Thais Lancman: “literatura é a investigação da intimidade”

Fotos: divulgação

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Thais Lancman é uma escritora paulistana nascida em 1987. Publicou os livros Palito de fosfeno (2014, Reformatório) e Pessoas promíscuas de águas e pedras (2020, Patuá), além de contos e ensaios em coletâneas no Brasil, Alemanha e Áustria e em revistas impressas e online. É doutoranda em Letras na Universidade Presbiteriana Mackenzie, dá aulas e trabalha como ghost writer.

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O que é literatura?

É a arte da palavra. Por isso, embora seja tão antiga, chegue a nós quase pura em seu estado de conservação: palavras em um suporte físico (ou digital). Por um lado, suas propriedades fazem da literatura leve, fácil de transportar e de levar o que está no interior de uma pessoa ao interior de outra. Por outro, a carga histórica parece fazer da literatura pesada, arrastando a tradição consigo, o que dificulta transformações ágeis.

O que é escrever ficção?

Escrever ficção é escrever. É deixar tudo maleável, dados, fatos, hipóteses, a ponto de serem torcidos, repuxados. É também juntar significados e investigar as próprias obsessões, com cuidado para não transformar a ficção em uma metáfora de uma metáfora, algo estéril. Por isso, escrever ficção é sempre refletir acerca da própria escrita e nesse sentido, em relação à poesia, é face da mesma moeda (teoricamente). Isso para mim, na ficção que eu acredito, que busco fazer e aprecio. Entendo que exista uma ficção mais esquemática, que caminha em direção ao não-artístico, no sentido contrário da não-ficção que eu aprecio (os ensaios e as boas reportagens, curtas ou longas, escritas por jornalistas que dominam tanto o tema quanto a forma que conseguem inserir no texto esse caráter autorreflexivo de maneira sutil mas pungente)

Vocação, talento, carma, destino…..o escritor é um predestinado a carregar adjetivos que tentam justificar o ofício?

Acho que não existe área do conhecimento ou das atividades humanas que não esteja sujeita ao escrutínio da vocação e afins, mas é claro que isso acontece mais em áreas criativas e artísticas. Isso passa pela literatura, pelo esporte, até as profissões mais tradicionais, inclusive o trabalho doméstico e a maternidade. É uma forma de ser condescendente. É engraçado que o que parece um elogio a um indivíduo acaba por diminuir o ofício, tornando-o também uma profissão de fé, como se aquele que vive o seu talento automaticamente carregasse uma cruz por isso. Então, o discurso do talento, da genialidade que se soma à sina de ser artista em seu ofício e temperamento é ao mesmo tempo um “bem-feito” quando o artista é pouco reconhecido, e um ressentimento quando qualquer um dos mencionados acima tem uma vida boa. A mesma sociedade que fala para o artista pobre que as artes deveriam ter mais reconhecimento é a que se indigna com os prêmios literários, com os programas de incentivo, chegando às donas de casa “encostadas” nos maridos (peruas que torram o cartão de crédito do marido, esse tipo de estereótipo tonto). Acho que já deu para ver que não acredito muito nessa concepções. Não que eu não ache que certas pessoas têm seus atalhos, no caso da literatura, seja pela habilidade com a escrita ou pelo contexto familiar, se cresceram em meio a escritores e intelectuais, no meio editorial, em uma casa com uma biblioteca recheada, tudo isso facilmente pode ser lido como vocação ou destino. Mas sempre penso que a vontade precisa se sobrepor a isso, e a vontade vem do autoquestionamento permanente.

Qual o melhor aliado do escritor?

Vou pensar no melhor aliado da escritora mulher. Com certeza não é o cânone, anêmico em referências femininas. Também não é boa parte de seus antecessores, de seus contemporâneos, dos formadores de opinião, que ainda não romperam com o patriarcado das suas referências. É engraçado que sempre as referências são masculinas mas como agora convém citar uma mulher aqui e ali, você vê clubinhos de dois ou três homens que vira e mexe posam de desconstruídos tecendo elogios a algum romance escrito por mulher. Mas existem aliados, sim. Aliadas, principalmente, porque existem mulheres escrevendo, editando, criando seus núcleos de crítica e discussão, suas revistas. Isso é importante não apenas pela diversidade em toda a cadeia editorial e no compartilhamento de ideias, mas como encorajamento de autoras desde os primeiros passos. A autora precisa, acima de tudo, acreditar na importância da sua obra, mas não que meu discurso seja individualista, como se a melhor aliada fosse ela mesma. É isso, porém o clima de geral de incentivo à escrita e à circulação é um aliado fundamental.

E qual o maior inimigo?

