Rômulo Melo César: “escrever nos concede a possibilidade de brincar com o universo, criando um outro, particular”

Crédito das fotos: Fornalha Literária

 

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

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Rômulo César Melo, nascido no Recife, é Procurador Federal, escritor, poeta, autor de três livros de contos publicados – Minimalidades (Ed. Bagaço/2013), Dois Nós na Gravata (Ed. Cepe/2015) – vencedor do II Prêmio Pernambuco de Literatura e O colecionador de Baleias (ED. CEPE/2018) projeto premiado no Prêmio Lima Barreto da Academia Carioca de Letras em 2014; publicou, ainda, o livro de Poemas Bad Trip, (Ed. Cartonera Aberta/2017) e o volume de Crônicas Tigres Domesticados (Ed. Folheando/2020).

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O que é literatura?

Pode ser a arte que nos expande para fora desta realidade perversa com a qual não conversamos, dentro da qual estamos perdidos. É um bálsamo que nos faz provar da porção criativa divina, de fazer acontecer almas filhas da nossa alma em letras, mundos em livros, expressando o quero-ser nosso de cada dia. Bartolomeu Campos de Queiroz fala que é tudo sobre as dúvidas, delicadezas, faltas, quem escreve certezas e afirmativas faz apenas livros didáticos. É uma conversa crua com o inconsciente. E, ainda, uma forma de nos conhecermos, revelarmos, aprendermos e assumirmos quem somos e nem mesmo ousamos ou queremos saber.

O que é escrever ficção?

Ficcionar nos concede a possibilidade de brincar com o universo criando um outro próprio, particular. Ser pai de criaturas sem rostos, encenar situações, transferir cenários que se pintam em nossa mente, estabelecer imagens e contar histórias que possam atrair olhares, mexer com emoções, proporcionar certo incômodo.

Vocação, talento, carma, destino…..o escritor é um predestinado a carregar adjetivos que tentam justificar o ofício?

Alguns acreditam no talento, outros no destino, para muitos uma danação, terapia, vício, algo que transcende como se fosse um carma espiritual, o exercício de uma espécie de psicografia ou tudo isso somado. Ao cabo e ao fim, o escritor, basicamente, é aquele que se dá a chance de escrever, é quem se permite gastar o tempo sentado, aparentemente sozinho, dialogando com demônios e fantasmas de si mesmo, tricotando com o papel em branco, transformando-o em algo.

Qual o melhor aliado do escritor?

O tempo, a gaveta, a tesoura, os olhos, os ouvidos, o desapego.

E qual o maior inimigo?

A pressa, a vaidade, a teimosia, o apego ao texto, o ego.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Creio que sim, está implícito no ato da escrita a expressão de descontentamento com o status quo, de certo desencanto que pode vir a ser resistência a tudo que se vê no mundo, ao nosso redor, uma forma de lamento, denúncia, súplica, de se posicionar mesmo sem ser panfletário. É a sua voz na pólis, sentir como ser político agindo em sociedade que deixa extravasar pensamentos, impressões, talvez, ou muitas vezes, sem a plena consciência, sem planejar nada disso. Pouco de partidarismos, falamos de política de uma forma mais abrangente, no sentido de se relacionar com o mundo, com as pessoas em sua volta. Por exemplo, no meu livro de crônicas, Tigres Domesticados, vencedor do Prêmio Uirapuru e lançado no final do ano passado, por sinal o primeiro nesse gênero, tem muito do meu olhar sobre aspectos políticos, posicionamentos, opiniões.

Quais os aspectos que você leva em conta no momento que começa a escrever?

Em primeiro lugar, preciso ter um mote, aquilo que me move a sentar numa cadeira, pegar a caneta, o papel, ou ligar o computador para começar a trabalhar as palavras. Uma ideia, um sentimento, uma cena vista na rua, palavras escutadas na fila da padaria. Então, começa o trabalho mental, construções e teias e costuras. Não preciso de silêncio, nem tenho rituais. Em qualquer lugar posso escrever, com música, tomando uma cervejinha, em completo silêncio, no meio de uma festa. Tanto faz.

