“O que define a literatura não é um rótulo e sim a capacidade que o texto terá de provocar transcendência e o padrão estético”, diz Andrea Nunes, autora do romance policial Jogo de Cena

Foto: divulgação

Por Ney Anderson

Andrea Nunes é romancista, autora de O código numeratti (2010) e A corte infiltrada (2014), e também é autora dos livros O Diamante cor-de-rosa (infantojuvenil), O épico papel crepom (romance), Terceiro setor, controle e fiscalização (jurídico). Já ministrou palestras sobre literatura policial em universidades da Alemanha, Dinamarca, França e Portugal. Além de escritora, é promotora de justiça de combate à corrupção em Pernambuco e membro da Associação Brasileira de Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (ABERST) e da Academia Feminina de Letras e Artes da Paraíba .

Lançou recentemente pela Cepe Editora o romance policial Jogo de Cena, ambientando na ficcticia cidade de Mangueirinhas, no interior de Pernambuco. Uma terra de donos de engenho, mas de população humilde, que sobrevive principalmente através do comércio popular. A cidade, no entanto, esconde uma riqueza que pode salvar o mundo de uma possível catástrofe energética por conta da escassez do petróleo.

Esse segredo é descoberto pelo boticário francês Michel Simon, que é assassinado justamente por conta disso. Mas outras mortes se sucedem, aparentemente provocadas por assombrações do folclore nordestino. Por se tratar de uma pequena cidade do interior, essas mortes causam uma histeria coletiva, com vários personagens fazendo parte da história. É a partir disso que a delegada Alexandra e o historiador Pedro entram em cena para tentar desvendar o que está por trás dos estranhos assassinatos.

Nessa entrevista exclusiva para o Angústia Criadora, a escritora fala como surgiu a ideia para escrever o romance policial “Jogo de Cena” e sobre a trama em si. E também sobre os desafios dos livros de mistério e suspense na atualidade, a participação das mulheres no gênero e os aspectos pós-colonialistas na obra recém-lançada. Além do caso de censura que aconteceu na Bienal do Livro do Rio de Janeiro. Entre outros assuntos.

“É uma responsabilidade dos escritores nordestinos de hoje, da nossa geração, problematizar questões relacionadas com nossa cultura”.

ANGÚSTIA CRIADORAA ideia de utilizar o tema de escassez de energia, junto com símbolos do folclore nordestino, surgiu como?

ANDREA NUNES – A ideia central de Jogo de Cena, de trabalhar esses assassinatos relacionados ao nosso folclore de assombração, isto interligado com a exploração psicológica de inseguranças, fraquezas e recalques dos personagens por parte de uma mente criminosa brilhante, está associado ao desejo que eu tinha de criar uma história sobre a manipulação do medo como estratégia de poder, metáfora de como grupos conquistam e se mantêm em governos e como se conduz as massas para a direção desejada ao longo da história.

AC Jogo de Cena tem o sotaque e a musicalidade natural do pernambucano do interior. Mas não de forma documental, com o registro literal da fala. Você trabalhou essa cor local de uma forma muito competente. Essa era uma preocupação sua, no sentido de deixar o romance com caráter universal, mesmo com o tom pernambucano da gema?

 AN – É gratificante sua percepção de minha pretensão autoral. Não estou preocupada com os rótulos, se isso é ou não o novo regionalismo que quiseram emplacar em Ronaldo Correia de Brito quando da publicação de Galileia. Mas sinto que é uma responsabilidade dos escritores nordestinos de hoje, da nossa geração, problematizar questões relacionadas com nossa cultura, nossa identidade, miscigenação de valores, cenários, linguagens e etnias. A globalização sugere uma invasão nem sempre natural desses elementos em uma cultura. A busca pelo que nos define, pelo que nos diferencia e pelo que incorporamos ao que é nosso desse mundo de fronteiras líquidas é uma das grandes questões do nosso tempo. Assim, o caráter regional e ao mesmo universal de Jogo de Cena é propositalmente trabalhado para jogar o leitor nesse novo contexto de um nordeste globalizado. Procurei ter cuidados pra evitar as armadilhas da linguagem caricaturada, mas sem esquecer de trabalhar , como você registrou, nossa musicalidade única, conflitos e estranhamentos linguísticos.

AC – A ambientação também é muito marcante no livro. Mangueirinhas não é apenas espaço físico, mas é quase um personagem. Estou certo?

