Naiara Medeiros: “como uma jovem escritora negra, escrever é minha forma de falar com o mundo e não me deixar ser silenciada por ele”

Fotos: arquivo pessoal

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

*********************

Naiara Medeiros é natural de São Carlos – SP. Graduanda em Letras – Francês pela Unesp – Araraquara. É Professora de Inglês e Pesquisadora na área de Literatura Negra. Escreve desde muito nova e publicou diversos textos não-oficiais virtualmente. Teve seu primeiro conto publicado na Coletânea Negritude. E, lançou seu livro de estreia, nomeado como Onde as Velas Incendeiam em 2020.

*********************

O que é literatura?

Para mim, literatura é uma extensão inconstante do ser e do momento. É impossível defini-la e é exatamente nessa abertura de definições e indefinições que a literatura se configura como uma das formas mais maravilhosas de se expressar a contínua metamorfose dos tempos.

O que é escrever ficção?

Escrever ficção é criar mundos, possibilidades e ir além da vida real sem se desconectar por completo dela.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Sim! A escrita tem uma significação diferente para cada um, mas sempre acreditei que podemos revolucionar e emancipar o mundo por meio das palavras e é nisso que se encontra o ato político de escrever. Todavia, dentro do meu contexto e da minha bagagem, como uma jovem escritora negra escrever é, sem dúvidas, um ato político, é minha forma de falar com o mundo e não me deixar ser silenciada por ele.

Você escreve para oferecer o quê ao mundo?

Escrevo para oferecer contra-narrativas, revoluções, emoções, novos rumos e, se possível, possibilitar aos leitores um breve deslocamento do mundo real.

O que pretende tocar com a palavra literária, com a ficção?

Acho que não há limites para o que se tocar com a palavra literária, com a ficção, meu único intuito é que minha escrita possa tocar todas as camadas e ir para além delas.

Um mundo forjado em palavras. Se o tempo atual pudesse ser resumido no título de um livro, seja ele hipotético ou não, qual seria?

O peso do pássaro morto.

A incompletude faz parte do trabalho do ficcionista? No sentido de que nunca determinado conto, novela ou romance, estará totalmente finalizado?

Lidar com a incompletude faz parte do trabalho do ficcionista, mas não necessariamente a incompletude seguirá seus trabalhos e nem se estabelecerá por conta desse tipo de determinação. Faz parte do processo compreender e até mesmo ressignificar em qual momento atingimos a completude ou incompletude de uma obra, no entanto, isso não é algo definitivo ou que deva se tornar preocupante.

Qual o pacto que deve ser feito entre o escritor e a história que ele está escrevendo?

Cada escritor e cada história configuram um pacto singular entre si, não existe um pacto perfeito ou definido, pelo menos, não ao meu ver. Meu pacto de “praxe” é respeitar meu processo criativo, ser fiel ao que acredito que será uma boa história e me manter real aos meus critérios e personalidade durante a escrita. Muitas vezes passamos muito tempo tentando ser outro autor ou tentar nos banhar de uma fonte que nada tem a ver com nossas águas, então, encontrar a mim mesma nesse conglomerado de palavras e enredos é meu maior pacto. Mas isso com toda certeza pode mudar de autor para autor.

O que pode determinar, do ponto de vista criativo, o êxito e o fracasso de uma obra literária?

Não creio que número de leitores ou número de vendas sejam indicadores reais de êxito ou fracasso a partir do ponto de vista criativo de uma obra literária, gosto de acreditar que o êxito vem da completude e sensação de dever cumprido ao finalizar a obra. Quanto ao fracasso, sequer gosto dessa palavra, mas ele também pode se manifestar como uma sede para a busca da completude não alcançada anteriormente.

Como surgiu em você o primeiro impulsivo criativo?

Na escola, durante as aulas de produção de texto. Toda vez que uma professora nos dava a possibilidade de escrever uma história sobre um determinado tema ou tema livre eu sentia que era capaz de construir qualquer coisa.

As suas leituras acontecem a partir de quais interesses?

Depende, algumas leituras acontecem pelo interesse de aprender mais sobre determinados tópicos e outras pela vontade absurda de me desligar do mundo e dos tópicos que aprendi.

Escrever e ler são partes indissociáveis do mesmo processo de criação. Como equilibrar o desejo de ler com o de escrever?

Tento criar momentos para as duas atividades e também notar qual das duas será mais interessante pra mim. Em alguns momentos, a necessidade de ler é maior que a de escrever e vice-versa, compreender o próprio ritmo em relação às duas coisas é essencial, mas sempre tento intercalar; boas leituras em um período, exercitar minha escrita e novas influências no outro.

Um escritor é escritor 24 horas por dia? É, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição?

Um escritor é um escritor 24h por dia, mas nenhuma pessoa é apenas uma coisa 24h por dia. E, com certeza, é uma benção e maldição, ser escritor é literalmente viver a transformação entre ser o Médico e o Monstro.

O crítico Harold Bloom falava sobre o fantasma da influência. Você lida bem com isso?

Uma das partes mais difíceis em me entender como escritora era assimilar até que ponto da obra aquilo era meu e até que ponto eu estava tentando imitar outro autor, ou seja, escrevendo para atender determinadas influências. É um trabalho muito árduo se desvincular disso, mas é libertador. É fantástico o fato de termos a chance de ser brindados pelas mais diversas influências literárias, no entanto, devemos valorizá-las sem deixar que elas se tornem uma prisão dentro do nosso próprio estilo. Também podemos influenciar outros escritores com nosso trabalho, então, precisamos encontrar nosso próprio eu e fugir desse fantasma.

O escritor sempre está tentando escrever a obra perfeita?

A perfeição pode ser encarada de formas distintas pelas pessoas, sendo assim, acho que cada um preza por encontrar a perfeição dentro de seus próprios termos.

Como Flaubert disse certa vez, escrever é uma maneira de viver?

Sim. Sem sombra de dúvidas.

Quando você chega na conclusão de que alcançou o objetivo na escrita (na conclusão) da sua história? 

Geralmente esse momento chega depois de uma exaustiva caminhada de revisão e incontáveis momentos de frustração. Eu preciso de um tempo de escrita, um tempo de descanso do que escrevi e mais um tempo de releitura para chegar na conclusão de que alcancei o objetivo ou de que preciso escrever de novo.

A literatura precisa do caos para existir?

Não de forma indissociável, mas o caos é um combustível muito interessante e transformador.

O escritor é um eterno inconformado com a vida?

Acho que atualmente deveríamos no perguntar qual pessoa, sendo ela escritora ou não, que consegue ficar verdadeiramente conformada com a vida…

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

Trecho do poema “Quebranto” de Cuti. Livro: Negroesia.

às vezes sou o amor que me viro o rosto

o quebranto

o encosto

a solidão primitiva

que me envolvo no vazio

 

às vezes as migalhas do que sonhei e não comi

outras o bem-te-vi com olhos vidrados

trinando tristezas

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

As Coisas que Perdemos no Fogo de Mariana Enriquez.

Qual a sua angústia criadora?

Minha angústia criadora são todas as reverberações, gritos, medos e aspirações que crescem dentro de mim e desaguam em palavras.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *