Quando envelhecer é apenas questão de tempo

Foto: divulgação

Por Ney Anderson

Alguns livros pegam o leitor na primeira linha. E quando a obra em questão trata-se de uma coletânea de contos curtos, o efeito precisa ser, de fato, imediato. É isso o que acontece com o novo livro da escritora Alê Motta, já na abertura de Velhos, que acabou de ser publicado pela editora Reformatório. Como o título já diz, os contos têm como base personagens da terceira idade. Portanto, já se estabelece algo muito forte, justamente porque ao criar histórias com pessoas dessa geração, a obra pede uma consistência em outro grau. Porque são personagens experientes e com muitas cicatrizes. Elementos utilizados com eficiência em enredos urgentes, sofisticados na elegância bruta.

Os contos (trinta, no total) são narrados em primeira pessoa por personagens idosos. Outros, na terceira pessoa. Alguns são narrados por figuras que circundam os velhos, como filhos, netos, sobrinhos e vizinhos. Em Velhos, os personagens caducam, estão doentes, se reinventam, se vingam, matam, são feminicidas, são assassinados de formas trágicas, tentam se matar, ficar vivos (apesar de tudo), morrem de causas naturais ou tentam manter os prazeres da vida. Alguns se acham úteis até demais. Enquanto outros se acham sempre inúteis. Mas todos estão conectados pelo percurso da maturidade, seguindo a inevitável linha tênue que os levará para o mesmo lugar.

Acompanhamos a busca pela frase exata. Muitas vezes para mostrar a violência entranhada na família a partir da relação difícil do patriarca no conto “Herança”. Ou até o racismo no conto “Desculpas”. Ou sobre a decisão de um cadeirante octogenário em se jogar na piscina para morrer afogado durante o lazer dos parentes.  São histórias recheadas de cenas muito boas, como em “Obrigações”, ambientado no salão de espera de uma clínica médica. Ou no conto “Apostas”, dentro de um asilo, com um dos internos aguardando eternamente a visita dos filhos e netos. Durante a espera infinita, faz apostas com ele próprio para adivinhar quem será o próximo colega a morrer naquele lugar.

Alguns contos são mais elaborados, tencionam para o drama. Como no conto “Passado”, narrado por dois irmãos, talvez o melhor de toda a coletânea, com um final realmente surpreendente. Outros pendem para o humor. Tem também espaço para as sarcásticas ironias. “Sou viúvo e tenho dois filhos. Meu filho mais velho é um homem trabalhador, pai de três crianças. O mais novo é ladrão”, diz um dos narradores.

“Solidão” retrata a vida da mulher que escapa da monotonia da vida conversando com pessoas desconhecidas de uma cafeteria que ela sempre frequenta. Ou no emocionante conto sobre o casal que faz listas para não esquecer os compromissos da semana. Para não esquecerem de si mesmos.

Os contos da autora falam também do tratamento que os idosos recebem pelos mais jovens, buscando se adaptar aos dias atuais, em uma sociedade que nunca está preparada para eles. O olhar dessas pessoas sobre a própria vida, com ideias confusas de futuro, é alicerce importante das narrativas. Em maior evidência a violência sutil, com finais artesanais, cirúrgicos, de um mundo submerso, onde só aparece a geografia final das histórias tão bem trabalhadas, a exemplo de “Visitas”, que mostra um homem aparentemente frágil, mas que assassina o “sobrinho insolente”. Ou em “Esquecimentos”, quando uma senhora com Alzheimer desconfia da festa surpresa preparada pelos parentes ser uma despedida. “Devo ter uma doença terminal. Nunca fizeram uma festa assim para mim – com toda a família. Se fizeram, não lembro”. Os personagens em boa parte dos contos dizem implicitamente que não são sinônimos de fragilidade. Embora pareçam estorvos para boa parte das pessoas com as quais convivem. Todos os personagens transitam o mesmo percurso que só a maturidade é capaz de garantir. Para o bem ou para o mau.

Velhos não pretende encantar, simplesmente, através das frases bem colocadas, em parágrafos bem elaborados. O que a autora consegue é pontuar as suas histórias com outro tipo de sofisticação, muito mais no sentido do choque, do susto. A delicadeza beletrista passa longe dos contos de Alê Motta. O que ela expõe é a literatura que caminha na corda bamba, que ao menor sinal de vacilo pode cair e se espatifar no chão. Mas a queda nunca acontece. Para o bem do leitor, que atravessa as narrativas com a faca entre os dentes, sempre olhando para frente, sem saber o que irá encontrar nas páginas seguintes. Da mesma forma que os personagens do livro nunca sabem se existe redenção nas últimas linhas ou se elas representam, de fato, o fim. 

Ao final da leitura do Velhos, poderemos até sorrir do objetivo literário alcançado com maestria. Mas, sobretudo, pelo recado que a autora consegue repassar tão bem em seus textos. Em linhas gerais, a velhice nos contos de Alê Motta é retratada como uma forte evidência do tempo que se esvai minuto a minuto, sem dó, muito menos piedade. É algo natural, por vezes perverso. Porque, como diria o personagem principal de Matadouro Cinco, clássico do norte-americano Kurt Vonnegut, “é assim mesmo”.

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