Realidade e imaginação a cargo de epifanias urbanas

 

Crédito da foto: Malu Vanz

Por Ney Anderson

A representação do real e do imaginário rege o novo livro de Cristhiano Aguiar, Na outra margem, o Leviatã (Editora Lote 42), lançado depois de doze anos da publicação do último livro do autor, Ao lado do muro, em 2006. O escritor paraibano, radicado na capital paulista, retorna com o volume de contos centrado no cotidiano de personagens residentes em São Paulo, com questões existenciais e filosóficas, através de um grande emaranhado narrativo.

O conto de abertura, Miniatura, é dividido em quatro histórias. Na primeira, Um piano no domingo, o personagem tem a atenção voltada para o som de um piano, que ele tenta descobrir de onde vem, se é do prédio onde mora ou da rua. No meio dessa tentativa de busca ele faz elucubrações de quem pode ser o possível (ou a possível) pianista, simplesmente através da melodia e das sensações que ele sente escutando tal canção. O segundo texto é A tua presença, apresenta Lucas Motta e Lina tentando compreender o que é, de fato, estar em São Paulo. Em Naturae, Faustine tenta descobrir, através de divagações, o que aconteceu com o espelho quebrado do elevador do prédio onde reside, para, minutos depois, ser “lançada” em direção ao centro caótico da cidade. Já em Trappist, acompanhamos uma incomum conversa dentro do banheiro do shopping sobre a existência de outros planetas, entre o faxineiro e  Lucas.

Em Recortes de Hannah, Lucas e Lina ficam presos no elevador do Edifício Hannah. Enquanto eles conversam banalidades até o elevador voltar a funcionar, vamos conhecendo a vida deles, mas de uma forma entrecortada, com algumas marcações ditando a mudança temporal e narrativa. Lucas Motta, tradutor e revisor, tenta sobreviver de freelas. Lina, arquiteta, faz visitas ao pai enfermo, enquanto percorre alguns pontos da cidade procurando inspirações para os seus projetos. No conto O Laboratório do senhor Mosch Terpin, Natanael e Faustine dividem o mesmo apartamento. Ao chegar em casa, ela encontra o amigo, que lhe mostra as novas caixas de livros enviados pelo tio dele, Henrique. Um homem culto, misterioso, que diz ter vivido outras vidas. As histórias familiares envolvendo esse tio vão sendo contadas para uma atenta ouvinte. Aqui, um indicativo do que é o livro. “Ela vai embora, pensou Natanael, ela também”.

Os recém-nascidos é um conto de períodos distintos para mostrar a vida de Faustine e Estevão. Ela, sob a sombra do avô , que acabou de saber que ele havia sido torturador na ditadura, por conta da morte dele noticiada nos jornais. E ele, Estevão, tendo que lidar com as lembranças do abandono da mãe quando ainda era uma criança, com cada um dos irmãos (três no total) sendo enviados para parentes em outras cidades. Esse texto tem algumas divisões, fazendo a história ser conduzida entre as memórias e o tempo presente dos dois personagens.

Teresa, um dos melhores texto do livro. O aspecto bíblico é muito importante nesse texto. A narrativa é carregada de fragmentos, em meio a um desabamento, de consequências pessoais catastróficas, que faz com que Teresa, inevitavelmente, repassa a vida até ali, intercalando com a história do profeta Elias. Destruída, a única coisa que lhe resta é a memória intacta, a sua maior maldição. Ela é uma mulher em pedaços, atormentada por estranhas aves. “Pássaros pousam nos ombros de Teresa, mas não cantam”. 

Em  Desaparecido, Caetano, que também aparece em Recortes de Hannah, é alguém perdido, um mendigo, vagando pela cidade em companhia da cadela Balela (qualquer semelhança com Vidas Secas não é mera coincidência). É um conto emblemático, sobre uma pessoa perturbada, sem saber quem é, onde está ou, pior, para onde vai. Tentado, quem sabe, se reencontrar consigo mesmo. Nesse meio termo ele tem uma epifania.

Caetano olhou à sua esquerda; depois, à direita. Para qualquer direção observada por ele, o cenário seria igual: metros de concreto pichado, muitas pedras e paradas de ônibus, poucas árvores, que pediam-lhe desculpas. São horizontes confusos, empilhados sobre si próprios, que limitam a visão. Caetano não gostava de avenidas com tantas faixas duplas. Caminhar nelas não lhe dava certeza alguma e um passo para frente podia ser ao mesmo tempo um passo para trás“.

