Por Ney Anderson

 

Roberto é um empresário que enriqueceu durante a ditadura e que vive imerso em obsessões sexuais por outros homens – e em mentiras para encobri-las. Lúcia, sua esposa, é uma ex-guerrilheira do MR-8 que atuou em sequestros e assaltos a bancos, até ser presa e torturada antes de ir para o exílio. E é no entrelaçar dessas trajetórias, que vão do final dos anos 60 ao alvorecer do novo milênio, que Sérgio Tavares retrata uma geração que lutou por liberdade , mas que não estava pronta para vive-la quando a conquistou.

A sinopse de “Todos nós estaremos bem” (Editora Dublinense), novo e potente livro de Sérgio Tavares, já dá mostras de ser uma leitura essencial para compreendermos muitas coisas do Brasil recente, da redemocratização, do fantasma da aids e do câncer. A história é esmiuçada com competência para mostrar esse homem (Roberto) que vive duplamente. Segredos, mentiras, mistérios. Esta é uma narrativa movediça que vai afundando e moldando os personagens no entrelaçamento de afetos e ruínas, dos escombros levantados do passado e do presente, que tentam, a todo custo, ficar de pé e ressurgir de alguma maneira. Uma narrativa em várias dimensões, povoada por esconderijos subterrâneos.

Nas cenas de sexo, onde o autor deixa o texto em primeiro plano de maneira obscena, mas sem cair na vulgaridade. Se fala muito sobre a política nacional, Diretas Já e eleições presidenciais. O autor, inclusive, revive a disputa Lula versus Collor. O ritmo do texto é muito bom, com a trama sendo preenchida por diversas histórias paralelas que encorpam o romance. São vários segredos compartilhados entre o casal. Eles se perguntam em determinado momento: qual a barreira do corpo, afinal? O romance alterna as vozes sutilmente. A aids e o câncer são duas sombras potentes neste “Todos nós estaremos bem”. Aliás, Sérgio traça um paralelo muito bem escrito entre as torturas durante a ditadura e os corpos definhando por conta das doenças. É algo, realmente, impactante no texto.

Para contar a história, o autor utiliza na maioria das vezes o recurso da segunda pessoa, com o narrador flutuante. Os diálogos, aliás, são ótimos. Na primeira parte da obra (1982-1985), o país está em busca da redemocratização, onde o protagonista se equilibra, ou tenta se equilibrar, entre o apogeu da sua profissão, do seu trabalho requisitado na mídia, com a doença do filho e o desejo recém descoberto por outros homens e a sombra do câncer. São vidas paralelas assumidas por Roberto, cada uma com graus diferentes de entrega, paixão e medo e euforia. O autor tem um olhar potente, inclusive, em relação a fala feminina e a visão da mulher, porque alguns capítulos são narrados por Lúcia.

Num tom que oscila por muitas vezes entre o êxtase e a melancolia, as lembranças do homem preso ao passado são bonitas e também tristes. A vida que lhe cobra um preço alto demais. O quanto as escolhas podem causar destruição, dor e arrependimento. O sexo está no centro da narrativa de diversas formas, seja nos atos, como também nos pensamentos e reflexões. Outro componente muito forte e fundamental é a questão da maternidade/paternidade e as mudanças que ocorrem antes e durante a chegada de uma criança em uma família disruptiva.

Já na segunda parte (1989-1999), o que segura a narrativa, a força do livro, é o relato forte de Lúcia na luta contra a doença, modificando tudo ao redor e conduzindo o rumo da trama. Alguns delírios da personagem e como tudo isso também afeta profundamente a menina, a filha, que vai crescendo e acompanhando os pais desaparecendo. A voz de Karla, a filha, também está muito presente. A percepção da garota sobre eles é digna de um livro só dela.

No final, como era de se esperar, o livro assume contornos muito tristes, porque fala de fins. O leitor observa toda a carga de sofrimento e preconceito das doenças e de tantas outras batalhas íntimas. De alguma forma, Karla encerra lindamente o romance, porque é ela que está presa à memória. É da moça, inclusive, uma das cenas mais contundentes da história. Sem dúvida, uma das surpreendentes jogadas narrativas de Sérgio Tavares. O leitor, de fato, leva um susto com algo que até então não tinha se dado conta.

Sérgio Tavares escreveu um romance povoado por sombras, escombros e personagens duplos (refletido na bela capa feita por Luísa Zardo), cada um com graus distintos de existência, tentando seguir por estradas não lineares, mas nunca longe um do outro totalmente. “Todos nós estaremos bem” é um texto riquíssimo em detalhes, cheio de camadas, dilemas é dramas. Merece ser lido diversas vezes.

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