Livro de contos de Emilio Fraia, “Sebastopol”, lida com o lado oculto da vida

EmilioFraia©RenatoParada

Por Ney Anderson

Muita gente se pergunta ainda hoje o que é um conto, romance ou novela, embora seja bastante claro a estrutura de cada uma dessas formas ficcionais. Alguns autores, no entanto, não se prendem as puras definições e lançam obras que subvertem, ou confundem, a “ordem” estabelecida pelo cânone literário. Uma prova disso é o novo livro do escritor Emílio Fraia, Sebastopol (Alfaguara). São três contos longos que aparentemente não tem nada a ver uns com os outros, mas unidos pela linha invisível dos sentimentos.

No primeiro conto, “Dezembro”, é a história de Lena, uma montanhista que sofre um severo acidente ao tentar escalar o Everest. Depois do fato, ela passa a dar palestras motivacionais, principalmente porque ficou entre a vida e a morte, mas superou mais esse desafio, assim como fazia nas montanhas. Algum tempo depois ela se depara com um documentário sobre a sua vida, que não sabia, ou não lembrava, existir. Nesse conto, a protagonista conta a própria história, que vai sendo intercalada pelo que passa no vídeo. Cada parágrafo faz essa divisão narrativa. Lena é apresentada por olhares distintos. Nas partes mais diretas, narra as ambições que tinha na vida e a vontade de superar os próprios limites nas escaladas, entremeado por flashbacks da preparação, expectativas e a subida ao Everest. Além da relação dela com o fotógrafo Gino, que fez várias imagens durante a expedição, que rodaram o mundo. Enquanto o documentário, que ficamos sabendo ter sido produzido por uma documentarista belga, vai sendo “mostrado”, desvendando uma outra pessoa completamente diferente. “Como alguém podia ter feito algo assim? Como alguém pôde ter distorcido tão horrivelmente a minha história?”

No conto seguinte, “Maio”, conhecemos a história de Nilo e Ádan, que se encontram quando o segundo aparece na companhia da esposa em busca de um local para passar a noite, porque ficaram o dia desbravando a região sem se dar conta do tempo. Mas logo depois Ádan desaparece. E Nilo tenta encontrá-lo. Antes, porém, o conto mostra quem é Ádan, a partir do que Nilo fala, depois de ter ouvido a história do hóspede.  “As coisas têm vida própria, é o que Nilo costuma dizer. Os objetos se misturam às pessoas, adquirem vida com o passar do tempo”.

No conto que encerra a obra, “Agosto”, o título do livro é a referência para o estranhamento do texto. Sebastopol é uma cidade russa, que faz parte de forma indireta de uma peça do experiente dramaturgo Klaus. Ele tenta desenvolver o texto tendo um pintor russo, e as pinturas dele, como figura central da trama. Nadia, a personagem narradora deste conto, tem admiração pelo trabalho do dramaturgo e se aproxima para poder fazer parte da peça, deixando o próprio trabalho para se dedicar ao projeto, que no fim das contas não alcança o resultado esperado. Nadia também escreve o próprio texto e tem o sonho de um dia vê-lo encenado. O texto de Nádia (que flerta com o gênero policial) se mistura na história principal, se assemelhando de alguma forma com a relação dela e Klaus, ao menos no clima soturno. É essa história criada por ela (que vai se modificando ao longo do trabalho com Klaus) que encerra o livro. “As despedidas são assim, rápidas, e nunca sabemos quando elas vão de fato acontecer”.

Não existe uma ligação direta nos contos de Sebastopol, mas eles se assemelham na forma, porque contam uma história, enquanto outra é apresentada. É tudo embaralhado, mas fazendo todo o sentido. Essas sobreposições apresentam imagens distintas sobre os personagens centrais. O livro é feito sob o prisma das histórias que carregam significados para além do que está escrito.

São três histórias de vidas que se transformam. Aparentemente sem ligação, mas tem tudo a ver uma com a outra. A vida da escaladora de alto nível muda radicalmente, porque ela tem que lidar com um problema físico irreversível. Um dramaturgo que ficou famoso em determinado momento da carreira, mas só para um nicho, quase como uma figura alternativa. E termina fracassado. Ou então o hóspede que simplesmente some.

A estrutura, como informa a sinopse, é realmente delicada. São pessoas de passagem não apenas por situações na qual estão envolvidas. Mas pela vida, naturalmente. O que liga todas as narrativas é justamente o fio invisível das vidas suspensas. Existe um sofrimento intrínseco, não de forma languida e forçada, mas de atmosfera triste.

Não acontece nada no ponto de vista de ação. É um texto mais parado, denso, centrado no inconsciente de cada narrador-personagem. No entanto, o leitor vai seguindo. Porque é muito bem escrito. Parece que nada falta, nem sobra, principalmente. É possível ler de uma vez só, porque a forma é muito bem feita.

Emilio Fraia escreveu um livro de forte entrega íntima e silenciosa para o leitor, que é convidado a entrar nas entrelinhas do que está sendo contado por cada um dos interlocutores. Parece que estamos lendo o texto da superfície, onde o principal está submergido. Isso justamente por conta do deslocamento sentimental dos personagens, forçados pelo destino a seguir pelo caminho restante. São pessoas nubladas, nunca solares. Sempre tristes e amargurados, em situações de desânimo permanente, sem conseguir concluir os objetivos da vida. Histórias onde o final feliz é uma suposição totalmente fantasiosa e irreal.  

“O que eu tinha feito com a minha história? Sendo bem honesta, fiz o que as pessoas fazem o tempo todo. Contar as histórias, recontá-las, congelá-las, dar sentido a elas. E a história é repetida até apagar tudo, e já não sabemos mais o que é o quê.” Conto Dezembro.

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