AN – Certíssimo. Mangueirinhas ultrapassa a condição de mero cenário na medida em que foi escolhida para representar a tensão e conflito entre o passado e o futuro, memória ancestral e desenvolvimento insustentável. Ora Mangueirinhas sofre, Mangueirinhas se agita, vibra, se transforma, Mangueirinhas escolhe suas armas, e mangueirinhas resiste ao que identifica como o mal. Na medida em que a narrativa privilegia algumas reações coletivas, a alma da cidade ganha vida, mais como personagem do que como mero cenário.

AC – Jogo de Cena tem a questão da fé muito presente, principalmente na população de Mangueirinhas. Mas os protagonistas (Alexandra e Pedro) são céticos. Embora em determinado momento eles comecem a mudar de posição (ao menos um deles). Eu te pergunto. Para escrever uma literatura policial, com forte apelo do folclore, do ocultismo, do candomblé, da alquimia etc, é preciso se comportar de uma maneira cética em relação a esses temas para o texto provocar justamente a dúvida no leitor assim como acontece com os seus personagens?

AN – Eu costumo dizer que meus livros não contêm resposta pra nada, mas com certeza, contêm uma série de novas perguntas pra quem lê. Acho que no fim esse é o grande barato: despertar as pessoas para que elas formulem suas próprias opiniões sobre  grandes temas. Procuro elaborar tramas verossímeis e calcadas na realidade, mas deixo para o próprio leitor o desafio de buscar respostas que lhe satisfaçam diante das descobertas que ele realiza nessa leitura. É 

AC – O seu livro tem muita pesquisa científica, também sobre a antiguidade, sobre alquimia, química, magia, folclore, misticismo, psiquiatria, fala sobre a igreja católica. E tem o próprio enredo, que viaja de um canto para o outro, inclusive fora do país. E ainda os questionamentos dos personagens centrais, com os pontos de vista de cada um deles e de outros personagens. Além da resolução dos assassinatos. Enfim, são muitos elementos. Como conseguiu levar isso para a ficção sem deixar se transformar num samba do crioulo doido?

AN – Sempre trabalho com muitas tramas paralelas em meus livros. Eu digo que eles são feitos em camadas: podem ser consumidos facilmente por quem não tem muita familiaridade com leitura densa como um romance policial comum, ou podem ser explorados com satisfação por quem busca algo mais profundo, já que têm filosofia, política e sociologia diluídas na história. Antigamente o romance policial tinha que seguir uma formula especifica e  não podia fugir do roteiro clássico: crime-investigação- resolução do enigma. Umberto Eco em O nome da Rosa inaugurou uma linha do suspense erudito e quebrou esse paradigma, permitindo a inserção de outras questões na trama. Procuro seguir essa formula , e acho que ela dá certo se você tiver uma ideia central a seguir , e todos os elementos , por mais díspares que sejam, a serem inseridos na trama, guardem coerência com essa ideia central.

AC – Seus livros são muito conectados com a realidade do país (A corte infiltrada) e do mundo (com esse Jogo de Cena). O código numeratti, o seu primeiro livro, fala entre outras coisas sobre espionagem digital. Você acredita que a literatura esteja dando conta dessa realidade que por vezes parece absurda, mas é totalmente real?

Escrever e dar conta do mundo em que eu vivo pra mim é mais do que um desafio, é uma responsabilidade que eu tenho.Numa matéria sobre as principais obras que explicam o momento político atual do Brasil, o blog página cinco se refere à corte infiltrada de uma forma que eu achei particularmente fantástica: Na ficção, de onde costumam vir as melhores pérolas literárias, nossos escritores vêm transformando o momento político em arte. Aí cita A corte infiltrada e Diário da Cadeia, do Ricardo Lísias.

AC – A ficção ajuda a compreender o momento em que estamos vivendo?

AN – A ficção sempre ajudou a humanidade a compreender o momento em que vive. Não é por acaso que na República, Platão escreve sobre a expulsão do poeta da Pólis: a arte , em todos os tempos, ameaçou regimes totalitários e inspirou o questionamento dos seres humanos sobre o contexto em que viviam. Normalmente isso não é bem aceito por governos que querem impor seu ponto de vista. A literatura portanto nos regimes de exceção assume um duplo e vital papel: manter vivo o pensamento crítico para além do autoritarismo das verdades impostas, e oferecer a válvula de escape da transcendência, da diversão e do arrebatamento dos espíritos quando tudo o que restar for pragmatismo e superficialidade. Nesse contexto, a Literatura é a um só tempo a trincheira e o campo de batalha: através dela, continuamos resistindo. Através dela, continuamos existindo. 

