Por Ney Anderson

Um dos mais importantes nomes da literatura brasileira, o escritor pernambucano Raimundo Carrero acaba de ter quatro obras da primeira fase da carreira, fora de catálogo há muitos anos, reeditadas pela Oia Editora, de São Paulo. São elas “A dupla face do baralho”, “Viagem no ventre da baleia”, “Sinfonia para vagabundos” e “Os extremos do arco-íris”. Intitulado “Ceifa sangrenta em campo de batalha”, a caixa faz o resgate de obras sócio-políticas do autor. As ilustrações de capa do box foram feitas pela designer gráfica pernambucana Hallina Beltrão, inspiradas na Guernica, de Picasso. Os livros têm apresentação geral do jornalista José Castello e prefácios, em cada um, de outros escritores especialmente para esta coleção.

O box que comemora os 75 anos do autor nascido em Salgueiro, sertão de Pernambuco, inicia com “A dupla face do baralho”, de 1984, no qual o leitor acompanha as memórias do ex-comissário de polícia, Félix Gurgel. Já aposentado e velho, o homem, sentado na cadeira de balanço em frente à sua casa em Santo Antônio do Salgueiro, sertão pernambucano, faz um retorno ao passado. Mas não é, em hipótese alguma, uma volta tranquila. Félix é um homem agoniado, carregado de aflições, marcado pela brutalidade de outrora, se sentindo culpado por tantas atrocidades cometidas por ele ao longo da vida. Roubo, assassinato, tortura e, sobretudo, o prazer no sofrimento alheio. O homem está ali, preso nas lembranças angustiantes, esperando o destino final comum a todas as pessoas.

O autor coloca o leitor em um labirinto de espelhos. Qual ser humano tem uma única face? O que há de verdade, mentira e invenção nessa confissão do ex-comissário? A obra é uma denúncia da crueldade contra a humanidade até o caminho da destruição e do sonho.

“Viagem no ventre da baleia”, publicado dois anos depois, em 1987, também mostra personagens contraditórios e caóticos. Com presença forte da religião e da política, é ambientada em Jatinã, interior de Pernambuco. O romance traz uma visão da época da ditadura militar no Brasil, através de quatro pontos de vista: Padre Paulo, Jonas e Miguel (dois ex-guerrilheiros), além do coronel Salvador Barros, que comanda a região.

A obra mostra o drama das lutas armadas, das paixões universais e ancestrais, representado por uma cidade (Jatinã), dominada pelo poderio de pequenos grupos que leva o povo ao fundo do poço, em um banho de guerra e sangue. A narrativa mostra a civilização dia após dia se desintegrando, em trajetórias traçadas tortuosamente, causando impacto por conta de tantas tragédias, apesar do lirismo da prosa do autor. De tom fortemente religioso, homens (com perfis psicológicos fortes) conversam com Deus e têm os destinos baseados nos segredos e nos mistérios da alma. O antagonismo da luta entre o bem e o mal, o sagrado e o profano, é levado ao limite, numa história marcada por abismos.

Em “Sinfonia para vagabundos”, publicado em 1992, seis anos após o anterior, Raimundo Carrero se joga dentro do romance através do “eu” ficcional. O livro é um marco em sua prosa, pois aqui ele escreve para compreender o que fez até então na literatura, resultado de todos os seus conflitos interiores, principalmente do fazer literário. Escrito sob diversos fragmentos que se unem, de maneira não-linear e metaliterário, o autor explora as técnicas e mostra ao leitor. Ele examina cada passo da história tentando compreender de qual matéria é feito o romance. Experimentalismo literário e estético, aliás, que Carrero só faria outra vez em 2003, com o perturbador e excepcional romance “Ao redor do escorpião…Uma tarântula?”.

Os personagens são ainda mais metafóricos na “Sinfonia”. Na trama estão Deusdete, Natalício e Virgínia. Portanto, Deus, Natal e a Virgem. Todos humanizados e angustiados, com o pé no asfalto, transcendentes para além da ideia da divindade, percorrendo ruas, becos e vielas do Recife, se deparando com o lado mais sombrio da espécie humana. Pessoas com fome, em situação de miséria, crianças mortas, prostitutas e mendigos convivem no mesmo cenário. Figuras que habitam a metrópole, assim como os personagens principais, indesejados do resto de uma sociedade também desorientada.

