Gustavo Melo Czekster: “prefiro buscar o erro, o arroubo, o exagero, pois a imperfeição é o que faz a magia acontecer”

Crédito das fotos: Rochele Bagatini

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

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Gustavo Melo Czekster é advogado, formado em Direito pela PUC-RS, mestre em Letras (Literatura Comparada) pela UFRGS e doutor em Escrita Criativa pela PUC-RS.  É escritor, autor de dois livros de contos: O homem despedaçado (Dublinense, 2013) e Não há amanhã (Zouk, 2017). Com o segundo livro, foi vencedor do prêmio Açorianos 2017 (categoria Contos), do prêmio AGES de Literatura (categoria Contos e categoria Livro do Ano) e do prêmio Minuano de Literatura (categoria Contos), tendo sido finalista do Prêmio Jabuti 2018 (categoria Contos). Em 2021, lançou o livro A nota amarela, seguida de Sobre a escrita – um ensaio à moda de Montaigne. 

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O que é literatura?

Para mim, literatura é narrativa. Sei que é um conceito insuficiente, e que inclusive nem sequer abarca todas as possibilidades do que seja “literatura”, mas, pelo menos na minha concepção, literatura é algo que se relaciona à narrativa, ao contar histórias, sejam elas orais ou escritas, sejam elas calcadas na realidade ou não, sejam mentirosas ou verdadeiras. O único critério para analisar uma obra literária deveria ser a força da verossimilhança do mundo interno proposto por ela, e, por esse aspecto, acredito que cada pessoa teria a sua própria noção de literatura, pois cada leitor possui um grau particular de aferição da verossimilhança de uma obra, baseado nas suas experiências e visões de mundo.

O que é escrever ficção?

Escrever ficção é uma forma de pensar o mundo em palavras, não como se estivesse enunciando fatos e eventos e sim usando toda a força alegórica e metafórica de uma forma escrita para fazer com que aquilo que é narrado encontre não somente a vontade de transmitir algo do autor, mas também aquilo que o leitor imagina ou já vivenciou ou gostaria de experimentar. Escrever ficção é sonhar com uma outra realidade – e tentar explicá-la e deixá-la crível também para outras pessoas.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Viver é um ato político. Não existe maneira de viver (ou de escrever) sem sofrer influências políticas e sem realizar políticas, ou, no caso da literatura, sem que o texto apresente uma visão de mundo na qual está inserido também um posicionamento político. No entanto, não vejo política como a escolha de um partido ou de um viés ideológico, mas segundo Aristóteles, para quem a política tem por objetivo a felicidade, dividindo-se em ética e política, sendo que essa segunda seria as formas utilizadas por alguém para viabilizar a felicidade coletiva. Assim, todo escrever é um ato político, pois o autor visa denunciar situações, descrever o seu tempo, analisar as pessoas e as condutas, tudo com o objetivo de viabilizar formas de entender e elaborar a felicidade coletiva. Sei que sou minoria nesse entendimento, mas prefiro ficar longe do eterno Fla-Flu que se tornou a noção de política atual, pois a minha visão vai um pouco além de transitoriedades.

Você escreve para oferecer o quê ao mundo?

Absolutamente nada. Se eu pensasse em escrever para oferecer algo ao mundo, não conseguiria, pois me sentiria intimidado. Prefiro acreditar que eu escrevo e o mundo – ou os leitores e as leitoras – que pensem por si sós no que eu ofereci para cada um deles.

O que pretende tocar com a palavra literária, com a ficção?

Não tenho a pretensão de tocar em leitores, em sentimentos ou mesmo no espírito do tempo em que vivo. Meu único objetivo com a palavra literária é ser capaz de contar a história que desejo. Não uma história frágil, preguiçosa ou que me deixe descontente, mas a história conforme ela existe na minha imaginação. Para fazer isso, concentro todos os meus esforços, e considero que o meu objetivo pessoal com a ficção nem sequer é altruísta, mas bastante egoísta: escrevo para contar bem uma história, e não existe nada mais abominável do que uma boa ideia estragada por uma história mal contada.

Um mundo forjado em palavras. Se o tempo atual pudesse ser resumido no título de um livro, seja ele hipotético ou não, qual seria?

