Romance “A pedra”, de Yuri Pires, evoca o realismo mágico no sertão nordestino

Foto divulgação: Cecília Schiavo

Por Ney Anderson

No interior do Brasil, precisamente na fictícia cidade de Lemuri, surge do nada uma grande pedra no meio da praça principal. Alguns dizem se tratar de coisa do prefeito querendo fincar o nome dele na história do município. Já o gestor acredita ser obra da oposição para acabar com a sua reputação. Outros dizem que é uma uma conspiração mundial. Enquanto um grupo religioso começa a se reunir em torno do objeto fazendo orações por se tratar de algo enviado por Deus.

É a partir dessa história que se desenrola o romance Apedra (editora Lote 42, 136 páginas),do escritor Yuri Pires, ambientado no nordeste brasileiro, que tem a rotina modificada com o surgimento da rocha. Começam a aparecer os primeiros “fiéis”. Fanáticos que acreditam na aparição como um sinal divino.

No início o acontecimento gera incômodo, mas nem mesmo o mais potente trator enviado da capital consegue remover a misteriosa pedra. No entanto, o burburinho começa a virar sinônimo de prosperidade para a pacata cidade, atraindo a curiosidade de pessoas de várias partes da região e até da imprensa. E despertando a ganância de gente poderosa, querendo tirar proveito da situação.

Não só a população, mas a natureza também começa a se modificar. Aspessoas dormem e só acordam dias depois ealgumas começam a morrer, além disso Lemuri vai ficando cinza,coberta de uma espécie de fuligem.O romance utilizada linguagem do nordestino do sertão para conduzir a narrativa, maso que poderia estragar a obra, por conta justamente do aspectoregionalista, tem a força no que está sendo contado.

É quase possível ouvir o canto dos pássaros e o cheiro da terra batida tão bem descritos nesse livro. Com bons diálogos e atmosfera de ficção científica, A Pedra é um romance de muitas nuances. 

“A estrada de terra se interrompia na altura do grotão, justamente onde começavam as casas da cidade e o asfalto da rua que não tinha nem nome, tamanha a sua desimportância. Naquele dia, com tudo de normal,sem ser, um engarrafamento começava bem ali, a uns trinta metros do grotão. No centro da praça, pousada no jardim de grama que o prefeito cultivava ali, uma enorme pedra preta reluzente. Lisa, não havia nenhum acidente no seu quase metro e meio de altura por metro e tanto de largura. Ninguém chegava muito perto. Estavam excitados,mas cheios de medo. Quem arriscasse uns passos em direção à pedra via-se refletido na superfície”.

Como as coisas que existem para confundir, sem explicação lógica, o surgimento do objeto serve(e pode ser entendida) como uma grande alegoria. Seja ela da ânsia de prosperidade de um povo, da ganância de políticos inescrupulosos, ou até mesmo para alimentar o desejo fantasioso dos que buscam encontrar em algo a fonte para novas perspectivas de vida.Como pretende Ambrósio, o narrador do livro com jeito de poeta de cordel, e as desilusões e esperanças dele por uma prostituta.

Alguns causos entram para contrapor com a história principal. Para situar,ou apresentar, Lemuri. São situações cômicas, de oralidade muito forte e de excelentes diálogos que evocam a voz do sertanejo nordestino. Aquele tipo de conversa fantasiosa que prende qualquer espectador. Ainda cabe espaço para tradições, como a vidência das mulheres mais velhas, por exemplo, que tentam entender esse mistério que remexeu o ânimo do povo.

A edição gráfica caprichada (como sempre) da Lote 42, teve a sobrecapa feita manualmente,conferindo o caráter único, para simular um papel amassado por uma pedra. Isso lhe conferiu o prêmio o How Design Awards, realizado pela Associação Brasileira de Empresas de Design, na categoria Capas de Livros.

Projeto gráfico de aspecto único em cada exemplar

Yuri Pires mostra com esse trabalho um enorme poder de construção ficcional, principalmente porque conseguiu segurar o andamento da narrativa com a incomum história, aguçando a curiosidade do leitor a cada página. O que a pedra é, de fato? De onde ela veio e quais os objetivos? São perguntas inevitáveis ao longo da leitura, mas não entregues de bandeja. Esse é um grande mérito da obra.

A pedra, chancelado por comentários elogiosos de Marcelino Freire e Micheliny Verunschk, é muito bem escrito. Passeia (e reinventa) por mitos populares,flerta com a ficção científica, desembocando no melhor que o realismo mágico pode proporcionar, mas que não deixa de ser também uma grande fábula das vidas transpassadas pelo surpreendente.

Um livro notável.

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