Menalton Braff: “se o escritor se conforma com a vida, não existe mais razão para escrever”

Foto: divulgação editora Reformatório

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Menalton Braff nasceu no Rio Grande do Sul, cidade de Taquara, ligou-se à literatura aos cinco anos de idade, quando leu O Guarani, de José de Alencar em forma de HQ. Graduado em Letras, com pós-graduação (lato-sensu), concentração em Literatura Brasileira, pela Universidade São Judas Tadeu, de São Paulo, lecionou em instituições de ensino superior até o ano de 1987. Atualmente vive perto de Ribeirão Preto e seu tempo é exclusivo da literatura: escrita, leitura e palestras. Em 2000 conquistou o Jabuti (livro do ano) com a coletânea de contos À sombra do cipreste. Tem vinte e sete livros publicados. Já foi finalista várias vezes dos principais prêmios brasileiros, como Jabuti, Portugal Telecom, Prêmio São Paulo de Literatura e Jornada de Passo Fundo. Em 2020, seu romance Além do rio dos Sinos  conquistou o Prêmio Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional.

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O que é literatura?

A literatura é a arte em que a matéria prima é a palavra. Encontram-se na literatura dois planos distintos e necessários. O plano da expressão, que se baseia em conceitos estéticos específicos da literatura, e o plano do conteúdo, que contempla uma ideia, um tema, um elemento do ser humano. Esses dois planos devem ser adequados um ao outro, vale dizer, o tipo de discurso não pode contradizer o conteúdo que nele subjaz. A linguagem da literatura deve ser autoral, sem a neutralidade da linguagem utilitária e de apropriação social, pois literatura não é informação, senão emoção estética.

O que é escrever ficção?

Ficção é invenção. Segundo René Wellek  e Austin Warren, a primeira condição para que um texto seja literário é que seja ficcional. Um poeta quando diz “Oh, que saudades que eu tenho”, recebe-se o sentimento da saudade, mas sem questionar se o poeta, com esta aparência de confessional, realmente sentiu saudade. Isso não importa. Quando Paulo Setúbal criou o D. Pedro II em um de seus romances históricos deve-se receber o imperador como foi pintado e não discutir se houve ou não exatidão histórica. O D. Pedro foi ficcionalizado.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Todo ato humano que envolva um ou mais seres humanos é um ato político. Um beijo implica dois seres humanos, e os dois devem estar de acordo. Ou não. Tudo aquilo que envolva duas ou mais pessoas, precisa de concordância ou pode haver discordância. Quem escreve para ser lido, entra em relação com quem lê, logo não tem como não ser ato político.

Você escreve para oferecer o quê ao mundo?

Eu escrevo para me oferecer ao mundo. Não no sentido de fazer proselitismo de minhas ideias, mas para criar beleza, mesmo quando a beleza esteja em um quadro de horror, mas beleza do ponto de vista da estética literária. Não escrevo para convencer, mas para causar prazer. E é claro que não existindo o Grau Zero nas palavras, escrevo a mim mesmo, tomando sempre o cuidado de não escrever teses sobre o que penso.

O que pretende tocar com a palavra literária, com a ficção?

Se conseguir que o leitor através da leitura vislumbre outras respostas para os mistérios da vida, e ainda se conseguir causar-lhe alguma emoção, penso que atingi meu objetivo. Provocar algum tipo de reflexão sem impor algum tipo de pensamento.

Um mundo forjado em palavras. Se o tempo atual pudesse ser resumido no título de um livro, seja ele hipotético ou não, qual seria?

Não deu certo

A incompletude faz parte do trabalho do ficcionista? No sentido de que nunca determinado conto, novela ou romance, estará totalmente finalizado?

Todo trabalho de ficção é uma escolha em mil possibilidades. Dada uma escolha, ela se completa em si mesma. Depois do ponto final não existe mais nada. As personagens, por exemplo, são pessoas de papel. Não temos de criar expectativas a respeito de outras possibilidades. Pensar continuação, ou, pelo menos em outras soluções é criar outra obra. Uma obra está sempre fechada, apesar de admitir mais de uma leitura. Não toda e qualquer leitura, mas alguma que seja coerente com o que o autor quis registrar. Mas isso é competência do leitor. O papel do autor é botar o ponto final. E ponto final.

Qual o pacto que deve ser feito entre o escritor e a história que ele está escrevendo?

O pacto é o da sinceridade literária. Todo autor bota muito de si e de suas experiências naquilo que escreve, para confirmar o quer pensa ou para negar o que pensa. O importância é que a obra tenha coerência interna, sem que se deva buscar no mundo real termos de comparação. Ficção, ou texto literário, não tem compromisso com a realidade. Isso desde Aristóteles em sua Poética. O historiador está preso aos fatos constatados na realidade; o poeta tem a liberdade de criá-los como desejar.

O que pode determinar, do ponto de vista criativo, o êxito e o fracasso de uma obra literária?

Ninguém pode responder a essa pergunta. Certa ocasião um jornalista perguntou isso ao falecido Sérgio Machado e ele afirmou exatamente isso. É imprevisível o êxito ou fracasso de uma obra. Não fosse assim, as editoras só publicariam livros com garantia de sucesso. Mas isso de sucesso em literatura é bastante ambíguo. Um mau livro do estrito ponto de vista literário pode obter êxitos estrondosos junto ao público. Às avessas, de Huysmans, por exemplo, um clássico da literatura francesa, nunca foi um livro exitoso junto ao público, mas sempre respeitado pela crítica. Então, nesse terreno, há várias aspectos a considerar. Começando pela pergunta: o que é êxito ou fracasso em literatura?

