Wellington de Melo: “quando há uma semente de uma nova história, há sempre o medo do fracasso e o desejo de saltar para o abismo”

Crédito: Teresa Benassi

Por Ney Anderson

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

 

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Wellington de Melo é escritor e editor, com uma carreira literária de mais de vinte anos Autor dos romances Estrangeiro no labirinto (Confraria do Vento) e Felicidade (Patuá) do livro de poemas O caçador de mariposas (Mariposa Cartonera). Participou de diversas antologias no país e fora dele, e tem textos traduzidos para o espanhol e para o francês.

É idealizador do Festival Internacional de Poesia do Recife e do Projeto Laboratório – Literatura e crítica. É editor responsável por mais de uma centena de publicações, entre Brasil, França e Argentina.

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O que é literatura?

Literatura é o exercício do abismo pela linguagem.

O que é escrever ficção?

Exercitar o abismo.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Sim, mas não panfletário. A escrita serve, como qualquer arte, para aprofundar nossa existência sobre a Terra, para crescer o mundo de dentro. E nesse crescer e aprofundar, nos encontramos com o outro. Daí o ato político.

Para além do aspecto do ofício, a literatura, de forma geral, representa o quê para você?

Uma forma de (des)organizar o (ainda mais) caos dentro de mim.

O escritor é aquela pessoa que vê o mundo por ângulos diferentes. Mesmo criando, por vezes, com base no real, é outra coisa que surge na escrita ficcional. A ficção, então, pode ser entendida com uma extensão da realidade? Um mundo paralelo?

A ficção faz parte do real, mas não é a realidade. Ela amplia nossa experiência do real, mas não deve ser confundida com o realismo, essa forma, a meu ver, equivocada de entender a beleza da literatura. O que é a base da literatura é a vida e seus estímulos, só isso. O que se cria a partir deles: aí está a alquimia, a beleza.

Quando você está prestes a começar uma nova história, quais os sentimentos e sensações que te invadem?

Não faço a mínima ideia. Porque as histórias vêm das formas mais diferentes. Levo sempre alguns anos para desenvolver meus livros, e as histórias vêm e vão durante o processo. Não devo ser o único escritor que gosta mais do escrever do que ver o livro finalizado e publicado, que é sempre uma forma de abandono, de desistência, como diria Borges. Para tentar responder: quando há uma semente de uma nova história, que pode ser uma frase como “O que tu entende de beleza, Ignácio?” (Felicidade, Patuá, 2017), há sempre o medo do fracasso e o desejo de saltar para o abismo.

A leitura de outros autores é algo que influencia bastante o início da carreira do escritor. No seu caso, a influência partiu dos livros ou de algo externo, de situações cotidianas, que te despertaram o interesse para a escrita?

A leitura, como parte da vida, influencia o escritor em qualquer momento de sua carreira. Seja pela afirmação, seja pela negação. Não acredito em escritores prontos, que já tem sua voz sólida e cristalizada. Essa é uma forma de morte. Cada livro para mim tem sua genealogia: os livros que li, os filmes que vi, as dores que senti, as frustrações e esperanças de um tempo. Mas o livro só interessa enquanto experiência que transcende essas influências para encontrar as influências dos leitores e dialogar com elas. O livro vai se transformar em outra coisa sob os olhos deles, e já não dominamos nada. Mapear influências interessa a críticos comparatistas da escola francesa, mas esse jogo de esconde-esconde não interessa ao leitor para nada.

Você escreve para tentar entender melhor o que conhece ou é justamente o contrário? A sua busca é pelo desconhecido?

A literatura faz sentido para mim como busca do outro. Mas essa é uma verdade que termina comigo. Cada um vai buscar o que lhe interessa, inclusive suas próprias idiossincrasias e neuroses (que vez ou outra também busco).

O que mais te empolga no momento da escrita? A criação de personagens, diálogos, cenas, cenários, narradores….etc?

Perder o controle da narrativa, ao ponto da história e das personagens fazerem coisas inesperadas para mim.

Um personagem bem construído é capaz de segurar um texto ruim?

Nunca li um personagem bem construído num texto ruim. Parece um paradoxo para mim. Tentarei pensar sobre isso nos próximos livros que ler.

Entre tantas coisas importantes e necessárias em um texto literário, na sua produção, o que não pode deixar de existir?

O desafio da linguagem. Sem isso, estaria apenas revisitando tudo o que já foi dito debaixo do Sol.

Nesse tempo de pandemia, de tantas mortes, qual o significado que a escrita literária tem?