Como já disse, em relação à escritora mulher, é o patriarcado. Mas acho que o patriarcado é ruim para a literatura em geral, como tudo que limita vozes, por um lado, e cria acomodação, como um todo. Embora eu tenha falado que o escritor ou a escritora devem individualmente se valorizar, também acho que um certo tipo de excesso de autovalor são inimigos do escritor, porque colocam sobre ele uma carga inexistente. Se o escritor cria em torno de si a responsabilidade por toda a literatura, por toda a sua geração, e por aí vai, ele nunca vai se mexer. Teríamos toda a literatura, ou grande parte dela, acanhada diante da Literatura.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

É, mas não como se costuma colocar. Escrever é um ato político justamente porque a literatura não muda o mundo e porque ler literatura deve ser, também, um ato de prazer, de crescimento pessoal não conversível em lucro financeiro, desenvolvimento profissional (ao mesmo tempo que sim, livros são um mercado). Na medida que no Brasil de hoje há o fortalecimento de um sentimento de ódio em relação a tudo que é profundo, livre, que olha para o futuro (e a literatura verdadeira se insere nisso), escrever acaba sendo mais fortemente um ato político porque é a manifestação de uma mentalidade oposta ao que se deseja impor com violência. E porque a literatura acaba se inserindo em um projeto oposto de sociedade, de país. É importante frisar que, embora a literatura, as artes em geral, as ciências humanas sejam “inúteis” (aquela mentalidade tacanha que acha que viver é não ter câncer, só é útil de verdade o médico que cura câncer), não existe projeto de país possível sem a valorização de sua escrita nacional, dos investigadores sérios de sua literatura, suas artes. Então escrever é um ato político, mas sem que essa política esteja necessariamente na superfície da escrita.

Quais os aspectos que você leva em conta no momento que começa a escrever?

Acima de tudo o que eu quero escrever. Esse querer não é necessariamente um prazer direto, mas um equilíbrio entre o que eu sinto que preciso concluir para liberar espaço na minha cabeça, a ansiedade de ver uma história pronta, um exercício que sinto ser necessário para o meu projeto literário crescer em determinado ponto.

A literatura existe para entendermos o começo, o meio ou fim?

O meio. Porque a literatura é a investigação da intimidade, então quando eu leio um conto russo do século 19, por exemplo, eu tenho um certo olhar a respeito do meio da Rússia no século 19. Isso não significa acreditar que os personagens são reais, ou que todo personagem é de certa forma o autor, nada disso, mas sim que todo exercício literário narrativo tem algum retrato e uma investigação a respeito dos sentimentos humanos, da experiência de viver determinada situação, real ou imaginária, e por isso vemos ao longo dos séculos uma série de fotografias de “meios”. Por isso, é preciso cuidado para não cair na cilada de enxergar essas fotografias em série em um encadeamento de começo, meio e fim. Mesmo se eu escrever algo tentando construir um começo, estou fazendo um retrato de um meio, que se dirige ao começo como estudo dele mesmo.

Se escreve para buscar respostas ou para estimular as dúvidas?

Eu espero que quem escreve para buscar respostas nunca encontre, ou se engane achando que encontrou. Se estimular significa se divertir com as dúvidas, então posso dizer que é para isso que eu escrevo. Eu não escrevo para fazer perguntas, mas para me afundar nelas, de forma que as complexidades vão aparecendo. Eu acho que quanto mais incerta e complexa a literatura se mostra, melhor. Isso não significa ser críptico, mas pode ser também, dependendo de quem escreve! Mas eu digo um personagem que você não consegue afinal dizer que agiu bem ou mal, um texto que as fronteiras entre realidade e ficção são turvas e a reflexão que ele propõe acerca disso também, tempos sobrepostos, linguagem trabalhada, tudo isso são dúvidas latentes ganhando fôlego na escrita, e é o que torna a literatura algo de valor, para mim.

Criar é tatear no escuro das incertezas?

É o que eu quero que seja, para sempre, a única maneira que consigo enxergar a criação.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“Não, não é bem isso”, frase de Sérgio Sant’Anna em Cenários, que mudou a minha vida.

É possível recriar o silêncio com as palavras? Como?

Sim. Anna Karênina é um romance cheio deles, porque a contemplação e o olhar detalhado das situações dependem do silêncio. Eu vejo que é possível porque eu leio e penso: aqui uma recriação do silêncio, mas não sei se eu mesma sou capaz de recriar algum silêncio que seja. Isso é uma parte importante, qual silêncio se recria. A literatura qualifica o silêncio e escolhe algum silêncio existente para escrever. Nesse sentido, o que tem me desafiado é recriar a dor física com palavras. Há anos tento, e fica aqui o desafio para quem quiser.

Você acredita que qualquer pessoa pode escrever uma história? Mas, então, o que vai fazer dela escritora, de fato?

Qualquer pessoa pode escrever uma história, é claro, é parte da natureza humana traduzir opiniões e experiências nesse formato, com suas variações, e a escrita é só um passo além disso. A primeira coisa que vai fazer dela escritora é ela querer ser chamada assim. A segunda, é sair do automatismo e iniciar a trajetória da racionalidade (mesmo que seja o automatismo racionalmente escolhido). Acho que escritor não é necessariamente uma categoria taxativa, gostaria que entendêssemos níveis de escritura, transformando ser escritor em algo pelo qual se transita em momentos e fases da vida distintos.

É preciso saber olhar o mundo com os olhos da ficção? O mundo fica melhor ou pior a partir dessa observação?

