Tammy Luciano: “escrever é uma entrega e um ato de resistência”

Foto: divulgação

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Tammy Luciano é atriz, jornalista e escritora, autora de poesias, mais de 30 peças de teatro (entre elas: Krikilin Rima com Ziripin, A rua Daqueles Homens, O Menino que Escreveu o Mundo, Casados e Surtados…), crônicas e dos livros Fernanda Vogel na Passarela da Vida, Novela de Poemas, Sou Toda Errada, Garota Replay, Claro Que Te Amo!, Sonhei Que Amava Você, Escândalo!!!, Diário do Amor Desenfreado, Amo Tanto, Não Sei Quanto e Acordei Apaixonado Por Você.

Formada em Artes Cênicas e Jornalismo, fez especialização em roteiro em Washington DC, EUA. Atua tanto quanto escreve, teve por mais de dez anos um grupo de teatro no Retiro dos Artistas, Rio de Janeiro, foi colunista do JB Online e do site Baguete Diário, apresentou o quadro Tá no Papo do Hipermídia do Globo.com, participou como atriz de diversos espetáculos teatrais, em novelas como Uga-Uga, Laços de Família, Caminhos do Coração, episódios do Linha Direta, A Grande Família, foi repórter do Programa TV Fama, da Rede TV! e esteve em uma divertida entrevista no Programa do Jô, da Rede Globo. Hoje, além de escrever seus livros, viaja o Brasil encontrando seus leitores e grava vídeos para o seu Canal no Youtube youtube.com/tammyluciano.

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O que é literatura?   

Eu sou suspeita, mas a Literatura é tão presente na minha vida que é uma inspiração de vida, um grande amor, um encontro que eu tive comigo mesma e que me ajudou a me aproximar das pessoas. Não sei como seria a minha vida sem livros, sem escrita, é um universo que me faz muito bem. Então, a literatura é meu trabalho, mas também minha rotina, meu diariamente.

 O que é escrever ficção?   

É incrível. Quando comecei a perceber que eu sentia as personagens vivas, que elas correspondiam minha dedicação ao escrever suas vidas, tudo ficou ainda mais especial. A ficção te dá uma liberdade, já que eu posso tudo no livro. A ficção sempre surpreende. Várias vezes eu fico sem acreditar no que está acontecendo porque a força do livro parece se escrever por conta própria. O lado bom é que você não tem medo de se arriscar, porque é uma “mentira”, então você pode brincar com personagens, lugares. Eu adoro quando o leitor me pergunta onde fica o restaurante da mãe das personagens de Sonhei Que Amava Você e Acordei Apaixonado Por Você. O lugar não existe, mas já recebi vários pedidos de gente querendo jantar lá.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?   

Com certeza. Eu costumo dizer que não falo de política porque acredito que meu trabalho, minha maneira de me expressar na escrita, e nos vídeos dizem por mim. Minhas palavras falam como eu acredito que deve ser o mundo, com a liberdade da gente ser quem quer ser, da necessidade de igualdade e por aí vai. Essa semana, eu postei uma foto no meu Instagram (instagram.com/tammyluciano) e disse que escrever é uma entrega e um ato de resistência. No mundo atual de muita gente, o livro não existe, mas eu jamais vou desistir de ter um mundo mais leitor. Faço a minha parte por acreditar. Já era para termos desistido, continuar falando de livro é quase uma insanidade… kkkkk, mas eu amo, simplesmente é o que acredito.

 Você escreve para oferecer o quê ao mundo?   

Eu hoje já tenho um retorno do meu trabalho e desde que isso começou a acontecer há alguns anos, eu me senti ainda mais forte para escrever. Escrevo e sei que do outro lado alguém vai ler e se identificar. Ainda fico passada com as mensagens, principalmente quando dizem que meus livros mudaram suas vidas. Então escrevo tentando oferecer algo especial para a vida daquela pessoa. Quando um leitor me encontra e chora ou comenta algo que mudou dentro dele, eu sinto que é isso que eu quero. Não sei se quero oferecer ao mundo, que é gigante, mas no cosmo individual de cada pessoa.

