Contos de Nara Vidal mostram a multiplicidade das vidas imperfeitas

Foto: divulgação

Por Ney Anderson

Dentro de uma estrutura narrativa aparentemente simples, o livro de contos A loucura dos outros (Reformatório), de Nara Vidal, oferece ao leitor algo profundo, explorando situações que parecem irreais, mas que são absurdamente verossímeis com o cotidiano de várias pessoas. Cada um dos 21 contos presentes na obra leva o nome de uma mulher, e as histórias estão ligadas por um fio íntimo, doloroso e, na maioria das vezes, cruel.

O conto intitulado Ana Rosa, por exemplo, fala sobre um amor bandido. Já em Lúcia, acompanhamos a protagonista que atravessou a vida com o marido, apesar de grandes dificuldades. Ana mostra uma relação que termina por conta de ciúmes, mas que depois volta ao normal, como se nada tivesse acontecido. Marelena é uma menina que sofre de um grave distúrbio e acaba tendo um final trágico. Rita é o relato de uma mãe que perdeu o filho. Em Olívia vemos uma mulher que não aguenta a perda do marido e se mata por causa disso, deixando os filhos órfãos. Silvia é a história de uma relação superficial e esgotada. Flávia é alguém que não gosta de crianças, mas que preferiu tê-las com medo de ficar sozinha no mundo e envelhecer sem ninguém.

São histórias que podem ser lidas de forma independente, mas que caminham sob o mesmo terreno. Seja através da observação sobre a perda de pessoas queridas ou então a relação que esfria com o passar do tempo. É o casal que não mais se “vê”, apesar do tempo juntos, o mesmo tempo que se encarregou de deteriorar tudo. Ou então a mulher que faz análise porque não suporta a vida certinha que tem, principalmente depois da maternidade, achando que virou uma pessoa vazia (contraditoriamente) depois que se tornou mãe.

Existe um sofrimento latente em cada um dos textos, como no conto Vanessa, narrado em primeira pessoa por um marido que não reconhece mais a mulher, por ela já não ser jovem e bonita. A maldade, nesse caso, é camuflada de carinho. “Eu não sentia falta das varizes e do cabelo oleoso de Vanessa. O hálito da manhã era detestável. A pele vermelha e já suada depois do banho escaldante chegava a me dar repulsa. Só não suportava ficar sozinho”.

Tem também a mulher que não pode engravidar e a idosa largada no asilo pelos filhos. A história de submissão da esposa que apanha do marido, mas acha que ele está certo, porque ela não tem o direito de lhe incomodar em hipótese alguma. No conto Miriam, a personagem fala o que pode ser a tradução certeira do livro. “Distraíam-me com os problemas dos outros. A dor do outro é boa porque não dói na gente”.

É um livro que apresenta a realidade cotidiana, vista por um olhar feminino e entregue dentro de um pacote ficcional interessante de acompanhar. A obra fala sobre as agruras das relações, com as sombras das perdas, mortes e o significado da vida, entre tantas outras questões presentes no dia a dia. Mas tudo isso de uma forma poética, através de vozes múltiplas. Embora alguns textos sejam curtos, eles não acabam na primeira leitura, porque as mensagens são fortes e a opção de colocar mulheres para serem as emissoras dessas histórias tornam o livro ainda mais atual, por conta da complexidade muito própria do universo feminino.

“Será que ouvia Vivaldi no fone, durante a caminhada? O rosto refletia Chopin ou algo de melancolia cortante. Naquela manhã, não chegou a completar cento e trinta passos. Quando hesitou no número de cento e vinte e nove, cambaleou e caiu. Era o remédio novo dando a ela tonturas. Uma multidão em volta. Estava viva? Espalharam por aí que, curiosamente, no fone tocava Roadhouse Blues. No rosto não era então, melancolia. Era o tempo com mais de trezentos passos”. Do conto Selma.

É um livro de contos que explora, ou extrapola, o humano. Os sentimentos de mulheres que amam, sofrem. Que vivem, sobretudo, entre a razão e a emoção. São histórias isoladas, mas que formam uma unidade poderosa. Os contos de Nara Vidal não são feitos apenas de palavras e frases bonitas de impacto. São histórias de sentimentos fortes, dentro de contextos variados. Os textos carregam uma vastidão maior do que está sendo visto e narrado.

Existe uma alternância de vozes para mostrar vários tipos de mulheres, sobretudo, submissas e acomodadas em relacionamentos que não deram certo, vivendo nas sombras de um passado feliz. Até quando o narrador é um homem que despreza a mulher, mas não vive sem ela, se percebe exatamente que a história está sendo contada, de certa forma, pela esposa, através de detalhes, no olhar da mulher que também rejeita o marido, sem que ele compreenda a dimensão disso. É o dito pelo não dito, com uma linguagem muito bem trabalhada.

Nara Vidal conseguiu criar personagens originais, cheio de dilemas, com enredos igualmente únicos. São histórias produzidas para provocar reações diversas, fazendo deste trabalho uma teia emaranhada de sentimentos. O que permanece ao final da leitura é justamente a reflexão transmitida nas 132 páginas do livro, porque são histórias que não se esgotam, num forte simulacro neo-realista.  Na Loucura dos outros, que começa a partir da bela e enigmática capa, o jogo de palavras é um trunfo linguístico bem executado. Muitas coisas acontecem através dos gestos, colocando as ações em segundo plano. Além de não ser panfletário, ou forçadamente engajado, quando os textos revelam o machismo entranhado nas relações diárias, sufocadas pela mesmice e falta de esperança. Embora, claro, a crítica esteja intrinsecamente presente.

A Loucura dos outros fala também de ausência, amor e memória, que parece ser a linha que une todas as histórias. É quase impossível não acompanhar atentamente a vida de cada uma dessas personagens nesse segundo livro de contos de Nara Vidal. Embora seja por um viés triste em sua maioria, tudo no livro parece que foi criado tendo como base histórias verdadeiras. São relatos de mulheres que acham que os loucos são apenas os outros, quando na verdade a loucura está presente em cada uma delas, que representam cada um de nós.

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