A literatura existe para entendermos o começo, o meio ou fim?

Não acho que exista para entendermos nada, mas para sentirmos por meio dela muita coisa. Para entender procura-se a História, as Ciências, a Filosofia, a política. A literatura está aí para nos levar a outra realidade paralela, a nos tirar desse calabouço. Se, no meio disso, conseguimos entender um pouco sobre nós mesmos já está bom.

Se escreve para buscar respostas ou para estimular as dúvidas?

Prefiro suscitar dúvidas. Acho que as leituras que ficam são aquelas que fazem o leitor quebrar a cabeça, não entregam soluções fáceis, algo mastigadinho, afinal quem gosta de papinha é bebê. Deixam no ar, a fim de que exercite a capacidade de raciocínio e elucubração, como um bom perfume que permanece muito tempo, ali, na pele, a gente leva conosco, aspirando, sentindo, dorme, acorda, segue.

Criar é tatear no escuro das incertezas?

Pode ser justo acender o interruptor.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

Não citarei um óbvio, Machado, Proust, Llosa, Guimarães Rosa. Esse livro me marcou e surpreendeu. Não conhecia a autora na época. “Se ao menos pudesse sentar-me nas escadas do amor que me humilhava. Sentir o coração a rebentar na boca, o pavor insolente da paixão. Porque afinal eu amei um homem, um só, como se ama a Deus – com aquela certeza desesperada de que era aquele, e de que nunca me seria possível viver com ele. Perdi o privilégio da desilusão(…) O amor brutal que pertence apenas aos lugares da vida, à química dos corpos. Não posso regressar ao escuro do tempo, ao escuro das escadas dele, em bicos de pé”. Inês Pedrosa em “Fazes-me falta”.

É possível recriar o silêncio com as palavras? Como?

 

Você acredita que qualquer pessoa pode escrever uma história? Mas, então, o que vai fazer dela escritora, de fato?

Acredito que todos têm uma história para contar. Mas nem todos estão dispostos a passar ao papel, escrever cansa a mão na caneta, ou os dedos no teclado, cansa, melhor ficar na rede tomando água de coco. Existem contadores de histórias que se utilizam da oralidade. Minha tia-avó tem pouco estudo, nunca li nada dela, mas minhas melhores histórias da infância foram contadas por ela. Para escrever é preciso primeiro saber. Depois, ter o toque de arte, senão vira um relatório. Você se torna escritor quando consegue escrever sem relatoriar. Consegue escrever como se desenhasse, se passasse ao leitor o cheiro, o gosto, as cores, o toque, o teu jeito.

É preciso saber olhar o mundo com os olhos da ficção? O mundo fica melhor ou pior a partir dessa observação?

Não sinto isso não. O mundo será o mundo e isso é inevitável, teremos de conviver com ele, com essa ideia. Olhar o mundo com os olhos da ficção é apenas uma das formas. Quem quiser ou puder que olhe. Garanto que é bem interessante. Mas nunca será o fundamental, o suficiente. Então, não é preciso, mas é bem recomendável.

Todo texto ficcional, mesmo os mais extensos, acaba sendo apenas um trecho ou fragmento da história geral? Digo, a ficção lança o seu olhar para as esquinas das situações, sendo praticamente impossível se ter uma noção do todo?

Para se ter noção do todo, ou melhor, para que essa soberba de se achar possível tê-la, para que? Haverá sempre o mistério. Isso é bem mais legal. As esquinas são muito mais profundas do que os meios da rua. Melhor ainda encruzilhadas, lugares mágicos, onde se fazem despachos rs. Não seremos nunca o todo. Somos parte de algo maior, contentemo-nos. Nunca saberemos do que se trata. E é isso que nos motiva a seguir na caminhada pelos amanhãs.