O que pretende tocar com a palavra literária, com a ficção?   

A gente escreve para que pessoas leiam. O escritor faz acontecer na mente das pessoas. E isso é alimentar reflexões, fazer o outro evoluir de alguma forma. E eu escrevo, com certeza para voltar para mim… Sempre termino um livro diferente. A ficção, acredito, ajuda naquilo que as pessoas não conseguem ver dentro de si mesmas. Eu mesma quando escrevo, faço muita reflexão sobre a minha vida. É impressionante como os meus livros foram fundos dentro de mim e tocaram sentimentos íntimos. Mas eu não me acho a dona da razão escrevendo, então é apenas um olhar, um foco para trazer mais uma opinião. Nos meus livros Escândalo!!! e Acordei Apaixonado Por Você, eu falo da violência contra a mulher, é ficção, mas um um assunto real que me incomoda demais e creio que vale muitas conversas.

Um mundo forjado em palavras. Se o tempo atual pudesse ser resumido no título de um livro, seja ele hipotético ou não, qual seria?   

Nunca mais seremos os mesmos.

 A incompletude faz parte do trabalho do ficcionista? No sentido de que nunca determinado conto, novela ou romance, estará totalmente finalizado?   

Com certeza. Até porque existe aquela máxima que você não termina um livro, você desiste dele. Eu sempre me pergunto se faria diferente algum livro meu. Eu não releio os meus livros, só quando preciso porque sempre fico com medo de sentir arrependimento por alguma decisão. Um livro teria muito mais a ser dito. Eu por exemplo quando lancei Sonhei Que Amava Você jamais imaginei que o livro faria o sucesso que faz e muito menos que me pediriam continuação. Foram tantas mensagens, leitores falavam com o meu editor na Bienal pedindo um livro 2 que era fora de cogitação para mim. Um dia, viajando de moto com o meu marido, vendo as montanhas lindas, a história da continuação do livro veio inteira na minha mente. Então eu entendi que o livro pode ter desdobramento sim, eu que sempre neguei continuações na minha carreira, lancei Acordei Apaixonado Por Você e o livro é um sucesso entre os leitores do Sonhei.

Crédito: Simone Mascarenhas

 Qual o pacto que deve ser feito entre o escritor e a história que ele está escrevendo?  

Ah, a história manda em mim. O pacto é com a verdade, mas mesmo que eu queira mudar algo, a trama é quem decide o caminho que ela vai seguir. No meu livro Escândalo!!! (editora Valentina), eu não sabia de um detalhe muito importante. Minha personagem também não sabia. Quando ela soube, eu também fui surpreendida. Isso é muito legal. Você pode decidir que a personagem vai para algum lugar, mas é ela quem decide se realmente vai.

O que pode determinar, do ponto de vista criativo, o êxito e o fracasso de uma obra literária?  

Ficar se julgando muito. Eu já vi autores que não conseguiram escrever por causa do medo do julgamento das pessoas. Eu lido muito bem com comentários ruins e críticas. Quando comecei, eu sofri muito, não estava preparada para resenhas falando do livro, algumas eram doloridas de ler, mas aí os leitores foram chegando e entendi que na literatura é assim, alguns vão amar, outros não e está tudo bem. Tem leitor que elogia o que o outro me escreve dizendo ser um absurdo eu ter colocado no livro. Então para não atrapalhar a minha criatividade, eu escrevo com os meus sentimentos e seguindo minha intuição. O que importa é como você consegue lidar com isso, numa relação muito positiva. Eu realmente sou assim e não deixo que nada disso atrapalhe a minha escrita. Então quando sento para escrever, eu penso nas pessoas que gostam de mim, que estão esperando mais um livro novo meu e principalmente no meu desejo verdadeiro de produzir. Porque o resultado não pode ser o que move. O que é ruim, o que poderia me destruir, eu simplesmente desprezo.

