Maria Fernanda Elias Maglio: “é no deslocamento do eu para o outro que a literatura se constrói”

Crédito: Pedro Abude

Em homenagem aos 10 anos do Angústia Criadora, escritores de todo o país falaram com exclusividade ao site sobre literatura, processo criativo, a importância da escrita ficcional para o mundo e para a vida e diversos outros assuntos. Leia a entrevista a seguir com o convidado de hoje. Divulgue nas suas redes sociais. Acompanhe o Angústia Criadora também no Instagram: @angustiacriadora e Facebook: https://facebook.com/AngustiaCriadora

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Maria Fernanda Elias Maglio nasceu em Cajuru-SP, em agosto de 1980. É escritora e defensora pública, trabalha fazendo a defesa de pessoas pobres que estão cumprindo pena. Seu primeiro livro, Enfim, imperatriz (Patuá, 2017), venceu o Prêmio Jabuti 2018 na categoria contos. Publicou também o livro de poesias “179. Resistência” (Patuá, 2019), vencedor do Prêmio Biblioteca Nacional de 2020.

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O que é literatura?

Esta é uma pergunta realmente difícil. Literatura é a manifestação artística pela palavra, claro. Mas como se define se um determinado texto é ou não literatura, o que faz com que uma exposição escrita seja considerada literatura? Talvez a intenção artística na escrita seja um bom termômetro. Qualquer um que deseje se manifestar artisticamente através da palavra está, em alguma medida, fazendo literatura. Se será uma boa literatura, daí é outra pergunta, ainda mais complexa.

O que é escrever ficção?

A ficção é a invenção da verdade. Por mais que o escritor invente, a criação está sempre edificada sobre uma verdade. E é por isso que o termo auto ficção é um tanto questionável, porque de alguma forma tudo o que o escritor produz, ainda que seja mentira, está lastreado em verdade, mesmo que seja a verdade do que se sente ou pensa. A gente inventa a história, mas não o sentimento. Posso escrever sobre algo que nunca vivi (e a melhor parte da literatura é justamente essa possibilidade de escrever sobre o outro, a partir do outro), mas vou sempre partir de impressões próprias, de sentimentos próprios. Fazer literatura é um grande exercício de empatia. É no deslocamento do eu para o outro que a literatura se constrói. É nesse exercício de alteridade, de tentar enxergar pelos olhos do outro, que a ficção é feita.

Vocação, talento, carma, destino…..o escritor é um predestinado a carregar adjetivos que tentam justificar o ofício?

Acho que esses adjetivos são uma forma bastante elitista de classificar o escritor, apartando-o do resto da humanidade. Ao atrelar a escrita ao talento, à vocação, à inspiração, colocamos o escritor em um patamar distinto, acima de quem não escreve. Como se a possibilidade de escrever, de tornar-se escritor, fosse alguma coisa que se recebe e não que se constrói. De acordo com essa lógica, ou você nasce escritor ou nunca poderá escrever. Por isso não gosto muito desses adjetivos que comumente qualificam o escritor. É óbvio que algumas pessoas são mais imaginativas que outras, que têm facilidade de transformar sensações em palavras, de inventar personagens, situações inusitadas. E é claro que essas pessoas terão mais facilidade em escrever e isso poderia sim ser chamado de talento. O que me desagrada é a ideia de algo recebido quase divinamente, de ser inato. É curioso que na literatura o talento é supervalorizado. Nas outras artes é claro que se fala em dom, mas há também um enaltecimento do esforço. Alguém pode nascer com uma aptidão para a música, mas é esperado que essa pessoa pratique, treine até a exaustão para que fique realmente boa. Na literatura há uma expectativa de que a pessoa nasça boa e se não nasceu boa o suficiente, não poderá ser boa nunca.

Qual o melhor aliado do escritor?

Acho que a paciência. O texto precisa de um descanso, de um respiro. O mais difícil para o escritor é melhorar a própria escrita, identificar o que está bom e o que precisa mudar. É engraçado que quando lemos o texto do outro, o que não está bom parece brilhar, de tão evidente. No nosso próprio texto não. Estamos tão envolvidos com nossa própria escrita, tão imbuídos dela, que o julgamento da qualidade do que escrevemos fica severamente afetado. Por isso o tempo é um aliado do escritor. Se tivermos paciência de esperar o descanso do texto, será mais fácil percebemos o que é bom e o que pode ser melhorado. Porque quanto mais nos distanciamos da nossa escrita, mais o texto parece não ter sido criado por nós.

E qual o maior inimigo?

