Cleyton Cabral: “meu trabalho diário é cortar, serrar e montar textos com as ferramentas da linguagem”

Crédito: Ricardo Maciel

Por Ney Anderson

 

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Cleyton Cabral nasceu em Pernambuco, em 19 de março de 1985. É escritor, dramaturgo, ator, publicitário e especialista em escrita criativa. Publicou Tempo nublado no céu da bocaO menino da gaiola e Planta baixa e as coletâneas Mosaico e Escrever ficção não é bicho-papão. Foi vencedor por três anos do Prêmio Ariano Suassuna de Dramaturgia. www.cleytoncabral.com

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O que é literatura?

O mundo rearranjado em palavras.

O que é escrever ficção?

É equivalente a atividade de um carpinteiro: meu trabalho diário é cortar, serrar e montar textos com as ferramentas da linguagem.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Existir é um ato político. Escrever é amplificar o nosso ser político.

Você escreve para oferecer o quê ao mundo?

Escrever, para mim, é uma necessidade. Básica, como matar a sede. Escrevo para começar um diálogo com o mundo. Para me entender no mundo. Para ser lido. Para lançar perguntas e não respostas.

O que pretende tocar com a palavra literária, com a ficção?

O dedo de Deus, do E.T. e, principalmente, o coração do leitor.

Um mundo forjado em palavras. Se o tempo atual pudesse ser resumido no título de um livro, seja ele hipotético ou não, qual seria?

Seminário dos Ratos (Lygia Fagundes Telles)

Crédito: Alex Ribeiro

A incompletude faz parte do trabalho do ficcionista? No sentido de que nunca determinado conto, novela ou romance, estará totalmente finalizado?

Para mim, uma obra é sempre aberta e tem algo irregular, o leitor completa e escreve com o autor a narrativa, preenchendo as lacunas, os espaços vazios, sejam eles propositais ou não.

8 – Qual o pacto que deve ser feito entre o escritor e a história que ele está escrevendo?

Eu procuro não racionalizar muito quando estou escrevendo. Gosto de seguir o fluxo, me deixar levar pelas palavras da forma mais livre possível, como uma cachoeira. Só depois, vou vendo o que é rio e o que é pedra. Na reescrita, na montagem, é que entra o rigor.

9 – O que pode determinar, do ponto de vista criativo, o êxito e o fracasso de uma obra literária?

A qualidade literária é um valor bem subjetivo e difícil de mensurar. O que um autor acha criativo numa obra pode não fazer sentido algum para quem vai ler. Escrever é patinar no abismo.

10 – Como surgiu em você o primeiro impulsivo criativo?

Quando criança, ouvi alguém dizer para minha mãe que havia tomado um chá de cadeira. Fiquei horrorizado tentando imaginar como uma cadeira cabia dentro de uma xícara. Outro dia, quando fui almoçar com a família num self-service, li: filé ao molho madeira. Imaginei uma carne feita com raspas de porta ou pedaços de guarda-roupa. Eu já gostava de inventar mundos, recortava imagens de gibis e revistas, colava num calhamaço de papéis sulfite dobrados e criava minhas próprias histórias. Ali, tudo era permitido: reis comilões, princesas com poderes de aliviar cheiro de pum, trovões roucos, lagartixas que balançavam a cabeça sempre dizendo “não”.

11 – As suas leituras acontecem a partir de quais interesses?

Não tem um roteiro, minhas leituras ocorrem a partir do fluxo das minhas vivências e necessidades. Comecei um diário assim que a pandemia de Covid-19 se instalou no Brasil. Com isso, mergulhei bastante na leitura de diários de escritores. Meu diário do isolamento acabou virando tema de um ensaio reflexivo sobre literatura autobiográfica, trabalho final de uma pós-graduação em escrita criativa. Atualmente, tenho relido uma porção de coisas.

12 – Escrever e ler são partes indissociáveis do mesmo processo de criação. Como equilibrar o desejo de ler com o de escrever?

Estou lendo menos do que gostaria. Sigo escrevendo o diário do isolamento e não sei ainda quando colocar um ponto final. Consegui trabalhar em alguns textos e montar dois livros inéditos, um de contos e um de poemas.

13 – Um escritor é escritor 24 horas por dia? É, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição?

Um escritor dorme e acorda escritor. Na cama quando tentamos lembrar as imagens do sonho, na caminhada quando levamos as palavras dentro da cabeça para queimar as calorias e até na hora do sexo. As narrativas nos acompanham ao longo do dia. Muitas vezes paro alguma atividade para anotar algum insight, para não esquecer. Não vejo como maldição. Se é uma benção, não sei.

14 – O crítico Harold Bloom falava sobre o fantasma da influência. Você lida bem com isso?

“A única influência da qual é preciso defender-se é a de si mesmo”, dizia Bioy Casares. Por isso, sigo na eterna tentativa de fugir do que domino, para não me repetir e me copiar.

15 – O escritor sempre está tentando escrever a obra perfeita?

Sem paixão, dizia Nelson Rodrigues, não se chupa nem um Chicabon. Que dirá escrever uma grande obra? É preciso ambição senão corremos o risco de escrever algo médio.

16 – Como Flaubert disse certa vez, escrever é uma maneira de viver?

Sim. Observar uma formiga carregar uma folha nas costas, rir de si próprio, conhecer outras culturas e vivências. Escrever é viver colocando no papel.

17 – Quando você chega na conclusão de que alcançou o objetivo na escrita (na conclusão) da sua história? 

Quando passo pelo processo de reescrita e montagem do texto, decidindo o que fica e o que sai. Depois, gosto de ler com olhos de leitor, não de escritor, para perceber se alcancei os efeitos desejados com a leitura.

18 – A literatura precisa do caos para existir?

Sim. E, quando o caos termina, o escritor tem que ver as ruínas de perto.

19 – O escritor é um eterno inconformado com a vida?

Sim, as situações incômodas é o que nos impulsiona. Concordo com Philippe Lejeune quando ele diz que “as pessoas escrevem porque as coisas vão mal, mas também porque gostam de escrever.”

20 – Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“Vim a Comala porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo. Minha mãe que disse. E eu prometi que viria vê-lo quando ela morresse. Apertei-lhe as mãos em sinal de que o faria; ela estava para morrer e eu em situação de prometer tudo. “Não deixe de ir visitá-lo”, recomendou-me. “Chama-se assim e desse outro modo. Estou certa de que terá prazer em conhecer você.” Então não pude fazer nada a não ser dizer que o faria, e de tanto dizer continuei dizendo, mesmo depois que minhas mãos tiveram trabalho para se safar das suas mãos mortas.”

(Primeiro parágrafo de Pedro Páramo, de Juan Rulfo. Tradução de Eliane Zagury. 4 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996)

21 – Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Pergunta difícil, hein? Mas vou deixar aqui Pedro Páramo, de Juan Rulfo.

22 – Qual a sua angústia criadora?

Ficar paralisado e não conseguir produzir.

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