 Como surgiu em você o primeiro impulsivo criativo?

Não tenho como precisar um momento exato, já lembro de mim com um caderno na mão. Eu tenho minhas agendas de adolescente em que eu já escrevia muito sobre a minha vida. Antes disso, ainda criança, eu já tinha cadernos com histórias. Mas nunca imaginei ser escritora de livros publicados. Nunca foi um sonho. Acabou acontecendo. Eu sou atriz e meu sonho era escrever minhas peças e roteiros, mas aí escrevi o livro da Fernanda Vogel na Passarela da Vida, em que foi um trabalho jornalístico e a experiência de escrever o livro me levou até o desejo de escrever minhas histórias, saindo do palco e indo para a livraria. Hoje ser atriz, comunicadora e escritora caminham juntos.

As suas leituras acontecem a partir de quais interesses?  

Eu leio de tudo, desde o livro da escritora que está começando, até o livro que meu leitor leu de uma autora já consagrada. Gosto de livros contemporâneos, com história de amor até livros mais clássicos, adoro biografias. Recentemente li Amy e o Clube dos 27, Um dia de Cada Vez da Courtney C Stevens, Quase Memória do Carlos Heitor Cony e Suzane Assassina e Manipuladora do Ulisses Campbell. Depois de muita dúvida sobre divulgar os livros que leio, comecei a mostrar minhas leituras no quadro “Adorei esse Livro” do meu Canal no Youtube.com/tammyluciano Se eu não gostar do livro, não divulgo. Sei o trabalho que é a produção de um livro e como acho que livro é gosto, cada um tem o seu sentimento pessoal com a leitura, prefiro só divulgar quando tenho coisas boas a dizer. E estou sempre lendo sobre escritoras, esse é um assunto recorrente na minha vida. Hoje mesmo li que a Hilda Hilst que só conheceu o sucesso pouco antes de morrer, queixou-se a vida inteira da falta de leitores. Então, adoro ler sobre autoras, me identifico demais.

Escrever e ler são partes indissociáveis? 

Escrever e ler são partes indissociáveis do meu cotidiano. Eu escrevo e leio muito. O livro, quando escrevo ou quando leio, é uma grande companhia. Eu sempre coloco hashtags como #amorlereescrever #escreverescreverescrever Eu realmente acho que a vida daquele que gosta de ler tem uma pitada especial, fica mais colorida. Estou terminando de ler A Casa de Carlyle e outros esboços da Virginia Woolf. Eu fiz tantas reflexões bacanas, o livro é fininho, mas me trouxe tantos conteúdos. Vou até fazer um vídeo no meu Canal do Youtube (Youtube.com/tammyluciano) E pensamentos que jamais eu teria se não fosse o livro.

Um escritor é escritor 24 horas por dia? É, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição?  

Eu não sou uma pessoa de crises, ainda bem. Sou muito bem emocionalmente, mas o meu lado escritora é bastante questionador. Então mesmo quando estou vivendo a minha vida “pessoa física”, percebo algo que é literatura e guardo para mim. Quando estou escrevendo um livro, essa atenção fica maior. O mundo está ali e eu quero colocar ele no meu livro. Sempre imagino no futuro as pessoas lendo os meus livros, aquela ali sou eu. Mesmo que eu não escreva a minha rotina, minha vida está nas entrelinhas do que escrevo.

O crítico Harold Bloom falava sobre o fantasma da influência. Você lida bem com isso?  

Eu gosto de ser bem autêntica no que escrevo e acho que se for influência positiva está valendo. Não dá é para a pessoa ir além da inspiração, se atrapalhar e confundir sua escrita querendo ser o outro escritor. Eu já conheço o meu jeito de escrever. Eu sou bem humorada ao vivo, mas escrevendo sou mais melancólica, eu respeito isso. Tenho personagens pontualmente cômicos, mas não me deixo influenciar, querendo ser outro autor e produzir algo que não seja realmente eu. Mas já recebi influências positivas, para ser mais leve na escrita.