Sob a inspiração de Ariano Suassuna

“Foi sob a inspiração de Ariano Suassuna, seu grande mestre, que Carrero entendeu que a realidade está aí para ser revirada e vencida, e não reverenciada. Suassuna lhe ensinou que a verdade não é estática, mas que ela surge sempre atravessada pela potência de um saber. É preciso, sim, injetar erudição e altura ali onde, a princípio, parece haver só um monte de terra. Foi com Suassuna que Carrero aprendeu que é preciso soprar conhecimento e dúvida mesmo sobre as mais sólidas verdades. Agitar, revirar, interrogar, perturbar — porque a vida é uma só e deve ser vivida não como morte, como experiência fixa, mas como vibração e fabricação.”

Trecho do texto “Carrero agarrado ao real”, de José Castello, incluído na apresentação do box com os quatro livros de Raimundo Carrero.

 

Recife sem alegria

O livro que encerra o box “Ceifa sangrenta em campo de batalha”, de Raimundo Carrero, é a novela “Os extremos do arco-íris”. Também lançado em 1992, mostra Recife como cidade sem alegria, onde os seus principais ícones culturais estão em ruínas, outros, em vias de extinção, a exemplo do seu decadente personagem principal. Um homem sem nome, desempregado há dois meses, que vagueia em busca de trabalho no centro da capital pernambucana.

Obras, que estavam fora de catálogo, ganham novo tratamento gráfico e confirmam um autor eternamente inconformado com o mundo

Caminhando sob o sol forte, o homem encontra nos classificados do jornal uma vaga para detetive particular. Consegue o emprego e parte em busca de resolver o seu primeiro caso: desvendar a morte de um interno do hospital psiquiátrico. É a partir daí que ele mergulha num turbilhão sem volta entre realidade e fantasia, loucura e sanidade. O Recife neste livro é ainda mais misterioso. Se nos outros livros os personagens são figuras beirando o abismo, aqui o abismo já está dentro do protagonista. Ele é alguém insatisfeito e extremamente magoado com o mundo.

Depois de ter publicado extensa obra literária, com tradução para diversos países, reunindo romances, novelas, contos, uma biografia, uma trilogia, “O delicado abismo da loucura” (Iluminuras, 2005), uma tetralogia, “Condenados à vida” (Cepe, 2018) e três livros de teoria literária, e de ter recebido os principais prêmios do país, como o Jabuti, São Paulo de Literatura, APCA, Machado de Assis, entre outros, Raimundo Carrero se sentiu no dever de fazer um balanço daquilo que realizou em busca do entendimento da condição humana. O autor comentou com exclusividade ao Pensar.

“Parece uma investida ousada e inalcançável. Mas, afinal, para que serve a arte, senão para a busca do ser e para a sua compreensão? Claro que não tenho respostas imediatas, mas, me inquietei ainda mais com o que somos e como somos. Encontrei um mundo inquietante de violência e dor, um mar de sangue e de ofensa, com muito pouco de amor e de compreensão. Há em tudo um toque de agonia. Mas, ainda assim, não tenho respostas prontas. A arte não serve para definições. Os personagens vivem e se debatem sempre em choque. É deste choque que nasce a arte e seus torneios de beleza, com uma crescente injustiça social. Com ‘Ceifa sangrenta em campo de batalha’ chego a um momento de encantamento e dúvida. Embora em campo diferente, como disse Clarice Lispector, somos todos uma pergunta”, conclui Carrero.

A obra do autor, pode-se dizer a família literária que ele criou ao longo de cinquenta anos, é quase sempre envolta em um mundo desajustado e confuso, com assassinatos, infanticídios, loucura, fé, compaixão e a presença muito forte do sertão, ainda que na urbanidade da maioria dos livros. É uma teia complexa tecida pelo autor ao longo das décadas. Carrero escreve para remexer, vasculhar e revirar o próprio ser, colocando nas páginas o que não confessa nem a própria alma, como já comentou em algumas ocasiões. Fazendo, consequentemente, das suas histórias e personagens, um retrato do grotesco da vida, das ruínas e decadências da alma, através da investigação profunda da existência humana. A compaixão pela humanidade, no entanto, talvez seja a grande base do trabalho do autor. É uma obra alicerçada no inconformismo com o mundo.

