Marco Severo: “é o ato de perguntar, e não o de responder, que nos humaniza”

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

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Marco Severo é professor formado em Letras/Inglês pela Universidade Federal do Ceará. Tem contos publicados no Brasil e no exterior. Colabora com diversos sites voltados para literatura. É também professor e orientador de alunos de Escrita Criativa. Publicou Os escritores que eu matei (2015, crônicas), Todo naufrágio é também um lugar de chegada (2016) e Cada forma de ausência é o retrato de uma solidão (2017), ambos de contos e Coisas que acontecem se você estiver vivo (2018, crônicas) e retornou ao conto em Se eu te amasse, estas são as coisas que eu te diria (2019). Sua primeira novela, Um dos nomes inventados para o amor foi publicada em 2020. Pode ser contactado através do seu site: www.marcosevero.com.br

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O que é literatura?

É um dos lugares que a arte ocupa para tentar, se não dar conta das inquietações humanas, porque é impossível, pelo menos expressá-las de modo a que os questionamentos continuem a acontecer.

O que é escrever ficção?

É desassossegar o leitor através do que ele pensa que não existe, mas que está bem ao seu lado, todos os dias.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Sem dúvida. Nosso estar no mundo é um ato político. Não existe expressão humana que não seja política, mesmo que não dentro de instituições partidárias organizadas. Eu escrevo ficção, através dos meus contos, novelas e peças de teatro, e escrevo crônicas, que a rigor são observações sobre a maneira como o mundo me toca. Se há algo a ser dito na ficção ou na não-ficção, ela precisa ser dita para outro ser humano, de modo que é nessa ponte, que une o leitor a mim, que se faz a trajetória daquilo que surge em mim e brota no outro.

Você escreve para oferecer o quê ao mundo?

Perguntas. Perguntas que justifiquem uma existência. E veja: eu não tenho interesse nas respostas. É o ato de perguntar, e não o de responder, que nos humaniza.

O que pretende tocar com a palavra literária, com a ficção?

O instante antes do outro se brutalizar, ainda que a palavra seja dolorida, pesada e cruel. É ao vislumbrar esse instante que eu gostaria que o Outro fosse tocado pelo instante antes do abismo.

Um mundo forjado em palavras. Se o tempo atual pudesse ser resumido no título de um livro, seja ele hipotético ou não, qual seria?

Ensaio sobre a cegueira.

A incompletude faz parte do trabalho do ficcionista? No sentido de que nunca determinado conto, novela ou romance, estará totalmente finalizado?

Quando eu e meu editor decidimos que já foi feito todo o possível pelo livro e ele segue para a impressão, eu desapego, porque sei que fiz o melhor que pude naquele momento da minha vida. Borges dizia que publicava um livro para se ver livre dele, e eu concordo. Agora, a partir do momento em que o livro chega aos leitores, ele volta a ser algo incompleto – e que será completado pelo leitor, pela leitora. Cada pessoa que despende seu tempo na leitura de uma obra estará completando os pontinhos. A obra só se completa em quem a lê e aí está o labirinto e a mágica do processo iniciado no autor: cada um o fará à sua maneira.

Qual o pacto que deve ser feito entre o escritor e a história que ele está escrevendo?

O escritor deve ter em mente, sempre: não seja chato.

O que pode determinar, do ponto de vista criativo, o êxito e o fracasso de uma obra literária?

O êxito se dá quando, terminada uma história, o escritor ou escritora sente que escreveu a história possível. Se isso for satisfatório o suficiente, houve êxito. Do contrário, a história falhou e será preciso reescrevê-la ou simplesmente jogar fora. A cesta de lixo, ou o botão DEL, são os melhores amigos de quem escreve.

Como surgiu em você o primeiro impulsivo criativo?

Quando eu percebi que queria fugir da infância. Isso se deu através da imaginação.

As suas leituras acontecem a partir de quais interesses?

Eu me interesso pelo humano. Pelo ser humano e suas possibilidades. É aí que tudo começa.

 

Escrever e ler são partes indissociáveis do mesmo processo de criação. Como equilibrar o desejo de ler com o de escrever?