Diante da morte, a escrita tem pouco a dizer. Ela é uma forma de enganar a morte, mas a morte nunca é enganada, de verdade. Ela é material, seca e precisa. Como uma ilusão, a arte nos permite observar a morte e outros fenômenos da vida como se estivéssemos flutuando, distantes. Não que ache que seja uma prática nefelibata: é apenas uma ferramenta para não enlouquecer, para mim. Mas em vários momentos pensei na inutilidade de escrever nesse período de morte para além do desejo egoísta de manter-se vivo. Talvez seja o desejo primordial de todos. Alguns o exercitam negando a morte, outros abraçando-a, outros transformando-a. A literatura pode ser qualquer uma dessas estratégias, inclusive todas.

No Brasil, o ofício do escritor é tido quase como um passatempo por outras pessoas. Será que um dia essa realidade vai mudar? Existem respostas lógicas para esse questionamento eterno?

Acho que ao escritor não cabe esse tipo de reflexão, porque não deveria importar como os demais veem seu ofício ou quantos o consomem. Isso é uma preocupação dos editores e dos gestores de cultura. Os leitores sempre foram uma minoria no mundo, não apenas no Brasil. Nossa condição pós-colonial nos coloca numa situação peculiar frente à cultura europeia, mas é um equívoco usar as mesmas réguas para comparar. Nossa história civilizacional tem características próprias e a escrita é uma tarefa de transformação subterrânea, que leva gerações ser assimilada. Ou seja, poucos escritores têm a verdadeira dimensão do que escreveram e de seu impacto enquanto ainda estão vivos. Há mais coisas então a se preocupar do que com essas respostas digamos mais mercadológicas ou de políticas públicas. Isso não significa que o escritor não seja um cidadão e não exerça, fora das páginas, essa sua prerrogativa de pensar a sociedade. Embora os escritores tenham perdido a meu ver o lugar de grandes formadores de opinião, essa centralidade que tinham até, sei lá, metade do século XX, acho que devem exercitar esse espaço, não necessariamente por meio de seus livros.

A imaginação, o impulso, a invenção, a inquietação, a técnica. Como domar tudo isso?

Por que precisaria domar?

O inconsciente, o acaso, a dúvida…o que mais faz parte da rotina do criador?

Tudo isso e nada disso. Rotina e criação parecem um paradoxo para mim. E depois de escrever, a frase parece tão inutilmente romântica. Acredito no trabalho e na dignidade, seja para o escritor, seja para o pedreiro. Em todos os ofícios se encontra a Beleza. Como diria Ademir, protagonista de meu romance Felicidade, ao observar o ofício do coveiro,  “É a última parede do dia, e será tão bela como qualquer outra. A parede exata, / imensa, / infalível.”

O que difere um texto sofisticado de um texto medíocre?

O quanto esse texto dialoga com a tradição que o antecede e vai além dessa tradição ou simplesmente a reproduz. Nem quero citar as categorias de Pound, porque nem penso sobre: é uma escala que parece uma corrida de ratos. Talvez seja, para alguns. Ao mesmo tempo, a pergunta tem uma armadilha elitista: o que pode ser sofisticado para alguns leitores, é apenas hermético para outros. O que pode ser medíocre para uns, pode ser um texto que modifica a vida de algum leitor. Nesse sentido: que direito tenho eu de expurgar um texto, digamos, medíocre, para usar o mesmo termo, da tradição, se não pela vaidade de impor um cânone, que é apenas mais um reflexo do paradigma da dominação que subjaz do pensamento patriarcal? Cada vez mais acredito que existe espaço para todos os diálogos, desde que haja uma verdade, não apenas artifícios para conquistar números, prêmios ou críticos.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

O escritor não precisa de cúmplices, apenas de interlocutores. Eles podem entender tudo ou não, escutar só partes da conversa ou ignorar por completo. Quando ele abre uma página numa livraria e deixa lá, houve alguma interlocução. Enquanto existirem esses momentos de contato, existirá a cultura leitora. Isso importa. Quando não houver sequer esse abandonar um livro antes de comprá-lo, teremos só escombros.

O leitor ideal existe?

Ouvi dizer que sim, mas é apenas mais uma ilusão do ego.

O simples e o sofisticado podem (e devem) caminhar juntos?

Acho que falei o suficiente sobre isso na questão 16. Ainda acho que é uma armadilha pensar nessa dicotomia. Não digo que não existam escritores que mirem um público e escrevam em função desse, digamos, nicho, para usar uma expressão de miragem. Só acho que não interessa muito para o resultado desse diálogo entre almas que a literatura proporciona.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

“Para que tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muito público no dia da minha execução e que os espectadores me recebessem com gritos de ódio”. O estrangeiro, de Albert Camus.

Apenas um livro para livrá-lo do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Livros não salvam ninguém do fim do mundo. Prefiro levar todos os que li, os fragmentos de todos eles, que formam o livro que sou.

Qual a sua angústia criadora?

O amanhã.

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