Jacques Fux: “a ficção é uma forma de preencher os vazios. É a busca pelo gozo, pelo faltante, pelo desejo inalcançável”

Crédito: Sempre um papo

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

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Jacques Fux é escritor, pesquisador, professor e tradutor, nascido em Belo Horizonte em 1977. Formado em Matemática, Mestre em Ciência da Computação, Doutor em Literatura Comparada pela UFMG e Docteur em Langue, Littérature et Civilisation Françaises pela Université de Lille 3, na França, foi pesquisador visitante no Departamento de Romance and Languages em Harvard, entre 2012 e 2014. É também Pós-doutor em Teoria Literária pela Unicamp e pela UFMG. Proferiu palestras e deu aulas nas principais universidades do mundo, entre elas Harvard, MIT, Boston University, Cornell, Universidade de Estocolmo e Sorbonne – Paris III.

A relação entre letras e números, que aparentemente pertencem a universos díspares, o inspirou para o doutorado sobre a matemática na literatura do argentino Jorge Luis Borges e do francês Georges Perec. A tese acabou sendo premiada com o Capes de Teses de 2011, e deu origem ao primeiro livro do autor, a crítica literária Literatura e matemática: Jorge Luis Borges, Georges Perec e o OuLiPo (Tradição Planalto), publicado em 2011. No ano seguinte, estreou na ficção com o bem recepcionado romance Antiterapias, editado pela Scriptum. Era apenas o início de uma promissora carreira como escritor. Outras obras de destaque são: Meshugá — Um romance sobre a loucura (Editora José Olympio) e Nobel. 

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O que é literatura?

É arte, pesquisa, cultura. É poder viajar por tempos, histórias e ruínas. É sair da bolha, do conforto. Ousar viver outras vidas e ampliar o pensamento.

O que é escrever ficção?

É ser capaz de preencher de forma inventiva as lacunas da memória e da História.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Pode ser e pode não ser. A literatura, assim como a arte, não tem que ter necessariamente razão ou engajamento.

Para além do aspecto do ofício, a literatura, de forma geral, representa o quê para você?

A literatura tenta preencher as minhas lacunas, meus desejos, minha vontade de conhecer. É uma busca pela beleza (e também pela tristeza) do mundo e do há ao seu redor. Um mergulho para dentro de si.

O escritor é aquela pessoa que vê o mundo por ângulos diferentes. Mesmo criando, por vezes, com base no real, é outra coisa que surge na escrita ficcional. A ficção, então, pode ser entendida com uma extensão da realidade? Um mundo paralelo?

A ficção é um complemento da verdade. Uma forma de preencher os vazios – ou de fazer com que eles fiquem ainda mais vazios e faltantes. É uma tentativa (inútil) de compreensão. É a busca pelo gozo, pelo faltante, pelo desejo inalcançável.

Quando você está prestes a começar uma nova história, quais os sentimentos e sensações que te invadem?

Foto: divulgação

Um medo de não conseguir realizar. De não conseguir passar para o papel toda a angústia que me cerca e me cerceia. Uma ansiedade pelo desvelamento das palavras e dos sentimentos. Uma pulsão.

A leitura de outros autores é algo que influencia bastante o início da carreira do escritor. No seu caso, a influência partiu dos livros ou de algo externo, de situações cotidianas, que te despertaram o interesse para a escrita?

Como sou das Exatas, sempre lia Jorge Luis Borges, e ele me fascinava, apesar de não entender muito bem. Vi que para fazer literatura é preciso encantamento – e não achava que seria capaz. Mas, ao ler ‘O Complexo de Portnoy’, do Philip Roth, percebi que era possível, sim, fazer literatura. Assim, depois do meu doutorado, resolvi pescar as ideias que tive durante minha pesquisa – com Borges, Perec, Calvino, Carroll e toda a literatura judaica – e tentar escrever uma ficção. Foi aí que o ‘Antiterapias’ surgiu e, depois do Prêmio São Paulo de Literatura, vi que tinha uma chance de seguir esse sonho de ser escritor.

Você escreve para tentar entender melhor o que conhece ou é justamente o contrário? A sua busca é pelo desconhecido?

Escrevo pois acho que é a única coisa que sei fazer e que me dá pulsão. Escrevo para me conhecer, conhecer, e também para me causar e causar estranhamento e dúvida. Escrevo para me divertir e divertir os leitores.

O que mais te empolga no momento da escrita? A criação de personagens, diálogos, cenas, cenários, narradores….etc?

Fico ansioso para saber as descobertas dos personagens e as suas histórias. E também para saber quais outros escritores já trabalharam com o tema – com tenho essa veia de sempre trazer outros autores e livros para os meus textos, aprendo e me surpreendo com o hipertexto que meus livros se tornam.

Um personagem bem construído é capaz de segurar um texto ruim?

Depende da mão do autor. E do desejo do leitor de se deixar levar pela trama.

Entre tantas coisas importantes e necessárias em um texto literário, na sua produção, o que não pode deixar de existir?

Humor e outras literaturas! Um hipertexto.

Nesse tempo de pandemia, de tantas mortes, qual o significado que a escrita literária tem?

Um descanso da loucura (como já disse o nosso Rosa em relação ao amor).

No Brasil, o ofício do escritor é tido quase com um passatempo por outras pessoas. Será que um dia essa realidade vai mudar? Existem respostas lógicas para esse questionamento eterno?

Para mim, não é um passatempo. É um trabalho sério e que me dedico todos os dias e durante muitas horas. E, apesar de mal remunerado, é o que quero e sei fazer. Continuo na minha luta e batalha.

A imaginação, o impulso, a invenção, a inquietação, a técnica. Como domar tudo isso?

Lendo! Lendo e aprendendo.

O inconsciente, o acaso, a dúvida…o que mais faz parte da rotina do criador?

A dúvida, o sofrimento, a leitura e estar aberto aos acasos. Às horinhas de descuido!

O que difere um texto sofisticado de um texto medíocre?

A labuta com a palavra. O traço fino. A relação com outras obras literárias.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

Quando há o pacto. O pacto literário.

O leitor ideal existe?

Jamais, e por isso a angústia do criador.

O simples e o sofisticado podem (e devem) caminhar juntos?

Sim! Por isso o humor. O lúdico. O chiste – que como já diz Freud, tem muito do inconsciente e da cultura.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“Meu amor”. Quando Riobaldo, sem palavras ao descobrir um grande segredo, só consegue pronunciar essas poderosas e profundas palavras.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Grande Sertão Veredas.

Qual a sua angústia criadora?

Querer sempre melhorar. Querer sempre escrever melhor e conhecer mais e mais livros e histórias.

 

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