Ah, acho que o escritor tem diversos inimigos. Talvez um deles seja as redes sociais. Não só pelo tempo que nos consume, mas por serem uma espécie de armadilha. Nas redes sociais todos parecem estar bem em todos os aspectos, felizes, produtivos e mentalmente sãos. É o que se chama de positividade tóxica. Mas ao mesmo tempo as redes sociais são uma forma (poderosa) do escritor divulgar sua literatura, por isso é difícil abrir mão delas. Outro fato que pode se tornar inimigo do escritor é o temor do julgamento alheio. A pior coisa que o escritor pode pensar no momento da criação é: o que minha mãe vai pensar quando ler isso ou o que vai achar aquele professor da oitava série ou o que tal escritor que eu admiro tanto acharia deste texto. Uma vez, um grande amigo me deu um conselho de que nunca esqueci: quando for escrever, tire as pessoas da sala. Procuro fazer sempre isso, escrevo como se nunca fosse ser lida por ninguém, cavo o buraco até encontrar o cimento, não evito nenhum tema, nenhuma palavra, levo a história e os personagens até onde precisar levar. Se eu pensar que alguém vai ler minhas histórias, acabo, inevitavelmente, policiando minha escrita e isso é ruim.

Escrever é um ato político? Por qual motivo?

Sim, escrever é um grande ato politico. Com certeza o meu maior ato político é a literatura. E aqui não se pode confundir a literatura como ato político com a literatura panfletária. A literatura panfletária é o fazer literário com a intenção prévia de panfleto. A literatura como ato político é você usar a literatura para falar dos valores que lhe são caros e isso de uma maneira não artificial, não forçada. Eu, como escritora, preciso acreditar que os temas que me são relevantes (feminismo, exclusão social, combate ao fascismo) aparecerão na minha literatura de forma orgânica, natural. E a partir da literatura feita sem a intenção de panfleto, ela pode ser usada como panfleto. Aliás, a literatura é um panfleto poderoso quando não feita com a intenção de ser panfletária.

Quais os aspectos que você leva em conta no momento que começa a escrever?

Tento não levar em conta nenhum aspecto quando escrevo, tento ficar o mais livre possível, deixando a história ser contada por meio da linguagem, descobrindo do que se trata o texto na medida em que ele é escrito. Não escrevo a partir de nenhum aspecto. Escrevo a partir da própria linguagem. A palavra vai dando a mão para a palavra e o texto se constrói.

A literatura existe para entendermos o começo, o meio ou fim?

Acho que a literatura nos ajuda a entender o início e o meio e o fim. Talvez um dos grandes méritos da literatura seja no ajudar a aceitar que o fim não é um novo começo. Um fim e só um fim.

Se escreve para buscar respostas ou para estimular as dúvidas?

Há quem escreva para buscar a resposta e há quem escreva para descobrir a pergunta. Acho que eu escrevo porque não sei qual é a pergunta e isso me angustia todos os dias. Que resposta posso dar se sequer sei qual é a pergunta? A pergunta é: por que estamos aqui? A pergunta é: o que acontece depois? A pergunta é: existe um início? Ainda estou em busca da pergunta. Talvez eu nunca chegue a procurar respostas.

Criar é tatear no escuro das incertezas?

Sem dúvidas, criar é tatear no escuro das incertezas e das infinitas possibilidades. Há milhares de palavras, todas elas ali, ao alcance dos dedos que apertam os teclados e há milhares de cenários, de personagens. Escrever é fazer escolhas, muitas vezes sem luz nenhuma.

Cite um trecho de alguma obra que te marcou profundamente.

A primeira vez que li “Cem Anos de Solidão” tinha dezoito anos e desde então li diversas outras vezes, nem sei quantas, com certeza mais de dez. Durante muitos anos foi o meu livro favorito. Tem uma passagem que sempre me assombrou pela dureza, força e lirismo, tudo ao mesmo tempo:

“Estavam encurralados, girando num torvelinho gigantesco que pouco a pouco se reduzia ao seu epicentro porque as bordas iam sendo sistematicamente recortados em círculo, como quem pela uma cebola, pelas tesouras insaciáveis e metódicas da metralha. O menino viu uma mulher ajoelhada, com os braços abertos em cruz, num espaço limpo, misteriosamente vedado à correia descontrolada da multidão. José Arcádio Segundo depositou-o ali no mesmo instante em que desmoronava com o rosto banhado em sangue, antes que o tropel colossal arrasasse com o espaço vazio, com a mulher ajoelhada, com a luz do alto céu da seca, e com o puto mundo onde Úrsula Iguarán havia vendido tantos animaizinhos de caramelo.”

