preso pela Ditadura Militar no congresso da UNE de Ibiúna, e minha mãe era uma artista, que tinha Augusto dos Anjos como ancestral na árvore genealógica. Em minha casa então se respirava poesia maldita e livros proscritos. A liberdade de expressão e pensamento foram valores que aprendi como sagrados, e havia um grande respeito pela produção intelectual até de crianças como eu, que comecei devorando a coleção de Monteiro Lobato desde os três anos, quando aprendi a ler, e aos onze eu já era fã de Agatha Christie. Aos oito anos eu já fazia poesia, e aos catorze fiz meu primeiro livro, uma obra infantil que ganhou o troféu Parahyba de imprensa com melhor livro infantil publicado no meu Estado.

Você escreve para tentar entender melhor o que conhece ou é justamente o contrário? A sua busca é pelo desconhecido?

Meus livros buscam despertar um interesse e senso crítico do leitor por temas contemporâneos universais e regionais, diluídos em narrativas de suspense. Então é curioso que, quando eu trago certas reflexões de ordem política , espiritual , ética e filosófica, esse ato de desnudar-se de ideias preconcebidas sobre tais temas mexe comigo: para não ser superficial nem maniqueísta, trago ângulos que eu não tinha ainda considerado. Então vou refletindo junto, conforme o problema é posto. Às vezes termino de escrever um livro muito inquieta com as facetas do problema que resolvi abordar. Cada vez que eu esmiúço um tema assim, percebo que é preciso refletir muito e buscar mais conhecimento, para não ser engolido por esse nosso mundo tão ansioso por respostas prontas.

O que mais te empolga no momento da escrita? A criação de personagens, diálogos, cenas, cenários, narradores….etc?

Me divirto muito em enganar os leitores, e talvez seja por isso que a narrativa de suspense me prende tanto: um bom plot-twist exige o trabalho em todos esses elementos: o jogo de esconder e mostrar no modo de retratar os personagens , a malícia do narrador, a ambiguidade das falas e a sugestão subliminar que o cenário induz. Mas sem perder a coerência, de um modo que o leitor atordoado com o desfecho volte os capítulos depois resmungando “Como foi que eu não percebi isso antes?”

Um personagem bem construído é capaz de segurar um texto ruim?

No tipo de livro que eu escrevo – suspense policial- isso é muito difícil. Porque existe uma preponderância da ação na narrativa. Uma boa história é a coisa mais importante, até mesmo se o personagem não for lá grande coisa. Já vi grandes obras de suspense serem “perdoadas” no quesito personagem chato, ou mesmo previsível, desde que a história seja incrível. Mas não o contrário.

Entre tantas coisas importantes e necessárias em um texto literário, na sua produção, o que não pode deixar de existir?

Taquicardia. Sensação de que não pode morrer ainda porque o livro não ficou pronto. Se a gente não sente isso o texto não está bom o suficiente. A inspiração ainda não encontrou o caminho.

Nesse tempo de pandemia, de tantas mortes, qual o significado que a escrita literária tem?

Na pandemia, a possibilidade de viajar para outros cenários ficou restrita à imaginação que a ficção é capaz de despertar em nós. Sem isso, já teríamos enlouquecido após mais de um ano confinados. O Brasil viveu tempos estranhos, onde artistas eram chamados de vagabundos, e a arte taxada com uma inutilidade. Creio que , de um modo muito traumático as pessoas finalmente se voltaram para dentro e passaram a perceber que a escrita literária é não apenas essa possibilidade de viajar sem sair do lugar como também o modo possível de expressarmos para as gerações futuras todo esse redemoinho existencial que estamos vivendo. Não serão as notícias jornalísticas que darão aos nossos tataranetos a dimensão do que isto representa para o futuro do mundo : é a literatura. É o modo como reescreveremos nossa Humanidade.

No Brasil, o ofício do escritor é tido quase com um passatempo por outras pessoas. Será que um dia essa realidade vai mudar? Existem respostas lógicas para esse questionamento eterno?

Existe um círculo vicioso perverso : Há muito pouca fé do mercado editorial no autor nacional, porque o brasileiro  lê pouco o autor nacional. Mas o brasileiro não lê autor nacional porque conhece muito poucos deles. As livrarias não investem em dar visibilidade a títulos nacionais. As editoras por sua vez não querem comprar o risco de publicar tiragens que entendem que ficarão encalhadas. Há também poucos incentivos à formação de leitores. A profissionalização do escritor no Brasil teria de ter uma base que começa com o fomento à leitura , promoção de mais eventos de aproximação ente autores e leitores, e investimento maciço na formação do próprio escritor, com oferta de mais cursos acessíveis. Temos hoje associações como a ABERST que promovem cursos para seus associados, mas isso poderia ser uma política de Estado: escritores bem formados aumentam o nível de suas produções literárias, leitores interessados e próximos de seus autores compram mais livros, e finalmente deixaríamos de ter um “bico” e teríamos escritores profissionais, mas há um longo caminho a percorrer até aí.

A imaginação, o impulso, a invenção, a inquietação, a técnica. Como domar tudo isso?

Eu descrevo a imaginação do escritor como um bicho meio desvairado, que pode parecer assustador enquanto não aprendemos a domá-lo. Mas, uma vez que descobrimos que existem técnicas para levá-lo para onde quisermos, a tela branca do computador vira o paraíso para passear com esse animal. Eu costumo dizer que difícil não é escrever, difícil é viver, que não tem tecla delete nem processo de edição posterior.

O inconsciente, o acaso, a dúvida…o que mais faz parte da rotina do criador?

Muita coisa faz parte da rotina do criador, e para me ater apenas à parte prática  : insônia, dor na coluna pelas horas em frente ao computador, carência da família, exames médicos atrasados, e eventualmente até contas vencidas por pura distração… a vida real, enfim, que insiste em acontecer implacavelmente  enquanto você orbita em um nível acima dos ponteiros.

O que difere um texto sofisticado de um texto medíocre?

Como já mencionei acima, a originalidade no modo de descrever algo em palavras , e a capacidade de provocar uma sensação de transcendência costumam ser bons indicativos, dentro, claro, do padrão estético aceitável. Aliada a esse contexto, a simplicidade também é importante. Nada mais sofisticado do que a simplicidade.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

O leitor é meu cúmplice desde a primeira linha. Temos um acordo tácito onde ele sabe que vou engana-lo, e se submete a isso de bom grado. É uma manipulação consentida , e costumo levar muito a sério minhas obrigações nesse pacto.

O leitor ideal existe?

Não sei muito sobre perfeições. Mas meus leitores são maravilhosos, se existirem leitores ideais com certeza tenho muitos nesse segmento. Eles sofrem, pulam refeições e varam a noite sem largar o livro. Me dão feedback de como algumas passagens do livro mudaram a vida deles. São as partes mais felizes do meu dia.

O simples e o sofisticado podem (e devem) caminhar juntos?

No item 16 falei sobre essa pergunta. A simplicidade está contida na sofisticação.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“A civilização se constrói sobre uma renúncia ao instinto.” (Zygmunt Bauman em “O mal estar da pós-modernidade.)

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

“O Nome da Rosa”, de Umberto Eco.

Qual a sua angústia criadora?

Ter vivido em tempos tão únicos, com certeza diferentes dos tempos vividos por  outros antepassados escritores , e não ser capaz de traduzir isso tudo em Literatura. Preciso dar conta desse momento. Preciso também honrar as antepassadas mulheres que não tiveram a oportunidade que eu tenho de tornar a autoria feminina visível. São duas responsabilidades que me assombram.

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