AC – É uma forma também de explorar o gênero em contextos diferentes, não apenas na elucidação de crimes?

AN – Eu percebi que podia usar a ficção como veículo pra falar de Brasil e de mundo quando li no prefácio da Bagaceira que existem muitas formas de se dizer a verdade, e talvez uma das mais persuasivas seja contando uma mentira. Não serei poeta de um mundo caduco. Estou presa á vida. O tempo é minha matéria, o tempo presente, a vida presente.

AC – Muita gente está comparando o livro com os romances do Dan Brown. Eu até achei também. Mas estou buscando os paralelos femininos. Principalmente no Brasil e percebo que ainda é um campo pouco explorado pelas autoras. Tenho razão?

AN – A comparação com Dan Brown realmente tem sido feita na imprensa nacional e até internacional (recentemente o blog europeu Deus me livro reafirmou essa semelhança entre minha obra e a desse autor). Mas prefiro as matérias que reconhecem alguma semelhança mas pontuam a diferença, também. Gosto de me dedicar mais ao psicológico dos personagens, acho que esse traço diferencia bastante a nossa narrativa.

AC – Quais as autoras brasileiras (ou de outros países) de ficção policial você dialoga? Além de você, existem a Patrícia Melo e a Claudia Lemes mais conhecidas, a Ana Paula Maia, em parte, com uma prosa puxando mais para o terror urbano. O que falta para o fortalecimento do gênero entre as autoras?

AN – Sobre a autoria feminina: minha grande referência não poderia deixar de ser Agatha Christie, claro. Na esfera  nacional gosto muito da Vivianne Geber, que escreveu Missão pré-sal e também escreve romances de espionagem. Ela usa a arte também na sua obra, insere girassóis de Van Gogh. Claudia Lemes é ótima também, Eu vejo Kate é excelente e perturbador. Temos Vera Carvalho Assunção com seu detetive Alyrio Cobra, que também simpatizo bastante. No campo internacional temos Patrícia Cornwell com a dra. Kay Scarpetta, médica legista, livros com pegada feminista, post mortem, corpo de delito. Entre as mais novas tem ainda Camilla Lackberg (a Agatha Christie sueca), com os romances Gritos do passado e A princesa do gelo

AC – Os romances policiais brasileiros são, provavelmente, o gênero literário que mais sofre influência colonial ainda hoje: a ambientação das tramas de mistério, por exemplo, parecem muitas vezes ter de se subjugar à atmosfera europeia ou americana. Desvendar que o mordomo é o culpado na hora do chá dos personagens que se chamam Charles ou Mary. Isso não tem nada a ver com Brasil. Qual o traço pós-colonial mais marcante na sua escrita?

AN – Acho que é exatamente este o ponto: perceber o Brasil como cenário perfeito para desenvolver uma trama policial interessante. Com nossa cultura, trabalhando nossos próprios mistérios, explorando nossos próprios cenários belos e ricos, a arquitetura, as paisagens naturais, nossa efervescência política e tensões sociais temas que  guardam uma violência latente muito suscetível de ser explorada em tramas policiais. Não precisa buscar lá fora. Podemos construir essa identidade aqui. Descolonizar a narrativa. Acho, finalmente, que não tem nada mais pós-colonial do que inverter a percepção do “nós”. O leitor de uma obra pós-colonial é arrastado pela gola para dentro. ele não é um observador empático, elese sente parte da história. É esse sentimento de pertencimento, de se reconhecer na obra, que faz o filme  Bacurau ser ovacionado nos cinemas do Nordeste, as pessoas soltarem gritos de triunfo quando a população começa a revidar o massacre dos invasores.   É trocar a torcida empática do leitor-observador pelo entusiasmo febril do leitor imerso . Muitos leitores meus me ligam emocionados ao terminar  leitura de Jogo de Cena, dizendo que a obra mexeu com lembranças de infância, que deram gargalhadas quando os personagens diziam coisas como “Ó o meio, esse menino”. Esse deslocamento  da percepção do nós (dentro da história, e não fora dela) é o traço pós-colonial. 

AC – Outra influência do colonialismo é a questão do contrabando de ouro pelos estrangeiros dentro de imagens de Santos. E Michel, um estrangeiro, também é envolvido com esse tipo de prática, certo?