Com um trabalho marcado por uma visão religiosa, mas não teológica, os loucos, santos, desviados, transviados, marginais, pecaminosos, mas também amorosos e esperançosos em certa medida, caminham todos no percurso da incerteza. Por isso, os personagens sempre agrestes do autor enfrentam a vida com a vida, pagando um alto preço no final das contas.

“Ceifa sangrenta em campo de batalha” mostra que a contradição e a dubiedade são o ponto chave do mistério humano que Raimundo Carrero busca explorar em seus livros. Apesar da tradição cristã afirmar que os homens foram feitos à imagem e semelhança de Deus, o autor, um sertanejo cheio de fé, esperança e devoção no sagrado, prova com a sua literatura que nem o Jardim do Éden foi tão perfeito assim.

  • Resenha publicada originalmente no caderno Pensar, do jornal Estado de Minas, em 28/10/2023

“Ceifa sangrenta em campo de batalha”

Box com quatro livros: “Os extremos do arco-íris”, “A dupla face do baralho”, “Sinfonia para vagabundos” e “Viagem no ventre da baleia”.
Raimundo Carrero
Oia Editora
668 páginas
R$ 195

 

 

 

 

 

“A dupla face do baralho – confissões do comissário Félix Gurgel”

“Um homem é feito só para sofrimentos? Para ser dilacerado pela dor? Existirá alguma alegria que dure, pelo menos, um dia inteiro: manhã, tarde e noite? Imagino o que as pessoas pensam de mim, aqui sentado nesta cadeira, todos os fins de tarde. Deve haver aquelas que me têm inveja e outra que enrodilham vinganças, tantas sofreram nas minhas mãos. Pois a primeira ideia que tive, depois de aposentado, foi que seria pisoteado, escarnecido, humilhado. Tanto esperei por isso que já me acostumei. Acostumei? Será mesmo este o termo? Alguém se acostumaria com a perseguição?”

 

 

 

 

 

 

“Viagem no ventre da baleia”

“Mas o que é melhor para o Homem: estar sob a sombra do Cristo ou sob o seu Fogo chamejante? Porque o Senhor não nos oferece apenas sombra e quietude, mas verdadeiramente paixão e luta. O Senhor é Sol: nos sufoca, nos atira para os anseios da responsabilidade dividida com Deus. Por isso temo, temo e sofro. Não posso trair esta responsabilidade. Não posso. E se permito esta traição, falho diante do Homem; o que quer dizer: atraiçoarei Deus. Mais: permito que deus traia o homem. E, sendo isto demasiadamente grave, não posso permitir.”

 

 

 

 

 

 

“Sinfonia para vagabundos”

“Divertia-se com a fome, divertia-se com a sede, divertia-se com a embriaguez, divertia-se com a náusea, divertia-se com a dor. Olhava os mendigos esmolando nas calçadas, humilhando-se, errantes, vermes e ratos podres, quase pedindo desculpas porque existiam, porque ocupavam um lugar no mundo, meninos e meninas cheirando cola pela rua, depravando-se. Comerciantes e industriais falidos com olhares vazios, mãos vazias, bolsos vazios, vida e espíritos vazios. Mas tinha inveja dos loucos, vestidos em trapos, rotos trapos imundos, estampando algum tipo de felicidade terrível, terrível e bela”.

 

 

 

 

 

“Os extremos do arco-íris”

“Paisagens e pessoas não me ofereciam atrativos. Por uma dessas suspeitas do sangue verifiquei mais uma vez o jornal. Agência de detetives oferecia colocação vantajosa. O anúncio em letras pequenas, pequeníssimas. Pensei: crimes misteriosos se repetem, o ser humano se destroçando em sangue e desordem. Cismei que encontrara o meu destino”.

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