Alguns leitores (pessimistas) disseram que o título do meu segundo livro, Não há amanhã, encaixa-se com perfeição nos tempos atuais. No entanto, serei um pouco mais otimista e ficarei com o título da obra máxima de Proust, Em busca do tempo perdido, pois acredito que estamos em uma época de recomeços e de correr atrás do tempo que a pandemia e a situação atual do Brasil (seja ela política, econômica, ambiental, cultural, estamos atrás em tudo) estão nos roubando.

A incompletude faz parte do trabalho do ficcionista? No sentido de que nunca determinado conto, novela ou romance, estará totalmente finalizado?

Sim, a obra é algo que está sempre em andamento. A obra é sempre provisória e instável, e o próprio fato dela ter se tornado em obra em determinado tempo, forma ou local não quer dizer que essa seja a versão definitiva, mas somente a fixação que o autor deu para ela de acordo com um período da sua própria vida.

Qual o pacto que deve ser feito entre o escritor e a história que ele está escrevendo?

Um pacto de não-traição: o escritor compromete-se a escrever a história e ser fiel aos caminhos e verossimilhanças que ela exigir, mesmo que seja contrário ao que ele pensa ou à sua moral. Entre a história e a si mesmo, o escritor deve escolher a história, por mais sacrifícios e aborrecimentos que isso lhe cause.

O que pode determinar, do ponto de vista criativo, o êxito e o fracasso de uma obra literária?

Até onde o escritor está disposto a ser verdadeiro consigo mesmo e com a índole dos seus personagens para contar a história. O leitor sente quando um autor mentiu ou quando acrescentou situações para satisfazer algum grupo ou visão de mundo particular sua, e isso determina a permanência ou não de uma obra literária. De acordo com Horacio Quiroga, “contar a verdade dos seus personagens como se você mesmo fizesse parte do mundo deles”.

Como surgiu em você o primeiro impulsivo criativo?

Surgiu ao ver os livros na biblioteca dos meus pais e pensar que cada um deles tinha uma história, ou seja, existiam centenas – depois soube que eram milhares – de histórias a serem descobertas. O que me pareceu ainda mais incrível era que eu não precisava ficar restrito ao que os outros me contavam, mas podia inventar o que quisesse. Assim veio o primeiro impulso criativo, aquele famoso “e se…?”, e o resto foi tudo estudo sobre as formas como as histórias eram mais ou menos eficientes e muita, muita leitura.

As suas leituras acontecem a partir de quais interesses?

Em geral eu sou atraído pela trama do livro, por algum resumo ou sinopse e, em seguida, para pegar algo do “espírito” do livro, tento ler um trecho ou parágrafo. Se achei interessante, continuo lendo, mas é necessária essa curiosidade inicial. Não leio livro por causa de autores ou temas, mas se a história me atrai ou não.

Escrever e ler são partes indissociáveis do mesmo processo de criação. Como equilibrar o desejo de ler com o de escrever?

Eu prefiro ler a escrever. Acho ler muito mais divertido e menos estressante do que escrever um livro. Tenho momentos em que estou mais leitor e outros em que estou mais escritor, e é assim que vou equilibrando. No entanto, eu considero ler como uma faceta de escrever (pois ao ler, a minha cabeça também está analisando a forma com que o autor fez uma cena, uma descrição, um diálogo), assim como escrever é uma outra forma de ler também (enquanto escrevo, vou relendo e lembrando outras leituras semelhantes ou diferentes do que estou fazendo).

Um escritor é escritor 24 horas por dia? É, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição?

Sim. O Roland Barthes tem um texto muito engraçado sobre isso, sobre o escritor em férias, que, para ele, não existe: afinal, mesmo quando um escritor está de férias, na beira de uma praia, está pensando em histórias, tramas, personagens, ou seja, não consegue nunca deixar de ser o que é. Quanto a ser uma benção e uma maldição, acredito que, como quase tudo na vida, tem um lado bom e um lado ruim, a questão mesmo é saber dosar os bons momentos com aqueles ruins.

O crítico Harold Bloom falava sobre o fantasma da influência. Você lida bem com isso?

Sim, lido com muita tranquilidade. Ao invés de procurar uma originalidade impossível, prefiro pensar que sou o produto de uma tradição ocidental de literatura, utilizando as fontes e influências que são importantes para construir a minha obra, sem forçar nada e sem negar que sou credor de outros ótimos escritores e escritoras que li e formam meu background literário. Inclusive não sei o motivo pelo qual escritores temeriam a influência. Eu, por exemplo, adoraria ler minha obra e pensar “droga, isso aqui ficou Shakespeare demais!”.

