“Planta Baixa”, de Cleyton Cabral, faz de uma residência imaginária palco para múltiplas sensações


Cleyton Cabral / Alex Ribeiro • Copyright : All Rights Reserved.

Por Ney Anderson

Cleyton Cabral é um escritor que produz com urgência. Na mesma medida que a rotina contemporânea impõe. Mas isso não é, de forma alguma, sinônimo de uma escrita apressada, sem zelo, feita de qualquer forma. Muito pelo contrário. Ele utiliza da aparente simplicidade para criar narrativas que oferecem muito em pouquíssimas linhas.

Como no caso deste novo livro, Planta Baixa (Editora Patuá), que ele apresenta histórias a partir do desenho de uma construção residencial com jardim, varanda, sala, quarto, cozinha e banheiro, que vão se juntando e formando uma unidade de sensações específicas para cada cômodo dessa casa imaginária. De forma engenhosa, os contos se adensam conforme os ambientes explorados.

No jardim, estão as histórias mais leves, com o olhar, por vezes, infantil sobre o mundo. Na varanda, os personagens são pré-adolescentes. “Toda vez que Aninha passa, meu negocinho cresce”, diz determinado trecho. Na sala, as pessoas são apresentadas de forma mais densas. Entrando no quarto, as emoções vão se intensificando e aumentando o clima íntimo. Muitos pelo viés sensual, como no conto Caspas, que apresenta um jogo amoroso durante um jantar. Mas não apenas o aspecto sexual está presente. Carta para papai Noel, por exemplo, é sobre a mulher que fica esperando o bom velhinho para ter um final de ano mais feliz no barraco onde mora com a família. A cozinha mostra os personagens transitórios e complexos. Já no encerramento do livro, o banheiro representa justamente os textos mais obscenos da obra.

São contos leves, mas carregados de significados. Alguns textos são curtos ou curtíssimos, de apenas três palavras, tiradas rápidas de assuntos corriqueiros. É o homem que tem desejo pela secretária eletrônica ou o amor de uma mulher pelo marido presidiário. Esse último, escrito sem pontuação. O livro é muito sobre os relacionamentos que vêm e vão, na mesma velocidade de um shift + delete.

As histórias refletem, sobretudo, as cenas cotidianas, emoções, sentimentos e descobertas, através da matéria-prima trabalhada tão bem: a palavra. Isso tudo com enredos rápidos em primeira pessoa, por um narrador flutuante, que fala olhando para frente. Assim como um ator voltado para a plateia.

A fluidez narrativa, inclusive, sugere leitura em voz alta ou até a interpretação do que está no papel. Porque, ainda por cima, Cleyton Cabral também é ator. Ele parece viver o que escreve, tamanha é a capacidade de criar situações variadas. Ou escreve para jogar a ficção em uma dimensão maior, transcendendo as páginas do livro.

Cleyton que atua com desenvoltura por várias áreas criativas, seja nos textos de teatro (interpretando a própria criação), nos livros infantis ou nos contos adultos, mostra com este trabalho que não está nesse mundo para brincadeira, mas que a gente lê com alegria.

O texto é moderno, brinca com as urgências do mundo atual e toda a sua liquidez, como no conto Oração, quando a personagem diz “Nossa senhora do Não Estou Nem Aí, fazei com que eu não me importe se fulano visualizou a mensagem no Facebook e no WhatsApp e não respondeu”. Ou então em Casa de Espelhos, sobre a jovem obesa que não gosta de se olhar no espelho do quarto, para depois emagrecer e virar uma anorexa inveterada, com obsessão pela própria imagem. O autor sabe transformar como ninguém histórias aparentemente simples em textos de variados estilos. Todos com o mesmo toque sarcástico e irônico do livro de contos anterior, Tempo nublado no céu da boca.

Tudo nesta nova obra é entregue com a ideia de que menos pode ser mais. O exercício de concisão e linguagem que Cleyton propõe não é falta do que dizer. É justamente o oposto. Em tempos de velocidade instantânea, os contos do autor parecem registros em selfies de momentos passageiros da vida contemporânea.

A planta baixa surpreende no percurso pelos cômodos narrativos que Cleyton Cabral criou. Percorrer por essas sensações da residência imaginária do autor é algo fácil e prazeroso. Difícil vai ser encontrar a porta para sair pela tangente.

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