Leviatã, o último conto, é dividido em duas histórias. Faustine na Planície mostra a personagem que dá nome ao título contratada por uma ONG para ministrar oficinas de texto aos desalojados da comunidade Lagoa D’Água. No entanto, ela acredita que o trabalho que faz é puramente ideológico, já que nada vai mudar realmente na política, principalmente para as pessoas mais pobres. Durante essa inquietação, ela tem uma revelação epifânica sobre o seu papel no mundo. No texto que encerra a obra, Natanael e o rio, ficamos sabendo se tratar de um artista, que mergulha no Tietê para descobrir o que se esconde embaixo da imensidão do rio poluído. A submersão parece deslocá-lo para outro planeta, num tempo suspenso, dentro de uma atmosfera de ficção cientifica. A imaginação dele viaja no espaço. É muito simbólico que o último conto termine justamente com o personagem central mergulhando e tendo revelações logo no Tietê. São evocações de imagens abstratas de um mundo estranho. A narrativa também trafega entre a história real, contada por Natanael aos amigos Faustine e Lucas, e a imaginária, com um pé totalmente no fantástico. O mergulho no rio, e a aparição final, é o desfecho máximo de um livro de contos que mostra a força e a capacidade criativa de Cristhiano Aguiar.

Os contos, como dá para perceber, misturam alguns tempos narrativos e personagens, que transitam entre si, explorados por diversos ângulos das histórias que nunca acabam totalmente, entre o passado e o presente de cada um deles. Tudo isso ambientando em uma cidade onde “o ar tem gosto de vinagre e escapamento”. Vidas que se cruzam através dos  fragmentos, sendo pulverizados nos demais textos. É o microcosmo de uma megalópole, com as questões existenciais dos personagens.

Destaque para o bonito projeto gráfico

Na outra margem, o Leviatã todos estão à procura de alguma coisa. E acabam sendo acometidos, boa parte deles, por epifanias. Os contos parecem, propositalmente, inconclusos, em permanente estado de busca, de autoconhecimento, dos seres transitórios. O livro mostra a vida dos personagens morando em São Paulo, com a sombra do passado ainda muito forte em suas vidas e inquietos pela suposição do futuro. Qual futuro? São pessoas em construção, em trânsito na  constante continuidade dos seus destinos.

Cristhiano Aguiar, um dos 20 “Melhores jovens autores brasileiros”, de acordo com a revista Granta, em 2012, conseguiu dar formar às obsessões nesse mais recente trabalho. É verdade que em alguns pontos o autor tenha soltado um pouco o freio de mão, quando o momento parecia pedir o contrário. Por conta, talvez, de uma certa agonia em querer falar tudo, ao mesmo tempo, dentro de um conto. É perfeitamente plausível, no entanto, os objetivos por trás dessa verborragia, aparentemente intencional. O autor tenta mostrar os personagens fragmentados, morando numa cidade acelerada, em  transformação, como eles próprios.

Ambientar todos os contos em São Paulo foi importante para a finalidade da obra, porque a cidade é um monstro de pedra, cinza, fria e cheia de contradições, mas também o lugar de novas perspectivas, que não deixa de ser um grande ponto de passagem para os seus múltiplos e diferentes habitantes. Miniaturas, como deixa claro no primeiro grupo de contos, dentro de uma grande cidade, que ajudam a formar um enorme emaranhado social-urbano-sentimental-imaginário. Ao mesmo tempo que São Paulo é cheia de encantos, é também implacável na mesma medida.

Existe um deslocamento dos personagens, mesmo eles também pertencendo à cidade de São Paulo, cosmopolita, e por isso mesmo estranha para os habitantes. Todos os personagens deste livro são de classe média, intelectualizados, e estão de alguma forma envolvidos em questões políticas, mas não deixam de ser pedaços dentro de um todo que nunca se sabe qual é exatamente. A condução da narrativa deixa isso muito claro, através dos deslocamentos pelas cenas, por exemplo. É como se uma câmera não se prendesse por muito tempo em determinada situação, indo para diversas direções ao mesmo tempo, na mesma loucura que a cidade propõe.

Na outra margem, a representação bíblica é algo muito forte e até um ponto chave do livro. No conto Teresa essa questão é bastante evidenteSe traduz até na figura do Leviatã do título, que na bíblia é descrito como um monstro marinho do caos primitivo. Essa imagem, inclusive, é a que encerra o livro de forma totalmente surpreendente. A escrita de Cristhiano Aguiar parece levar os personagens para um não-lugar, na vastidão da megalópole. Todos eles estão de passagem, indo de encontro ao desconhecido, como todos nós também estamos.

 

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