AN – Sim, entendo que resgatar a memória de que somos historicamente expropriados em nossas riquezas. Fazer um resgate histórico dos saqueamentos, e conectar a cultura expropriatória dos outros países para conosco é muito importante. Nossa literatura não explorou isso de modo satisfatório enquanto acontecia. Pois estávamos sob influência colonial, e a percepção histórica dos fatos não foi trazida para a literatura. A idealização romântica do bom selvagem que José de Alencar em Iracema, por exemplo, nos deixa muito longe de entender que a selvageria era cometida na verdade por quem roubava as riquezas dos índios brasileiros. Essa literatura muito colonizada e colonizadora nos deixou em atraso com essa visão crítica, então, não é demais explorar.

AC – O folclore, inclusive, também é uma herança do pós-colonialismo, da magia, do ocultismo, praticado na Europa, como um dos personagens mesmo fala, não é? Os rituais de adivinhações, simpatias etc, advém dessa influência.

AN – Folclore é uma das formas mais vivas de resistência cultural, é busca por uma identidade, portanto, é absolutamente pós-colonial.

AC – O gênero policial teve início no Brasil com Medeiros e Albuquerque, em 1920, com uma coletânea de contos  inspirado em Conan Doyle. Com o título “Se eu fosse Sherlock Holmes”, de acordo com um artigo de Flávio Moreira da Costa. E depois o autor escreveu junto com outros três escritores o romance policial Mystério. Mas, antes disso, nasceu com Edgar Alla Poe no século 19 e se espalhou pelo mundo. Muita gente do cânone já flertou com o gênero, como Machado de Assis, Lima Barreto, João do Rio, Olavo Bilac, Lúcio Cardoso, Raquel de Queiróz, Jorge Amado, Antonio Callado e Guimarães Rosa, que começou publicando contos policiais na revista O Cruzeiro. Inclusive, Machado era leitor de Poe. Fora do Brasil temos William Faulkner, que também flertou com o gênero. Porque é tão difícil a academia, os prêmios literários e até a crítica especializada aceitarem a literatura policial para além da visão subliteratura como ela é sempre enquadrada?

AN – Historicamente, o romance policial, um gênero que escrevi, não foi bem aceito como literatura em sentido estrito, dada a falta de uma busca pela transcendência. No romance policial, a ação tem sido mais importante que a densidade psicológica dos personagens, por exemplo. Existe certo esquema em que a necessidade de um crime como assunto principal, a prevalência da descoberta e punição dos culpados e a profissão de detetive como herói da trama favorece a produção de histórias em série, de modo que essa simplificação de os enredos e as limitações da narrativa mantiveram o romance policial longe dos padrões que tornam uma obra literária complexa e perturbadora do ponto de vista filosófico e moral. No entanto, deve-se observar que essas regras foram relaxadas e livres dessa dogmática, alguns dos romances policiais modernos atingiram um grau de sofisticação que já lhes permite abordar os padrões estéticos da alta literatura. O que define a literatura não é um rótulo e sim essa capacidade que o texto terá de provocar transcendência e o padrão estético.

AC – Você acha que o fato de ser mulher, nordestina, escritora de romance policial é um fator positivo, por conta do mercado a ser explorado, ou o preconceito é ainda maior?

AN – Mais de 70% dos livros publicados por grandes editoras brasileiras entre 1965 e 2014 foram escritos por homens. Esse é o resultado de uma pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Estudos em Literatura Brasileira Contemporânea, coletivo de pesquisadores vinculado à Universidade de Brasília (UNB). Os dados desse estudo também mostram que 90% das obras literárias foram escritas por brancos e pelo menos a metade dos autores é originária do eixo Rio de Janeiro/São Paulo.  Diante disso eu diria que há muitos obstáculos a serem contornados, mas que cada vez que vejo meu trabalho reconhecido pela mídia, pela crítica ou pelo mercado, a alegria é dobrada, porque sei que cada conquista literária foi fruto de muito esforço e merecimento. 

AC – O leitor contemporâneo de romance policial é muito exigente. Como não subestimar a inteligência desse leitor?

AN – O leitor contemporâneo de romance policial não quer apenas uma boa história com final surpreendente: ele quer que o conteúdo do livro acrescente algo à sua vida em termos de informação, entretenimento e percepção crítica da realidade. Desse modo, busco quebrar o velho paradigma dos roteiros policiais que ensinavam o autor de suspense a não desenvolver tramas paralelas para não “tirar o foco” da resolução do enigma. Isso não funciona mais. Crio diversas tramas paralelas, desenvolvo os conflitos psicológicos dos personagens , pincelo provocações filosóficas e problematizo alguns temas contemporâneos que tiram o leitor da zona de conforto de acompanhar tudo como mero espectador dos dilemas. Ele pode até terminar o livro com mais perguntas do que respostas, mas ele prefere assim. 

