Lucas Barroso: “a literatura já existe em algum lugar dentro da gente”

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Lucas Barroso, natural de Porto Alegre, é autor de Virose (romance, 2013), Um Silêncio Avassalador (contos, 2016) e Um Gato que se Chamava Rex (infantil, 2018) e O Tempo Já Não Importa (poesia, 2020). Seu e-mail para contato é:  lsbarroso84@gmail.com

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O que é literatura?

Creio que, na visão limitada do escritor, literatura seja escrever, escrever, escrever, escrever. Contudo, passando para o outro lado do balcão e vendo a literatura como leitor, que é melhor jeito de vê-la, é muito mais que a palavra escrita. A literatura, como qualquer expressão artística, não cabe em si, tampouco em definições.

O que é escrever ficção?

É uma maneira de matar o tempo e tentar passar a perna em Deus.

Vocação, talento, carma, destino…..o escritor é um predestinado a carregar adjetivos que tentam justificar o ofício?

Creio que sim, mas não gosto dessas definições, nem acredito nelas. Entretanto, entendo quem vê assim, porque o escritor, de modo geral, tem essa pretensão de registrar o seu tempo ou um naco da história.

Qual o melhor aliado do escritor?

A certeza da morte.

E qual o maior inimigo?

A vida.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Vivemos um período que fazer lista de compras do supermercado é um ato político. Escrever é só mais um desses tantos atos políticos que tem por aí.

Crédito: Marília Macedo

Quais os aspectos que você leva em conta no momento que começa a escrever?

Geralmente, parto de uma ideia. Não sou de olhar a folha em branco e pensar que tenho que escrever algo. Isso até já aconteceu, mas é muito raro. Não gosto de forçar nada, não gosto de bater ponto com a Literatura, porque tenho receio que essa forçação de barra transpareça na minha escrita. Então, o principal aspecto é esse: ter uma ideia.

A literatura existe para entendermos o começo, o meio ou fim?

Acredito que uma das razões dela existir é exatamente porque não entendemos o começo, o meio e o fim. E não nos contentamos com isso.

Se escreve para buscar respostas ou para estimular as dúvidas?

Prefiro sempre as dúvidas, gosto de ir na direção daquilo que me assusta.

Criar é tatear no escuro das incertezas?

Por mais que alguns textos saiam num “jorro”, dando a entender que está tudo “certo”, o processo todo sempre é envolto de incertezas, seja de quem escreve ou lê.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

Separei um trecho de Chuva de Prata, de Antônio Fraga.

“Enquanto o verso não vem, namora um pensamento. Ei-lo: chuva de estrelas dá um ótimo título de livro. É. Está resolvido. Escreverá um livro.

E o editor? E a crítica?

Nada de editores. Os editores são uns piratas. Nem um exemplar para a crítica. A crítica é incompetente.

Mastiga as palavras piratas e, incompetente como um homem superior, como um gênio!

Começa a ser consagrado – na imaginação, por enquanto. Solicitam-lhe autógrafos, entrevistas – como os repórteres são cacetes! – e é confidente de ministros. Ministros? Ministros? Ministros nada! Vê lá se vai dar confiança a ministros. O ditador? Sim, confidente do ditador. Ali na batata!

Ensaia sorrisos hipócritas, protetores, compassivos.

– Seu Cândido, vou desligar a luz. Tá na hora.

É dona Maricota, a proprietária da pensão, sempre preocupada com o gasto de energia elétrica.

Coitada, ela não sabe quem hospeda, pensa. Olha mais uma vez o título, despe-se e deita-se, ferrando logo no sono.

E é assim que Cândido Gentil, último do seu nome, “publica” diariamente um livro.”

É possível recriar o silêncio com as palavras? Como?

Creio que aí reside uma das respostas para “por que escrever?”. Como disse, o escritor é um sujeito pretensioso. Certamente, escreve também para isso, para recriar esse silêncio que, no fundo, é o silêncio de Deus. Como recriá-lo? Não faço ideia.

Você acredita que qualquer pessoa pode escrever uma história? Mas, então, o que vai fazer dela escritora, de fato?

Qualquer pessoa pode escrever uma história. Imagino que o meio ou mercado editorial, em eventos literários, dê carteiras assinadas ou crachás de escritores para confirmar quem é ou não é (risos). Mas a verdade é que não acredito em escritores de fato. Não acredito em nenhum artista de fato.

É preciso saber olhar o mundo com os olhos da ficção? O mundo fica melhor ou pior a partir dessa observação?

O ser humano sonha, delira, cria suas fabulações. Se for pra escolher melhor ou pior… Acho que isso, de modo geral, piora as coisas. Os bichos não tem nada dessas bobagens e eles compreendem muito mais o mundo que a gente.

Todo texto ficcional, mesmo os mais extensos, acaba sendo apenas um trecho ou fragmento da história geral? Digo, a ficção lança o seu olhar para as esquinas das situações, sendo praticamente impossível se ter uma noção do todo?

Quando li É Isto Um Homem?, de Primo Levi, senti todo o mal do Nazismo. O quanto o ser humano pode ser ruim e desprezível. Foi uma leitura que me impactou demais. Então, penso que a ficção pode, sim, nos dar essa impressão de todo, de História.

Nesse sentido, uma história nunca tem início, meio e fim?

Acho que acaba não tendo fim. Porque uma boa história (e a boa Literatura) fica na gente por muito tempo.

Você escolhe os seus temas ou é escolhido por eles?

Minha limitação acaba escolhendo. Pode parecer romântico a inspiração de tropeçar num verso, criar um personagem do nada, mas, no fundo, a literatura já existe em algum lugar dentro da gente.

É necessário buscar formas de expressão cada vez menos sujeitas ao cânone, desafiando a língua, tornando-a mais “suja”, para se aproximar cada vez mais da verossimilhança que a história pede? Ou seja, escrever cada vez “pior”, longe da superficialidade de escrever “certinho”, como disse Cortázar, talvez na tentativa de fugir da armadilha do estilo único?

Não tenho uma resposta para isso. Gosto de pensar que não tenho estilo. Aliás, gosto de pensar que não tenho nada, que sou um completo ignorante e estou apenas contando algo. Pensar em teorias literárias, estilos, autores, me atrasa a vida, me desanima completamente, porque tudo já foi feito.

Quando é que um escritor atinge a maturidade?

Quando ele não tem mais nada de relevante a dizer.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

O leitor sempre é cúmplice. No momento que ele leu a primeira frase, ele já é cúmplice. E isso, para ambos, nem sempre é bom. Quando se entendem, lógico, é melhor.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

O meu livro inesquecível é A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues, que peguei na biblioteca da minha escola estadual, pavilhão de madeira, Ana Neri. Li bem jovem e me marcou. Então, levaria esse.

Qual a sua angústia criadora?

Teimosia. Imagino que ela se encaixe nessa aflição que motiva a criar algo.

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