Marcelo Moutinho e o olhar atento para os personagens comuns

Foto: divulgação

Por Ney Anderson

No começo do romance Rimas da Vida e da Morte (Cia das Letras), do israelense Amós Oz, o narrador, que é um escritor, vai para um café passar o tempo enquanto dá a hora para uma palestra que irá proferir dentro de pouco tempo. Quando a garçonete lhe entrega o cardápio e se retira, o narrador imediatamente começa a pensar uma história para ela, através das particularidades que ele observa da mulher. Só esse simples fato faz com que o escritor passe a desenvolver uma trama paralela, ficcional, cheia de fabulações, tendo como pano de fundo um pedacinho da realidade. Ou seja, como bom ficcionista, ele é alguém atento aos pequenos e corriqueiros detalhes que podem lhe servir de matéria-prima.

O escritor e jornalista carioca Marcelo Moutinho parece, assim como Oz, que se apropriou de histórias reais para compor os treze contos presentes em Ferrugem (Record). No primeiro, Xodó, uma menina narra as brincadeiras do irmão com uma das bonecas dela. Mas as brincadeiras, como vai ficando claro durante a leitura, não são tão infantis assim. Já no segundo conto, 362, a ambientação é dentro de um ônibus, com uma curiosa história de amor, onde a cobradora é a conselheira amorosa do passageiro apaixonado. No terceiro, acompanhamos um gandula, que também intitula o texto, torcedor do Vila Rica, que vê o time do coração ir à final do campeonato contra o poderoso Vasco. Em Domingo no Maracanã, conhecemos a história da garota Bia, que nunca foi ao famoso estádio, agora totalmente transformado por conta da Copa do Mundo, e tem uma epifania durante o passeio no imponente estádio de futebol. Rei nos apresenta o cover de Roberto Carlos que faz shows numa decadente boate ao lado de prostitutas, travestis e drag queens.

Nesse conto é interessante acompanhar a melancolia de alguém que passou a vida tentando ser outra pessoa, extinguindo, dessa forma, a própria identidade. Em Três apitos, baseado na música famosa de Noel Rosa, uma caixa de supermercado descobre ser portadora do vírus HIV, ao mesmo tempo que reencontra o antigo namorado.  Dezembros narra a relação do neto com o avô, que dizia trabalhar nos programas da Rádio Nacional, mas que fazia outra coisa, totalmente diferente do glamour dos artistas da rádio.  No conto Nomes de Deus, um engenheiro abandona a carreira por receber uma “missão” de Cristo, que consiste em recolher dos lixos todo e qualquer papel que tenha o nome de Deus nas suas mais variadas formas. Já em Something a canção homônima dos Beatles serve de pano de fundo para a história.

Marcelo Moutinho não reinventou a roda tentando escrever textos mirabolantes, de finais esdrúxulos. O que se vê nos treze contos presentes no livro são figuras que estão por aí, dentro dos ônibus, atravessando a rua, trabalhando nos caixas de supermercado e nos campos de futebol, entre outras situações. São personagens, portanto, “comuns”. Cada um deles com os seus conflitos, desilusões e dramas. É o mundo real que serve tão bem à ficção. Pequenas cenas diárias transpostas para o livro em formato de conto, mas muito semelhantes com as crônicas. Os textos relatam o dia a dia de personagens cariocas, mas que também são, de certa forma, universais. 

Não existem grandes milagres nos contos de Ferrugem. Eles apenas acontecem naturalmente como o próprio desenrolar da vida. É um livro gostoso de ler, com o olhar interessante sobre o cotidiano, sem maiores epifanias. São textos cheios de humor leve e dramáticos na maioria das ocasiões, para serem lidos de um fôlego só. Ferrugem, no entanto, funciona como um todo, porque o livro caminha entre altos e baixos, com alguns contos melhores do que outros. As histórias ficam, portanto, mais fortes lidas em conjunto, porque são esses pequenos fragmentos da vida e do existir criados por Moutinho o que torna esse livro tão interessante.

Nada pode ser mais sincero do que escrever sobre as coisas que acontecem ao redor, sendo  um espectador atento do cotidiano. Como muito bem destacou Alberto Mussa na orelha do livro, os textos do autor lidam com a paisagem humana, com todos os seus dramas e melancolia, indo de encontro ao desgaste dos dias, sobretudo tentando lidar com a imprevisibilidade da vida, que caminha para o inevitável fim.

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