Carlos Marcelo: “o meu pacto não se estabelece com a história, e sim com os personagens”

Crédito: Maria Alice Messias

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

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Carlos Marcelo nasceu em João Pessoa (PB), em 1970. É jornalista e escritor. Autor de Nicolas Behr: eu engoli brasília (2002), Renato Russo: O filho da Revolução (2009), O fole roncou: uma história do forró (2012, com Rosualdo Rodrigues) e Presos no paraíso (2017), lançado na França pela editora Gallimard em 2019 com o título de Captifs au paradise.

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O que é literatura?

Uma ponte entre duas ou mais pessoas.

O que é escrever ficção?

O exercício da liberdade.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Escrever é um ato existencial. Se considerarmos que, diante da indiferença extrema ao valor da vida como ocorre no Brasil, a afirmação da existência humana é um ato político, então escrever é um ato político.

Você escreve para oferecer o quê ao mundo?

Histórias capazes de transportar os leitores a outros lugares e outros tempos. Por meio destas histórias, apresentar as ações e emoções de pessoas imaginadas. E, quem sabe, levar os leitores a se envolver com estes personagens.

O que pretende tocar com a palavra literária, com a ficção?

Pretendo que a ficção consiga expressar o que não cabe ser dito em reportagens, ensaios, artigos.

Um mundo forjado em palavras. Se o tempo atual pudesse ser resumido no título de um livro, seja ele hipotético ou não, qual seria?

Dias desleais.

A incompletude faz parte do trabalho do ficcionista? No sentido de que nunca determinado conto, novela ou romance, estará totalmente finalizado?

Todo escritor, imagino, é tentado a fazer alguma alteração nos originais até o último momento da edição. Mas acredito que, se a obra literária foi publicada com o pleno consentimento do autor, é porque foi fruto dos maiores esforços para se atingir o melhor resultado possível sob determinadas, e ocasionalmente limitadoras, circunstâncias pessoais e sociais.

Qual o pacto que deve ser feito entre o escritor e a história que ele está escrevendo?

No meu caso, o pacto não se estabelece com a história, e sim com os personagens. Tento traduzir os dramas, as reações e os sentimentos deles, dos protagonistas aos coadjuvantes. Meu compromisso, então, é o de evitar simplificações e oferecer ambiguidade, intensidade e contradições da vida real a quem existe somente na imaginação.

O que pode determinar, do ponto de vista criativo, o êxito e o fracasso de uma obra literária?

Uma soma de fatores subjetivos e conjunturais pode determinar um êxito literário. Mas não consigo enxergar fracassos na literatura, e sim expectativas frustradas. Quanto maior a expectativa, maior a chance de frustração. Se uma obra literária conseguiu atingir em cheio ao menos um leitor, o autor já obteve o seu êxito: construiu uma ponte entre o imaginário de duas pessoas. No Brasil do século 21, devastado pela desigualdade social, pela violência e pela ausência de empatia, não é pouco.

Como surgiu em você o primeiro impulso criativo?

Pela leitura. Minha profissão, o jornalismo, ajudou a conhecer e formatar este impulso. Mas, se eu não tivesse descoberto outros mundos na infância por meio da leitura, jamais seria um escritor.

As suas leituras acontecem a partir de quais interesses?

Tenho interesse em diferentes visões de mundo, das contemporâneas às de outros séculos. Mas o ponto de partida, sempre, é a curiosidade.

Escrever e ler são partes indissociáveis do mesmo processo de criação. Como equilibrar o desejo de ler com o de escrever?

Não chamaria ler e escrever de desejos, mas de atividades essenciais – como respirar, comer, dormir.

Um escritor é escritor 24 horas por dia? É, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição?

Um escritor é um observador 24 horas por dia, mesmo que seja um observador dos próprios pensamentos e emoções. Não é uma benção nem maldição, mas uma característica de milhões de seres humanos.

O crítico Harold Bloom falava sobre o fantasma da influência. Você lida bem com isso?

Influências são incorporadas à escrita, como as vivências, observações, lembranças, sensações, delírios, emoções.

O escritor sempre está tentando escrever a obra perfeita?

Da minha parte, jamais teria esta pretensão. Acho que o escritor tenta sempre atingir a perfeição possível.

Como Flaubert disse certa vez, escrever é uma maneira de viver?

Escrever é uma forma de ler a vida.

Quando você chega na conclusão de que alcançou o objetivo na escrita (na conclusão) da sua história?

Quando consigo encadear em palavras todas as ideias que surgiram para uma história. Surge, então, um vazio que começa a ser preenchido com ideias para outra história.

A literatura precisa do caos para existir?

A literatura precisa traduzir sensações e ideias, muitas vezes caóticas, em palavras para existir.

O escritor é um eterno inconformado com a vida?

Não necessariamente. Mas nunca deve se conformar com a versão inicial de seu texto. Se a vida permitir, deve tentar aprimorar o seu trabalho.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

Citarei trechos de duas obras, tudo bem?

“De tudo, ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo, fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro.”
(O encontro marcado, Fernando Sabino)

Eu não pago mais nada, cansei de pagar! gritei para ele, agora eu só cobro!”
(“O cobrador”, Rubem Fonseca)

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (na versão integral).

Qual a sua angústia criadora?

Não tenho angústia de criar, mas de traduzir um pensamento em palavras; ou seja, de escrever. Um dia sem conseguir escrever o que a cabeça já criou é um dia angustiante.

 

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