O escritor sempre está tentando escrever a obra perfeita?  

Não sei se perfeita, mas melhorar é uma forte busca. Para mim perfeição não existe, até porque agradar todo mundo não dá, mas eu quero me desafiar, subir mais um degrau. Sempre que alguém está lendo um livro meu mais antigo, eu falo para ler um mais novo porque acho que melhorei. É desafiador você saber que aquele livro será publicado, que vai chegar até o leitor. Quanto mais noção do mercado você tem, mas se cobra a não entregar qualquer coisa. Porque o livro tem vida muito longa. Você publica e anos e anos depois, as pessoas estão lendo.

Como Flaubert disse certa vez, escrever é uma maneira de viver?  

Concordo plenamente. Quando eu viajo eu levo livro e caderno. As pessoas ao redor de mim já sabem disso. Minha maneira de viver é meu olhar através da literatura. É assim desde que me entendo por gente. Se tem algo que eu amo cada dia mais são os livros. E quando estou lendo um livro, estou vendo o mundo ao redor de mim através dos sentimentos daquele escritor. O livro que estou lendo influencia nos meus sentimentos da minha rotina.

Quando você chega na conclusão de que alcançou o objetivo na escrita (na conclusão) da sua história? 

Tão difícil. Eu nunca acho que o meu livro está pronto. Entrego porque a vida precisa andar, mas se fosse para entregar só quando estivesse pronto, acho que esse dia nunca chegaria. Sou vencida pelo cansaço. Chega uma hora que a revisão não anda mais, chego no meu limite e percebo que o livro acabou, dei tudo de mim ali, naquele momento. Pode ser que faria diferente depois. Mas aquela foi a minha entrega, aquela sou eu naquele instante e o livro acaba porque eu não vou poder contribuir mais para ele.

A literatura precisa do caos para existir?  

Falando fisicamente, não consigo escrever na bagunça, preciso do meu canto. Estou agora com um projeto novo, A @casadeescritora em que estou construindo a minha casa nova e mostrando aos leitores, meu novo espaço de trabalho. Com a vida bagunçada, a obra acontecendo, não tenho conseguido escrever direito, mas depois tudo vai valer a pena, terei um novo espaço de trabalho e sei que vou produzir muito. Mas quando você tem um caos interno, às vezes se produz melhor. Meus momentos de tristeza em relacionamentos influenciaram nas histórias que escrevi. Dizem que triste a gente escreve melhor do que feliz.

O escritor é um eterno inconformado com a vida? 

Eu não. Eu sou bem conformada. Eu sou entusiasmada e questionadora e mesmo com tanta coisa acontecendo no mundo, eu quero acreditar em dias melhores. Escrevo em nome de dias melhores. Eu não sou dessas pessoas que não aceitam a vida e escrevem infelizes. Eu sou bem feliz, acredito no poder da literatura e gosto de imaginar que meus livros em algum momento da vida de alguém pode ajudar de alguma forma essa pessoa a girar melhor o seu próprio planeta.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente. 

Eu não tinha lido nada da Colleen Hoover, mas os leitores comentavam muito e acabei comprando os livros da autora. Gostei tanto que emendei seguidamente três livros: Verity, É assim que acaba e As mil partes do meu coração. Ela merece cada pedacinho do sucesso que tem, é muito talentosa com essa literatura jovem, contemporânea. Vou deixar uma fala da autora no livro Um Caso Perdido: “Quero que lembre quem você é, apesar de todas as coisas ruins que estão acontecendo com você. Porque essas coisas ruins não são você. São apenas coisas ruins que aconteceram com você”.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria? 

O Menino no Espelho, do Fernando Sabino. Eu lembro que na adolescência cheguei a decorar trechos do livro.

Qual a sua angústia criadora?  

Da correria da vida não deixar fazer tudo que eu gosto e quero.  Mas eu tento…

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