No triste silêncio de um apartamento vazio

A sensação que se tem ao terminar de ler o romance Nem sinal de asas (Patuá-2020), da escritora Marcela Dantés, é de flutuar num limbo onde a tristeza se mistura com o espanto e a amargura. Como pode alguém morrer e virar múmia dentro do próprio apartamento, já que durante cinco anos ninguém se deu conta do seu desaparecimento? Mesmo com as diversas contas se acumulando na porta, o emprego abandonado, os poucos amigos sem respostas, o porteiro do prédio que não mais viu a moradora passar. A história é ainda mais chocante ao sabermos que foi influenciado por um triste caso real.

O fato é que Anja Santiago, a protagonista deste livro, sempre foi uma mulher silenciosa, amiga da solidão, e a sua saída do mundo foi feita com a mesma discrição com o qual percorreu os dias. Desde a primeira página já sabemos que ela morrerá em breve. Em uma narrativa em falsa terceira pessoa, porque são os pensamentos e ações de Anja que comandam o enredo, conhecemos essa mulher de diversas formas, a sua história, até o derradeiro momento.

Crédito: Ney Anderson

Entramos no emaranhado de lembranças e vamos sentindo o que Anja sente, que é o seu  deslocamento do mundo, um não-estar em lugar algum. A solidão, na verdade, sem sofrimento, por ser opcional. Mas não deixa de ser uma opção triste, embora ela acredite ser melhor assim, para se conhecer melhor a cada dia e entender o mundo que a rodeia

A melodia dessa voz (e desse olhar) solitária, que fala apenas para si mesma, significa o que ela de fato ocupa no mundo. Anja mora em um edifício em decadência, que antes fora um luxuoso hotel. Mas  também representa o sonho realizado em morar naquele local. A expectativa da mudança de vida, da rotina, de ambiente, determina para ela algo ainda mais emblemático. Já que tinha sido criada sozinha pela mãe, Dulce, desde que o pai Francisco morreu quando ela ainda era uma criança. A mesma mãe que depois teve que ir morar com a filha por também estar morrendo.

Enquanto Anja sucumbe vagarosamente. Os sinais que a vida vai lhe passando são, ao mesmo tempo, íntimos e dolorosos. Os sinais de uma doença aparecendo aos poucos, dentro de um roteiro sentimental de alguém que observa atentamente os detalhes, narrando tudo sem parar. São detalhes principalmente do apartamento, e dos dias, que ela fixa para, talvez, não esquecer jamais. Mesmo que esse “jamais” já não estivesse tão longe assim. É como se ela se perguntasse: “qual a memória dos mortos?”.

“Anja vai morrer e não quer deixar qualquer coisa para que outra pessoa tenha que arrumar. Recolherá ela o próprio lixo, molhará as suas plantas, limpará os orifícios do seu corpo a cada vez que utilizar o banheiro, o que acontece cada vez menos. Morrerá como viveu: sem precisar de ninguém. E morrerá ali, seu lugar favorito no mundo, o apartamento que é seu há tanto tempo, o carpete azul que, ressecado, já não acaricia os pés, mas que ainda é o seu carpete azul”.

Neste romance, cada frase carrega o sentimento do tempo que vai escorrendo lentamente. A protagonista simplesmente vai sumindo como uma foto esquecida na gaveta, assim como quiseram apagar quem era ela. A autora trata bem as frases para expressar tantos sentimentos e situações. Anja é negra e tem a pele marcada por bolhas, por conta de um triste acontecimento familiar.

Crédito: Rafael Motta

Cuidadora de idosos, a morte sempre lhe rondou. Viu morrer de perto dezessete pessoas ao longo do trabalho e da vida. “Cuidar de idosos é conhecer o horror”, diz em certo momento. Até o encontro com gato de estimação Rinoceronte aconteceu de forma quase trágica. É este animal que passa a se alimentar, literalmente, da dona. Nem sinal de asas é um livro composto por muitos vazios.

Com algumas passagens de fino humor, talvez um humor mais sombrio, com personagens secundários bem construídos, que entregam vida à narrativa, o leitor vai compreendendo essa mulher que se desfaz aos poucos. Através das memórias dos tempos da faculdade, breves relatos do trabalho que exerce na casa de repouso e outras percepções da existência. A única voz externa é a do porteiro, o relato dele sobre a moradora encontrada mumificada.

Anja é uma pessoa que tem apenas um único amigo e parcos relacionamentos amorosos, por medo de se apegar. Ela, inclusive, esvazia o apartamento para não ser um fardo para terceiros, apagando a sua identidade e a sua essência.

Ao longo de 23 capítulos, temos uma compreensão muito potente sobre o final da vida e o percurso que se faz a partir de escolhas muito íntimas. De uma forma comovente, a leitura de Nem sinal de asas foi uma ótima, e inesquecível, viagem.

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