Por Ney Anderson

Imagine você saber que o seu tio amado, o que você mais gostava, havia sido um torturador na época da ditadura, um dos principais agentes do Doi-Codi na fase mais sanguinária da repressão. O escritor Mário Rodrigues soube disso durante um almoço em família, numa terça-feira de carnaval. A partir daí, do misto de tantos sentimentos, o romance “O motorista de Médici” (ÓIA editora), começou a nascer. Logo de início se percebe a riqueza da pesquisa que o autor realizou para criar o livro. Mário escreve fácil, tem uma prosa bastante agradável, apesar da revoltante história do parente, das monstruosidades cometidas por ele.

No livro, acompanhamos a relação entre os dois, através das lembranças do autor. São frases, conversas e ensinamentos que o tio lhe passou. Chegando nas histórias duras que o autor vai recriando, o grotesco horror, praticado por um, até então, homem admirável. É um livro que diz, sobretudo, o quanto de mistério esconde as famílias e os seus integrantes. Quanto de mistério esconde a alma humana. O romance tem muita reconstrução histórica a partir da ficção. É a biografia deste homem pelo olhar do sobrinho. O destino que ele teve, começando nos primeiros trabalhos, a infância difícil no interior de Pernambuco. É a reconstrução da vida de Abel. Um personagem tenebroso da história do Brasil.

Mário coloca o tio também através da visão das pessoas da família. Parentes que têm opiniões diversas sobre Abel. Quase sempre, no entanto, uma visão carinhosa daquele homem afável, de bom papo e prestativo. O autor vai dissecando o homem aos poucos, mostrando os sentimentos e pouco a pouco as entranhas do seu personagem. Alguém generoso com o próximo e um monstro no passado recente.

São vários capítulos com depoimento das vítimas de Abel e cenas de torturas com uma incrível realidade. A maldade e a perversidade destrutiva de mãos dadas. A prosa de Mário, apesar do tema, prende o leitor porque a escalada do horror é muito bem construída. O que acontece, por exemplo, com o corpo humano durante uma sessão de tortura?

Estão na história o relacionamento amoroso do tio com a primeira mulher, o progresso dele no exército, o passo a passo no regime militar, os pensamentos, dilemas e as euforias, passando pelo modus-operandi no Doi-Codi, com depoimentos de amigos de campo na época da ditadura, recordações dos ex-amigos sobre o método do Cabo Foguinho, o homem cruel e perverso.

Mario vai na origem deste homem, na reconstrução, na origem do universo dele, com as tantas escolhas e casualidades em sua vida. Enquanto o autor, também personagem narrador desta obra, se coloca com um misto de decepção e vergonha por conta dos sentimentos amáveis que tinha.

Ele insere o depoimento de pessoas que admiravam o tio justamente pela maldade travestida de patriotismo. Relatos e mais relatos da ditadura, a maneira da atuação dos agentes. Alguém que começou matando galinhas para se tornor matador de pessoas, descartando corpos dos presos políticos em valas comuns.

“O motorista de Médici” é um livro rico em detalhes. A prosa histórica remete ao passado recente do Brasil. A narrativa apresenta alguns casos de presos políticos, os relatos horríveis das torturas. Esta é a biografia do homem-personagem recorte do Brasil ditatorial como tantos outros. A diferença aqui é a lupa que Mário Rodrigues aproxima de Abel e até dele mesmo, o autor destas linhas. Ele tenta entender essa “fé” no Brasil. A fé que mata. Alguém que viveu para servir ao horror.

Até Maria, esposa do tio, aparece no romance nas cartas que ela enviava ao companheiro. Depoimentos também dos filhos. A relação difícil dos filhos com os primos. Para ajudar o autor a compor esse personagem até então desconhecido para ele. O poder que movia esse homem, bem observado pelo filho, dentro de casa, na ameaça ao núcleo familiar. Homem sádico e agressivo. O mal já entranhado, esperando apenas uma brecha para revelar a monstruosidade que sempre teve e alimentava pouco a pouco. O homem que por ser um excelente servidor público do Doi-Codi foi promovido a motorista de Médici, um exímio motorista, aliás.

Personagens execráveis da história recente do Brasil, como Carlos Alberto Brilhante Ústra, que foi contemporâneo de Abel, estão presentes na trama. Dados históricos, inclusive com data dos acontecimentos, recriação ficcional de algumas falas e também um capítulo com a voz recriada, ficcionalmente, de Médici, com uma conversa, inclusive, entre o tio e o ditador.

Abel, um personagem gerador de sofrimentos. Mas existe até a tentativa de humanizá-lo, quando o autor mostra, a partir da voz em primeira pessoa, este personagem buscando no álcool o esquecimento de quem um dia havia sido. Os dilemas, angústias e, por que não, o seu próprio medo, através do remorso, do peso enorme da culpa que ele carregou, das atrocidades que mexeram com os pensamentos dele para sempre. Não por acaso, termina a vida pobre, humilhado e decadente. O peso afinal que ele carregou, a insuportável existência que serviu para causar tanta dor.

“O motorista de Médici” apresenta este homem permeado por tantas contradições. Alguém que agradava, seja ao exército ou depois, aos mais próximos, depois de uma vida carregada por tantas desgraças cometidas.

Ironicamente, o acaso o trouxe de volta para Pernambuco, a sua terra natal. O autor fez as entrevistas de campo para compreender os próprios conflitos de sobrinho com o tio, também na tentativa de entendê-lo. Principalmente, porque alguns parentes tinham esse homem como anjo, como santo. O narrador se pergunta em qual gaveta da memória irá guardar o tio, depois dessa história que lhe foi contada corriqueiramente numa terça de carnaval de um meio dia festivo. No final, o autor diz que não há foto de Abel, do Cabo Foguinho, nenhuma. Isso diz muito sobre uma família chamada Brasil.

Compreender totalmente a história da ditadura não é simples, pois são muitos os porquês dessa fase tenebrosa brasileira. Algo que já vem, não é exagero falar, desde a invasão do país pelos portugueses. O autor, no entanto, apresenta um olhar original sobre o tema.

“O motorista de Médici” é um romance contundente, que vai permanecer por muitos e muitos anos, de forma atemporal, como registro importante de uma época tenebrosa do país. Com este romance, Mário Rodrigues prova que é, de fato, um dos principais ficcionistas de sua geração.

Mário é um autor que sabe utilizar os recursos que tem disponível, mas não faz disso algo hermético, pois vai no caminho de apresentar a história com tudo que tem em mãos. A técnica de sua narrativa é poderosa, fina, com a sutileza dos grandes prosadores. A ficção se mostra neste romance um campo vasto de invenção. Mais do que isso.

Após ler “O motorista de Médici”, o leitor se dá conta de algo incontornável. É preciso ter muita coragem em não fazer concessões a nada. Afinal de contas, não se deve escrever para agradar pai e mãe, e muito menos a família.
A literatura é a arte do incômodo. Este romance prova exatamente isso.

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