Como surgiu em você o primeiro impulsivo criativo?

Aos cinco anos de idade li O Guarani, de José de Alencar numa edição em HQ da Edições Maravilhosas. Peri e Ceci me acompanharam na infância, me fizeram procurar mais tarde outras obras o Alencar e não tive mais como evitar a literatura na minha vida. Não tive escolha senão começar a escrever. Em criança, escrevia poemas como os entendia da leitura do Tratado de versificação, de Olavo Bilac e Guimarães Passos, que havia na biblioteca do meu pai. No início da adolescência ensaiei passos maiores ao escrever pequenas histórias (cadernos cheios delas). O desejo de voos mais altos surgiu durante o Clássico. Foi a Geração de 30, sobretudo o Erico Verissimo, que me deram o desejo de ser escritor.

As suas leituras acontecem a partir de quais interesses?

Dificilmente leio um autor inteiramente desconhecido. Uma referência, uma resenha, a indicação de um amigo, um livro premiado, enfim, procuro ler livros que me deixem alguma coisa. E como sei que em toda a vida jamais lerei cinco por cento do que deveria ler, procuro escolher. Também recebo livros de amigos que entram na fila.

Escrever e ler são partes indissociáveis do mesmo processo de criação. Como equilibrar o desejo de ler com o de escrever?

No meu caso, é o estabelecimento de uma disciplina em que ler e escrever têm horários diferentes. Nem sempre é fácil, pois dá vontade de escrever na hora da leitura, muito frequente. Leio muito na cama, antes de dormir. Nestes casos, já me condicionei a quando muito fazer alguma anotação, mas não volto ao computador: continuo lendo.

Um escritor é escritor 24 horas por dia? É, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição?

Uma anedota conta que um americano se interessou por uma tela de Picasso e lhe perguntou o preço. Reagiu assustado com o alto preço e perguntou ao pintor em quantas horas ele havia criado a tela, ao que Picasso respondeu: Quarenta e dois anos. É assim mesmo. Toda obra de arte é uma elaboração ininterrupta, pois resulta da vivência contínua do artista. E quando se dorme, a mente continua trabalhando. Muitas vezes uma solução buscada com empenho feroz durante um dia inteiro, aparece durante o sono. É uma benção quando se ama o que se faz. A maldição é quando não se consegue fazer.

O crítico Harold Bloom falava sobre o fantasma da influência. Você lida bem com isso?

Claro. Nós somos influenciados por tudo que lemos, positiva ou negativamente, pois cada livro que se lê recupera todos os livros que já se leu. Posso admirar um texto, como também posso detestar. Da simbiose desses sentimentos surge aquilo que é o sotaque. Na verdade, nunca me preocupei se me aproximava de alguns ou me distanciava de outros. Escrevo para satisfazer uma necessidade de usufruir do prazer estético de dizer alguma coisa inédita, se houve influência desse ou daquele, isso é função do crítico. Não é algo que me preocupe.

O escritor sempre está tentando escrever a obra perfeita?

Sim. A busca ingente da perfeição é o esforço que jamais vai alcançar seu objetivo, mas continua-se a buscar. E me parece que deve ser assim, pois dessa forma é que se pode atingir qualidade estética aceitável.

Como Flaubert disse certa vez, escrever é uma maneira de viver?

Bem, é possível pensar assim. A experiência de entrar por uma personagem e acompanhá-la, quando acerta ou mesmo quando erra, sofrer as mesmas emoções supostas a uma criatura de papel é um modo de viver mais, de viver outras vidas, viver as vidas diversas das personagens.

Quando você chega na conclusão de que alcançou o objetivo na escrita (na conclusão) da sua história? 

Não começo a escrever uma narrativa antes de saber como devo iniciar e como devo terminar. O meio é uma criação do momento, que deve levar ao fim almejado, ou imaginado. Se aquilo que tinha sido planejado está dito, a obra está acabada.

A literatura precisa do caos para existir?

Não obrigatoriamente. É preciso que haja conflito, entrechoques, com ou sem caos. A literatura, muitas vezes, é uma maneira de se ordenar o mundo, então, neste caso, parte de uma situação particular caótica. No meu caso, estou de acordo, pois vejo o mundo como um lugar dentro de um liquidificador universal, onde ele se debate para existir. Mas não devemos generalizar. O Classicismo via o mundo muito bem ordenado, com suas hierarquias estáveis, cada coisa em seu lugar.

O escritor é um eterno inconformado com a vida?

Claro. Se o escritor se conforma com a vida, não existe mais razão para escrever. O escritor está sempre corrigindo o mundo, dando-lhe algo que estava faltando, corrigindo ou denunciando o que supõe errado. Mas também exaltando e louvando o que supõe acertado.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

FILOSOFIA DOS EPITÁFIOS

Saí, afastando-me dos grupos, e fingindo ler os epitáfios. E, aliás, gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Daí vem, talvez, a tristeza inconsolável dos que sabem os seus mortos na vala comum; parece-lhes que a podridão anônima os alcança a eles mesmos.

(Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis)

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

A montanha mágica, Thomas Mann

Qual a sua angústia criadora?

Minha angústia criadora acontece quando, realizado o texto, percebo que ficou muito aquém da ideia abstrata que deveria expressar. Este sentimento de impotência causado pela certeza de que jamais as palavras darão conta de dizer tudo que sinto ou penso, eis o lado trágico da escrita.

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