AC – Você é uma estudiosa do gênero ou as coisas foram fluindo na medida que foram nascendo os primeiros textos. Como se deu esse encantamento pela escrita policial?

AN – Minha mãe era uma leitora ávida de Agatha Christie, e foi aos onze anos que eu comecei a ler romances policiais e não parei mais. Minha profissão de promotora de justiça ajudou a me familiarizar com o jargão e com os bastidores da criminalidade. Mas foi quando eu li no prefácio de A Bagaceira José Américo de Almeida (também promotor de justiça) dizer que há muitas formas de se dizer uma verdade e que talvez uma das mais persuasivas seja contando uma mentira que compreendi a profundidade dessa frase: a ficção era uma linguagem muito eficiente para levar nossa mensagem às pessoas. Foi desse jeito que eu acabei usando o crime pra fazer o bem. 

AC – O escritor é uma pessoa que lida com muitas inquietações. Quais são as suas?

AN – Acho que minha maior inquietação é viver em tempos tão turbulentos e não ser capaz de traduzir isso em literatura. Há uma enorme responsabilidade de todos os artistas e intelectuais contemporâneos em manter viva a poesia, o lúdico e o pensamento crítico. Cada vez que escrevo, escrevo com o coração na boca, por puro medo das palavras terem perdido a conexão com a alma. Com a minha alma e com a alma de quem me lê. 

AC – Você pensa o seu trabalho no sentido de obra, que domine, por exemplo, um determinado tema? Por exemplo, em Jogo de Cena existe a questão da possível escassez do petróleo. A corte infiltrada mostra os bastidores do STF por um viés de corrupção. O código numerati fala sobre invasão de privacidade digital. De alguma forma, são temas que se conectam.

AN – Gosto de pensar que meus livros procuram traduzir os dilemas e tensões da pós-modernidade. convido os leitores a assumir a função de julgadores em face dos limites éticos de algumas situações. Em O código Numerati, as grandes questões eram : garantir a privacidade e o direito de escolha do cidadão ou garantir a segurança e o conforto da coletividade com o monitoramento tecnológico, em detrimento de liberdades individuais. Já em A Corte Infiltrada, o que se debate é até onde o governo pode usar a tecnologia para combater o crime sem se tornar ele mesmo um criminoso, do mesmo modo que o crime usa a tecnologia para se infiltrar no governo. Jogo de Cena traz diversos modos de manipular as pessoas através dos seus medos, como estratégia para manutenção do poder. Desse modo, existe, sim, uma temática recorrente: poder, criminalidade e ética.

AC – Você, alguém que faz parte dos bastidores da justiça e atua como promotora, como observou o caso de censura na Bienal do Rio de Janeiro? 

AN – A censura é um ato ilegal e discriminatório, e como tal, o recolhimento dos exemplares da HQ Vingadores , a cruzada das crianças, está sendo objeto de um inquérito civil aberto pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. É preciso compreender que a medida tomada pelo governo do Rio somente se justificaria em nome do princípio de proteção às crianças  se fosse o caso de divulgação de conteúdo pornográfico, sendo que um beijo não caracteriza tal tipo de conteúdo. Está em jogo aí uma quebra do princípio da igualdade, onde se parece crer que cidadãos de primeira classe (heterossexuais) têm mais direito de divulgar um gesto de amor do que cidadãos de segunda classe (homossexuais), que, num contexto exatamente igual, precisam ser escondidos debaixo do tapete porque o tipo de amor que professam é sujo e proibido. Tal postura é juridicamente inadmissível, já que o  ordenamento jurídico repele não apenas a censura, mas também os preconceitos de cor, raça , gênero e orientação sexual. 

AC -Existe alguma coisa sendo rascunhada para um próximo romance? Pode adiantar alguma coisa?

AN – Tenho três capítulos escritos de um próximo romance. Ele segue o estilo dos primeiros, mas ainda estou na fase de pesquisa. O resto é segredo….

AC – Você escreve para descobrir o quê?

AN – Ainda não descobri. Mas continuou escrevendo, porque sei que preciso, como preciso respirar. 

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