O escritor sempre está tentando escrever a obra perfeita?

Sim, por mais impossível que seja esse ideal de perfeição. No entanto, hoje tenho uma visão um pouco diferente desse desejo. Nos tempos atuais, leio livros perfeitos do ponto de vista formal e do que a crítica entende como um livro bem construído, mas que acabam se tornando enfadonhos justamente por se encaixarem no que seria uma obra sem problemas. Hoje já prefiro buscar o erro, o arroubo, o exagero, o “dar um passo maior do que a perna”, pois a imperfeição é o que faz a magia acontecer.

Como Flaubert disse certa vez, escrever é uma maneira de viver?

Existe outra maneira de viver que não seja escrevendo? Estamos cercados por histórias: nossas, dos nossos amigos, dos nossos familiares, dos antepassados, das pessoas com quem convivemos, dos livros… estamos sempre escrevendo ou sendo escritos, o que depende é sabermos se estamos sendo escritos por um autor habilidoso ou por alguém repleto de clichês e de obviedades.

Quando você chega na conclusão de que alcançou o objetivo na escrita (na conclusão) da sua história? 

Em geral, quando começo qualquer história, tenho muita noção de como vou acabar, então toda a escrita encaminha-se na direção desse final imaginado. No entanto, como acontecem mudanças narrativas às vezes no meio da história, eu acabo tendo que ajustar a forma do final, mas nunca a ideia principal. Assim, eu chego à conclusão quando enfim atinjo o ponto imaginado desde o início, e aí o final – o momento de parar de escrever – é uma mera consequência do gesto que o iniciou.

A literatura precisa do caos para existir?

A literatura é uma forma – ineficaz – de organizar o caos de tudo e, por ser assim, ela nasce do caos, respira no caos e vem ao mundo tentando discipliná-lo. Não consigo conceber um literatura que nasça da organização e da tranquilidade de espírito; todas as obras que conheço possuem um aspecto de insanidade, de incerteza, de jogar os dados com Deus – em suma, necessitam de elementos vindos do caos interno de um autor ou autora.

O escritor é um eterno inconformado com a vida?   

Creio que essa seja uma visão muito romântica do escritor! Acredito que escritores possuem uma sensibilidade diferente diante da vida; não é algo de empatia, de simpatia ou de identificação com o outro, mas uma forma alternativa de ver o mundo. Em alguns autores, isso pode resultar em inconformidade, em outros pode ser revolta ou talvez outros sentimentos, mas é fato que cada escritor possui uma forma diferente de sentir a vida, tentando encapsulá-la em palavras para transmitir para outras pessoas.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

O início de Um conto de duas cidades, de Charles Dickens, é algo que sempre me lembro e que consigo aplicar em diferentes etapas, tanto da minha vida quanto dos fatos do mundo: “Aquele foi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos; aquela foi a época da sabedoria, foi a idade da insensatez, foi a época da crença, foi a época da descrença, foi a estação da Luz, a estação das Trevas, a primavera da esperança, o inverno do desespero; tínhamos tudo diante de nós, tínhamos nada diante de nós, íamos todos direto para o Paraíso, íamos todos direto no sentido contrário – em suma, o período era em tal medida semelhante ao presente que algumas de suas mais ruidosas autoridades insistiram em seu recebimento, para o bem ou para o mal, apenas no grau superlativo de comparação”.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

As mil e uma noites. Além de possuir os mais diferentes tipos de histórias e de tramas, “As mil e uma noites” ainda têm a vantagem de, mesmo quando a trama lembrada não existir, eu ser capaz de escrevê-la e imaginar que faz parte de uma das mil noites contadas por Sheherazade, ou seja, é um livro infinito.

Qual a sua angústia criadora?

No passado, eu diria que era a memória, a incapacidade de reter na cabeça aquilo que imagino ou vejo ou, pior ainda, confundir o que imagino com aquilo que vivi ou sonhei viver. No entanto, tendo em vista o que tem acontecido nos últimos anos, no mundo e especialmente no Brasil, a minha angústia criadora agora é a desumanização, ou seja, que a minha criação acabe sendo contaminada pela raiva e pelo ódio aos seres humanos, que eu não consiga mais me conectar à Humanidade e aos valores mais sagrados da vida.

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