Marcelino Freire carrega o Bagageiro com leves histórias

Por Ney Anderson

Marcelino Freire está de volta com novo livro, Bagageiro (José Olýmpio), que ele resolveu denominar como um trabalho de ensaios. Embora seja mais próximo dos contos de ficção, a obra reúne também textos curtos sobre muitas coisas. Ideias soltas, frases engraçadas, histórias rápidas sobre escritores e o próprio pensamento sobre a criação literária. É o retorno do autor cinco anos depois da publicação do romance Nossos Ossos

É o tipo de livro que se lê muito rápido, não pede tanto esforço, até porque a literatura de Marcelino sempre teve o viés mais urgente, com textos diretos ao ponto. Bagageiro, no entanto, vem com uma outra pegada. Não existe crítica social nos contos como ele sempre fez tão bem. Aqui ele se atém à ficção simples e pura. Ou melhor dizendo, ele conta as histórias sem estar ancorado nesse ou naquele dilema moral, ético, de choque mesmo, que a literatura dele sempre trabalhou, causando o impacto inevitável no leitor. Digamos que neste novo trabalho Marcelino está mais leve e solto, com ironias sutis.  

São dezessete capítulos intitulados de ensaios, sendo que treze deles receberam o subtítulo da ideia principal dos textos, como “ensaio sobre a poesia”, “sobre a prosa”, “televisão”, “dança”, “teatro”, e outros menos objetivos, a exemplo de “ensaio sobre os outros”, “sobre o prazer”, “sobre tudo isso”, “sobre xs outrxs”.

De forma geral, esses treze textos são contos, desenvolvidos sob os temas que estão nos referidos títulos. Intercalando todos eles estão quatro capítulos denominados de “Ensaios de Ficção”, onde o autor faz comentários rápidos sobre vários assuntos. Estão lá desde comentários engraçados da própria obra (“Este meu livro parará em uma estante de ensaios. Pensarão que eu penso”), do ato de escrever (“o escritor escreve para adivinhar o pensamento das pessoas”, “eu não saio com um pretérito-mais-que-perfeito pendurado no pescoço”), de lembranças dos momentos com outros escritores, como o encontro com o poeta Manoel de Barros, entre muitas outras coisas.

Liguei para Manoel de Barros para dar os parabéns pelos 50 mil reais que ele ganhou. Não havia prêmio, à época, com essa quantia toda. O livro sobre nada foi o vencedor. Eu disse, ao telefone: Manoel, escrever sobre nada e ganhar isso tudo. E ele riu. E me falou: minha poesia não gosta de dinheiro, mas o poeta gosta. Manoel era todo prosa”

Nessas partes de Bagageiro, Marcelino não poupou em textinhos mais afiados, relembrando, por exemplo, os vários pedidos que ele diz receber para fazer “orelhas” de autores que nunca leram um livro dele. “Calma,camarada. Por que não vai pedir uma orelha para o Van Gogh? Eu acho que apessoa acha que meu nome vai dar prestígio ao livro dele ou dela. Que a orelha assinada por mim vai ajudar a ganhar prêmio. Tudo bem, sendo assim eu escrevo.E, se ganhar prêmio, você me dá a metade do dinheiro, estamos combinados?”.

Mas as críticas servem até para ele mesmo. “Terminei um conto com a seguinte frase do Millôr Fernandes: “a vida é um suicídio devagarzinho”. Avisei e dediquei o conto para ele. Um resenhista destacou a frase como a melhor do meu livro inteiro. Sem saber que o autor era o Millôr. Sou medíocre ou não sou?”

Alguns são mais extensos, mas a maioria tem apenas uma linha, como se fossem tuítes resgatados para compor a obra. Eles, de alguma forma, apresentam o olhar do autor sobre assuntos diversos, mas centrado na ficção e no meio literário.  “O cara não escreveu o conto, não fez a poesia, está apenas no esboço do primeiro parágrafo do primeiro capítulo de um possível primeiro romance. Mas já tem contratado um assessor de imprensa”. 

A peculiaridade no livro é exatamente essa. A voz do autor em primeira pessoa falando sobre os assuntos da rotina dele, de forma sucinta. 

Bagageiro mostra um Marcelino Freire leve, com uma prosa cuidadosa, mas que (nesse caso) pisa no freio das tradicionais histórias brutais do seu repertório. Ele entrega ao leitor um livro correto, mas sem grandes sustos.  

Quem espera a aspereza pop pesada dos livros anteriores do autor pode até se decepcionar. Mas quem aguenta ficar rangendo os dentes o tempo todo? Um pouco de leveza nunca é demais.  

“Juro que tudo o que escrevo é verdadeiro. O mentiroso sou eu”

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