Tiago Germano: “nunca se termina uma obra literária, se abandona. Para que ela não acabe com você”

Foto: divulgação

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Tiago Germano é autor do livro de contos Catálogo de Pequenas Espécies, previsto para sair em maio pela editora Caos e Letras. Escreveu também o volume de crônicas Demônios domésticos (Le Chien, 2017), indicado ao Jabuti, e o romance A Mulher Faminta (Moinhos, 2018). Possui mestrado e doutorado em escrita criativa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) e foi bolsista do Programa de Internacionalização da Capes na University of East Anglia, em Norwich (Inglaterra), por onde passaram escritores como o Nobel Kazuo Ishiguro e o Booker Prize Ian McEwan. Mora atualmente em João Pessoa.

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O que é literatura?

É o oposto daquilo que as pessoas que geralmente dizem gostar de ler acham que a literatura é.

O que é escrever ficção?

Tive duas figuras muito importantes para a minha formação: os meus avós. Um deles foi à guerra, voltou traumatizado e morreu com Alzheimer, sem nunca ter dito uma palavra sobre o seu passado. O outro foi comerciante, perdeu toda sua fortuna no jogo e chegou a ser preso após uma briga. Na velhice, gostava de caçar e foi o maior contador de histórias que já conheci. Escrever ficção, para mim, é preencher os silêncios de um dos avós com as mentiras que o outro me ensinou a contar.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Nunca antes nos deixamos governar por pessoas tão burras e violentas. Qualquer atividade que envolva pensar sentado em uma cadeira, sob tais circunstâncias, é um ato político.

Você escreve para oferecer o quê ao mundo?

Um punhado de histórias que me contaram algumas pessoas que conheci e que morreram sem escrever nada.

O que pretende tocar com a palavra literária, com a ficção?

O pensamento intraduzível. É por isso que a literatura é feita mais de fracassos que de sucessos.

Um mundo forjado em palavras. Se o tempo atual pudesse ser resumido no título de um livro, seja ele hipotético ou não, qual seria?

Eu poderia supor muitos títulos. Mas nenhum deles seria o título de um livro. O “tempo atual” me parece ter uma repulsa imperdoável aos livros.

A incompletude faz parte do trabalho do ficcionista? No sentido de que nunca determinado conto, novela ou romance, estará totalmente finalizado?

Ah, sim. Acredito piamente naquela ideia de que nunca se termina uma obra, se abandona. E se abandona para que ela não acabe com você.

Qual o pacto que deve ser feito entre o escritor e a história que ele está escrevendo?

De humildade, sobretudo. Porque, quase sempre, a história não é sua. E, até quando é, é ela que deve se impor, sob o risco de escapar das suas mãos.

O que pode determinar, do ponto de vista criativo, o êxito e o fracasso de uma obra literária?

Acho que o único ponto de vista que pode determinar o êxito ou o fracasso de uma obra literária é o do leitor.

Como surgiu em você o primeiro impulsivo criativo?

Eu era uma criança introspectiva, não necessariamente solitária. Se me deixavam sozinho, a primeira coisa que eu fazia era reunir meus brinquedos e contar histórias com eles. Meus brinquedos foram meus primeiros personagens.

As suas leituras acontecem a partir de quais interesses?

No interesse por entender o que está acontecendo ao meu redor. Li muitos clássicos na escola. Hoje leio sobretudo literatura brasileira contemporânea.

Escrever e ler são partes indissociáveis do mesmo processo de criação. Como equilibrar o desejo de ler com o de escrever?

Não há equilíbrio. Leio infinitamente mais que escrevo e, se me fosse dado escolher, e se isso não me trouxesse imensa angústia por não poder escrever, seria apenas leitor.

Um escritor é escritor 24 horas por dia? É, ao mesmo tempo, uma benção e uma maldição?

Uma dependência química. Um alcoólatra é alcoólatra 24 horas por dia e nunca deixará de ser alcoólatra, mesmo que não beba.

O crítico Harold Bloom falava sobre o fantasma da influência. Você lida bem com isso?

Comecei a escrever prosa imitando Gabriel García Márquez e deve fazer uns vinte anos que não o leio… Mas depois que se acumula uma certa bagagem de leitura acho difícil falar em fantasmas, ou em um único fantasma. Você vive numa casa eternamente assombrada por eles e acaba tendo que convidá-los para jantar.

O escritor sempre está tentando escrever a obra perfeita?

Não sei se acredito nisso. Hemingway dizia que o único conselho que poderia dar para um escritor iniciante era que ele tentasse se enforcar. Se ele escapasse, restaria pelo menos a história do enforcamento para contar. Eu acho muito provável que o escritor que escrevesse uma obra perfeita se enforcaria depois. Ou não teria a clareza de enxergá-la como tal e queimaria os originais ou pediria a alguém que o fizesse, como Kafka. Mas, de novo: não sei se acredito na obra perfeita. Vá lá, talvez escrever seja essa busca por ela, como você insinua. E talvez por isso o escritor é um teimoso, um estóico, que aprende desde cedo que o fracasso é a sensação mais concreta com a qual vai ter que lidar. Lembro-me do que estava escrito na mesa do Philip Roth quando ele se aposentou: “A batalha com a escrita acabou”.

Como Flaubert disse certa vez, escrever é uma maneira de viver?

Acredito mais no que Umberto Eco diz: que escrever é uma maneira de lidar com a morte.

Quando você chega na conclusão de que alcançou o objetivo na escrita (na conclusão) da sua história? 

Quando leio em voz alta e tudo o que me vêm à cabeça é um palavrão.

A literatura precisa do caos para existir?

Sim, porque é uma tentativa de ordená-lo.

O escritor é um eterno inconformado com a vida?

Sem dúvida. Mas não acho que o escritor tenha que viver em constante tormenta. Lidei com um quadro de depressão clínica por muito tempo, e não me parece à toa que não tenha escrito uma linha durante todo esse período.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o Coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo”.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Cem Anos de Solidão, talvez. Seria bom relê-lo. Mas prefiro viver em minha casa assombrada por fantasmas a embarcar nessa espaçonave.

Qual a sua angústia criadora?

Ter que escrever os livros que gostaria de ter na minha estante e ninguém poderá escrever por mim.

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