Mariana Salomão Carrara: “o espanto ao fim da frase pode tapar por um instante a atenção dos ouvidos”

Fotos: divulgação

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Mariana Salomão Carrara (Mari Carrara) é paulistana, Defensora Pública, nascida em 1986. Tem publicados um livro de contos (Delicada uma de nós – Off-Flip, 2015), e os romances Fadas e copos no canto da casa (Quintal Edições, 2017) e Se deus me chamar não vou (Editora nós, 2019, entre os 10 indicados ao Prêmio Jabuti 2020, em Romance Literário). Em julho de 2021 lança mais um romance pela Editora Nós, e outro em 2022 pela Todavia. Por contos e poemas, recebeu prêmios nacionais como Off-flip (2012), SESC-DF, Felippe D’Oliveira (2015 e 2016), Sinecol, e Josué Guimarães. Recebeu o segundo lugar no Prêmio Guiões (Portugal, 2019) pelo roteiro de longa-metragem É lá que eu quero morar.

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Vocação, talento, carma, destino…..o escritor é um predestinado a carregar adjetivos que tentam justificar o ofício?

Talvez com razão, porque a gente sabe criar vidas, mas não sabe explicar como e por quê.

Qual o melhor aliado do escritor?

O que mais falta: o tempo.

E qual o maior inimigo?

Também ele, o tempo que falta.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Sim, o que se cria é o registro do que houve e o do que não houve neste local e época.

Quais os aspectos que você leva em conta no momento que começa a escrever?

Se eu quero ler a história que prometo, se a personagem está inteira em mim, se sou a escritora certa para ela.

A literatura existe para entendermos o começo, o meio ou fim?

Entender, não sei. Serve para suportarmos e até amarmos o começo, o meio, e talvez o fim.

Se escreve para buscar respostas ou para estimular as dúvidas?

Para sentir as respostas e as dúvidas, e oferecê-las num arranjo estético.

Criar é tatear no escuro das incertezas?

Criar é uma gostosa forma de tatear por dentro. Digita-se depressa o que a cabeça ainda não pensou.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

Esfrego a cara na almofada mas antes que os olhos fiquem outra vez transbordantes vejo Lorena apanhar o missal, largou o espelhinho e abriu o missal preto. Enquanto durou a massagem esteve corada mas agora está de novo pálida, os cabelos de trás das orelhas, os lábios crispados. Ana Clara também já está numa posição formal, o chambre fechado, os braços dobrados na altura dos seios. Simplesmente repousando depois do banho e do talco, Lorena devia estar satisfeita, conseguiu dar-lhe um banho completo antes da morte.” (As meninas, Lygia Fagundes Telles)

É possível recriar o silêncio com as palavras? Como?

Sim, o espanto ao fim da frase pode tapar por um instante a atenção dos ouvidos.

Você acredita que qualquer pessoa pode escrever uma história? Mas, então, o que vai fazer dela escritora, de fato?

O escritor vai contar a mesma história de um jeito que o leitor não teria contado. A história escrita por um escritor, seja ou não seja do gosto do leitor, vem com o viscoso do que foi tateado por dentro, o silêncio no susto das frases, algum encanto de um arranjo estético pessoal.

É preciso saber olhar o mundo com os olhos da ficção? O mundo fica melhor ou pior a partir dessa observação?

Não é preciso, mas é recomendável viver com uma dimensão a mais. É o melhor remédio.

Todo texto ficcional, mesmo os mais extensos, acaba sendo apenas um trecho ou fragmento da história geral? Digo, a ficção lança o seu olhar para as esquinas das situações, sendo praticamente impossível se ter uma noção do todo?

Posso dizer também uma espécie de contrário: cada obra é inteira, dentro dela um fragmento da história geral que existe em volta. A grande história é que está num fragmento em cada escrito.

Nesse sentido, uma história nunca tem início, meio e fim?

As histórias terminam, ainda que para se repetirem de novo. Repetir é indispensável.

Você escolhe os seus temas ou é escolhido por eles?

Sou escolhida – o que não me impede de gritar e pular lá do fundo da quadra pedindo para ser escolhida.

Quando é que um escritor atinge a maturidade?

Quando já acumulou mais sobre o que escrever do que lhe falta para viver.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

Quando encontra em si, surpreso, o que acabou de ler no outro.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

As meninas, Lygia Fagundes Telles

Qual a sua angústia criadora?

A solidão e a morte.

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