Com disciplina. A meu ver, o escritor precisa ser sobretudo um leitor. E precisa escrever, preferencialmente, todos os dias, nem que seja uma linha, ou que seja apenas um pensar na história – pensar no sentido da elaboração. Isso também é a escrita. Se não houver uma disciplina, por menor que seja, a ansiedade nos invade. E este é um troço paralisante.

Um escritor é escritor 24 horas por dia? É, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição?

A pessoa que leva o fazer literário à sério, como ofício, sabe que o faz porque não poderia ser diferente. Porque não há outro caminho possível. Em geral a pessoa tem outro trabalho que paga suas contas, mas escreve como se sua vida fosse unicamente aquilo – porque é assim que é. O escritor ou escritora é aquela pessoa que sabe que nasceu, ou se transformou ao longo dos anos, com a característica de questionar e de dar vazão a esses questionamentos através da palavra escrita, transformando-a em arte. E o questionar vem de uma observação aguda do mundo. Então nesse sentido não há escapatória a não ser saber-se escritor todas as horas do dia, mesmo quando se pensa que determinada vivência passou sem grandes marcas. A gente sabe de onde vem a ficção, não é? Ela nasce do sentir, e não temos outra opção a não ser sentir o tempo todo.

O crítico Harold Bloom falava sobre o fantasma da influência. Você lida bem com isso?

Escrever é saber-se mosaico. Não se trata apenas de “desenvolver sua própria voz” ou “ser original” (o que seria isso, afinal, num mundo onde já se disse de tudo, onde tudo é dito o tempo todo?). O importante é entender que nós também somos legião.

O escritor sempre está tentando escrever a obra perfeita?

Os escritores arrogantes, sim. E parece que eles existem.

Como Flaubert disse certa vez, escrever é uma maneira de viver?

Para quem leva a profissão à sério, é a maneira de viver.

Quando você chega na conclusão de que alcançou o objetivo na escrita (na conclusão) da sua história? 

Não sei precisar. A história se dá por escrita sem muito controle. Ela converge para aquilo. Claro que às vezes a gente acha que é o final e não é. Ou o final já passou, ficou lá atrás, e é preciso sair cortando muito, reorganizando frases e parágrafos. Em geral eu chego a essa conclusão depois de deixar o texto um tempo de lado após o término e, ao voltar para ele depois de semanas ou meses fazer a leitura como se eu fosse um leitor, e não quem escreveu o texto. O distanciamento é essencial para a compreensão daquilo que está dito.

A literatura precisa do caos para existir?

Olha, o caos é ter saído de uma não-existência para este lado das coisas, onde tudo acontece à nossa revelia. Então viver é uma perturbação com momentos de alegria. Se eu sou brasileiro, por exemplo, posso sair de minha casa para me divertir, mas do ponto A ao ponto B vamos pensando na possibilidade do assalto, no dinheiro que é preciso dar ao flanelinha, na terrível situação do país que leva uma pessoa a precisar ser flanelinha, dentre questões mais mundanas: no namoro ou casamento que já não está tão bem, no sexo que era melhor na juventude, nas coisas que não se pode mais comer por causa do refluxo, nas roupas que ficaram no varal e agora começou a chover e você não lembra se fechou a janela antes de sair de casa e já está longe demais para voltar, nos seus filhos que poderão morrer antes de você, nos seus pais que teimam em fazer coisas que já não podem mais, aí você chega no ponto B, se diverte, bebe, come, ri, conversa, volta para casa e pensa que esse é um ritual que se leva até o dia da morte. O caos é existir.

O escritor é um eterno inconformado com a vida?

Depende do tipo de literatura que essa pessoa fizer. Se for algo apenas para divertir, e não há nenhum demérito nisso, acho pouco provável. Pelo menos que isso transpareça no tipo de livro que essa pessoa coloca no mundo.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“Muitas vezes o amado desencadeia a força lentamente acumulada no coração daquele que ama. O amor é uma coisa solitária. É esta descoberta que faz sofrer.“ – Carson McCullers em “O coração é um caçador solitário”.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Eu não salvaria livro nenhum. Que tudo virasse poeira cósmica, dane-se!

Qual a sua angústia criadora?

Acho que a mesma de quase todos os escritores e escritoras do mundo: equilibrar a escrita com outra profissão, a que de fato paga as contas.

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