Nesse sentido, uma história nunca tem início, meio e fim?

A história fica na cabeça do leitor, cada um deles a completa, acrescenta, dá o seu toque peculiar. O fim é incerto. O fim é apenas a última página se quisermos ser materialistas e práticos. Se pretendemos ser mágicos, nunca haverá um fim, essa a verdade, cada um que lê aumenta um traço, uma eternidade para além da última página.

Você escolhe os seus temas ou é escolhido por eles?

Eu penso que escolho, mas não tenho dúvidas que eles me escolhem. Não tenho dúvidas. Sou instrumento. Um médium das palavras? Às vezes chegam óbvios, como o romance com o qual me debato há mais de dois anos. Sobre a doença do meu pai. Ele adoeceu, está de cama, isso mexeu comigo, minha vida, meus sentimentos e resolvi escrever sobre. Virou muito mais do que um depoimento de um filho sobre a doença do pai. Mas não consegui dar, ainda, o encaminhamento que merece e quero desenvolver. Está sendo escrito no tempo exato. Vamos ver se será publicado um dia. Mas está me fazendo muito bem.

É necessário buscar formas de expressão cada vez menos sujeitas ao cânone, desafiando a língua, tornando-a mais “suja”, para se aproximar cada vez mais da verossimilhança que a história pede? Ou seja, escrever cada vez “pior”, longe da superficialidade de escrever “certinho”, como disse Cortázar, talvez na tentativa de fugir da armadilha do estilo único?

Desacredito. Pode escrever sobre uma mulher sertaneja sem uma linguagem crua, sem erros crassos gramaticais comuns em pessoas que não conseguiram ter acesso à educação, usual nesse país, sem pia, sem barrer e pode escrever assim, com tudo isso. Graciliano não me pareceu ser um reprodutor de falas rasas e rudes, no entanto, em Vidas Secas, passou ao mundo o que era o Sertão, a seca, a dor da fome, isso importa muito mais. Guimarães criou algo maior dentro de uma linguagem particular para a história contada.  Você não precisa dizer uma frase rasteira só por ser representativa de um jeito de falar. Pode ficar até artificial ou excessiva. O que vale é a mensagem. Mas não confiem muito no que falo, não sou alguém que tem preocupações singulares com a linguagem, talvez, infelizmente. Sobretudo, sou um contador de histórias. Não estou no time do que chamam de “Alta Literatura”. E foi difícil para mim entender Ulysses ou Avalovara ou a primeira parte de O Som e a Fúria. Que dizem ser genial. E são grandes obras de arte. Mas compreendo que a Literatura nem sempre tem que alcançar nosso lado cognitivo. Pode nos tocar no aspecto sensorial, pela melodia, o ritmo e até no incômodo de se não entender algo. O importante é que aquele texto não nos passe indiferente o que é bem distante de um texto inteiro ser incompreensível. O detalhe mora no equilíbrio até o próprio experimentalismo, a singularidade, a originalidade, tudo merece ser dosado. É assim também na vida ou não é? Por que não seria na arte?

Quando é que um escritor atinge a maturidade?

Sabe aquela frase: “fiado só amanhã”?

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

Quando diz alguma coisa que faz o pensar e, depois, assegurar-se de que aquela interpretação é bem melhor do que a do próprio escritor. Do tipo, eu não pensei nisso, mas o seu crime, a sua frase, o seu final está melhor do que o meu, amigo.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Memórias Póstumas de Brás Cubas. Ode à ironia e ao sarcasmo. Uma grande conversa direta com o leitor.

Qual a sua angústia criadora?

O romance. Fiz livros de contos, poesia e crônicas. Falta o bendito romance. Ou maldito? Mas confesso que, na verdade, a minha Angústia Criadora preferida é essa de meu amigo Ney Anderson. Sem querer puxar o saco.

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