Não existe alguém que olhe o mundo sem os olhos da ficção, a começar pela nossa própria memória e o impulso de falar de si dentro de formas pré-concebidas. Tudo isso é ficção. Agora, se você se aprofunda na ficção e transpõe essa complexidade para o olhar diante da vida, você pode ter alguns momentos de dor existencial, mas também pode encontrar a força para se atirar à vida em sua plenitude.

Todo texto ficcional, mesmo os mais extensos, acaba sendo apenas um trecho ou fragmento da história geral? Digo, a ficção lança o seu olhar para as esquinas das situações, sendo praticamente impossível se ter uma noção do todo?

O que é o todo da história geral? Se estamos falando de o relato definitivo sobre um evento, essa ambição além de impossível é perigosa. Qualquer obra que almeje isso está fadada ao fracasso ou a ser instrumentalizada por uma intenção totalitária, o que é outro tipo de fracasso.

Acho que a ficção conduz o olhar para as esquinas, para os personagens menores e extremamente humanos, as situações limítrofes, construindo um fragmento que se adere ao todo (um conjunto de fragmentos), dando a noção que o todo é sempre uma coleção de individuais e não uma massa generalizante na qual se destacam um ou outro diferentes.

Ao mesmo tempo, existe a ficção que se dirige ao todo, construindo um relato particular do todo sem dizer que é o definitivo. Isso não é olhar para as esquinas de forma alguma, porque o todo também é uma ferramenta para se voltar às questões humanas mais básicas e por isso mais importantes. Se pegarmos Vida e Destino, do Vassili Grossman, que começa mirando o todo em seu título. Fala de uma quantidade absurda de personagens, inseridos em eventos determinantes para a história do mundo no século 20: Holocausto, Segunda Guerra Mundial, em especial a Batalha de Stalingrado. E fala de morte, amor, esperança e desesperança, família, o sentimento de pequenez diante do mundo, traição, os grandes temas, sem se esquivar deles (o que muitas vezes os escritores fazem por se sentirem intimidados, de forma que essa ideia de esquinas sirva como desculpa, atribuindo à literatura uma limitação que é dele mesmo). Não é fragmento porque usa personagens, pelo contrário, mostra o universo que é cada indivíduo, em seu tempo, pois todos lidamos com a mesma grandiosidade da vida, e do destino.

Nesse sentido, uma história nunca tem início, meio e fim?

Sempre tem início, meio e fim se entendermos esses marcadores em um ambiente de questionamento permanente e amor pelas perguntas.

Você escolhe os seus temas ou é escolhido por eles?

Eu escolho que eles vão entrar na minha vida. Mas eles escolhem quando vou sentar e escrever, e em que ordem. Eu gostaria de ter mais controle dessa etapa também, mas não tenho.

É necessário buscar formas de expressão cada vez menos sujeitas ao cânone, desafiando a língua, tornando-a mais “suja”, para se aproximar cada vez mais da verossimilhança que a história pede? Ou seja, escrever cada vez “pior”, longe da superficialidade de escrever “certinho”, como disse Cortázar, talvez na tentativa de fugir da armadilha do estilo único?

Com certeza! Não sei se o meu “certinho” é o “certinho” do Cortázar, mas acho que até mesmo as inúmeras variações do “escrever pior” são necessárias. É o falei aqui de algumas formas diferentes que é a literatura corajosa pela qual me apaixonei. Mas não sei se os desafios que se impõem à língua são uma busca pela verossimilhança. São uma busca por uma literatura pulsante e viva que pode ser movida à verossimilhança ou não. Há outros motores.

Quando é que um escritor atinge a maturidade?

Quando ele encontra suas questões fundamentais e está forte o bastante para inseri-las na escrita e permanecer mergulhado nelas como um exercício de apneia. O quanto cada um tem de força varia, por isso a maturidade de uns é mais interessante que a de outros. Tem escritores que mudam e encontram outras questões, tendo duas maturidades, como uma árvore frutífera, mas a maioria não.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

Continuamente, conforme prossegue na leitura. Cada parte lida é uma reafirmação da cumplicidade. Mesmo quando o leitor lê desafiando o escritor, lê para odiar, tem uma cumplicidade.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

A Pastoral Americana, do Philip Roth. O que me salvaria seria ler aquela descrição minuciosa da fabricação de luvas, os detalhes das costuras e do curtume, o pelo de ovelha e tudo o mais. Também seria um bom projeto para a reconstrução do mundo se pudesse voltar para a Terra ou em algum outro planeta, manter a intenção transformadora da matéria-prima em algo bonito, delicado e também protetor.

Qual a sua angústia criadora?

É a angústia de tatear no escuro, como já dito, completando que é chegar a algum lugar mas nunca ser o lugar desejado. A angústia do Sérgio Sant’Anna em Cenários. E não conseguir desistir, querer acreditar na jornada ser mais importante que o destino (em tudo que disse aqui sobre perguntas e zonas turvas) embora isso seja marcado por uma insatisfação permanente, inclusive a insatisfação com a crença ocasional de haver um propósito.

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