É possível recriar o silêncio com as palavras? Como?

É possível tentar emular o silêncio pelas palavras. Mas o silêncio é sempre o silêncio. Nenhuma palavra dá conta do silêncio, porque é imenso.

Você acredita que qualquer pessoa pode escrever uma história? Mas, então, o que vai fazer dela escritora, de fato?

Aqui é uma questão semelhante a primeira, o que é literatura. Qualquer um pode escrever uma história, claro. Mas o que define se essa escrita será ou não literária? E mais que isso, a partir de quando alguém pode se definir ou não como escritor. Esta é uma questão que durante um tempo me atormentou. Eu comecei a escrever literatura em 2013, com trinta e três anos. Até então minha relação com a literatura era exclusivamente enquanto leitora. O fazer literário entrou na minha vida de forma um pouco tardia, mas extremamente intensa. Demorei para começar a escrever, mas quando comecei sabia que seria algo definitivo e transformador. E a partir daí tive uma ansiedade para me definir como escritora. Quando eu poderia me considerar escritora? Quando concluísse um livro? Quando publicasse um livro? Eu tinha um grande desejo de publicar, sempre escrevi querendo ser lida, o que é, certamente, a expectativa de todo escritor. Uma vez, conversando com meu marido sobre essa questão de me considerar ou não escritora (eu não tinha ainda nenhum livro concluído ou publicado), ele me disse: você acorda todos os dias e escreve literatura, pra mim isso é ser escritora. Esta fala dele foi um alento, acho que passei a me considerar escritora a partir daí. Talvez ser escritor seja um caso de auto declaração: é escritor quem se declara escritor.

É preciso saber olhar o mundo com os olhos da ficção? O mundo fica melhor ou pior a partir dessa observação?

Sim, é preciso saber olhar o mundo com olhos de ficção, mas talvez seja preciso também olhar a ficção com os olhos do mundo. Como disse Belchior, ao vivo é muito pior.

Todo texto ficcional, mesmo os mais extensos, acaba sendo apenas um trecho ou fragmento da história geral? Digo, a ficção lança o seu olhar para as esquinas das situações, sendo praticamente impossível se ter uma noção do todo?

Muito bonito isso, da ficção lançar um olhar para as esquinas, acho que é justamente isso. A ficção, por mais longa que seja, tira uma fatia da vida inventada. Aquilo é só um trecho, certamente há um antes e um depois. Ainda que seja uma ficção em que todos os personagens morram no final, há um mundo ficcional continuando sem eles. E certamente o escritor criou um universo que vai além do retratado e é fundamental que faça isso, que conheça o personagem para além da história, que saiba do seu passado, que conheça as miudezas de sua personalidade.

Nesse sentido, uma história nunca tem início, meio e fim?

Sim, uma história é sempre um círculo.

Você escolhe os seus temas ou é escolhido por eles?

Não escolho os temas, com certeza sou escolhida por eles. Tento nunca direcionar conscientemente meu texto, deixo que ele se conduza livremente, como se não fosse escrito por mim, como se eu fosse só o veículo de condução de uma história que já está pronta, que existe antes de mim, de eu tentar escrevê-la.

É necessário buscar formas de expressão cada vez menos sujeitas ao cânone, desafiando a língua, tornando-a mais “suja”, para se aproximar cada vez mais da verossimilhança que a história pede? Ou seja, escrever cada vez “pior”, longe da superficialidade de escrever “certinho”, como disse Cortázar, talvez na tentativa de fugir da armadilha do estilo único?

Eu gosto de linguagem, acho que eu sou uma escritora de linguagem. E acredito que cada texto pede uma linguagem justa, exata para aquilo que se está escrevendo. Uma das coisas que confere verossimilhança à história é justamente a linguagem. E muitas vezes o texto pede uma linguagem suja, que subverte a língua formal, que se aproxima do que está na conversa e não nos livros. Mas acho que não há regra. A literatura era, exclusivamente, feita com linguagem formal, ortodoxa. Hoje não mais e isso é bom. O que não significa que ela tenha que ser feita exclusivamente com linguagem informal. Não há regra. Acho que você pegou o ponto exato, a questão é fugir da armadilha de um estilo único. A diversidade de linguagem é fundamental para a boa literatura.

Quando é que um escritor atinge a maturidade?

Acho difícil que o próprio escritor identifique o momento em que atingiu o ápice da maturidade literária. É claro que conseguimos perceber evolução e amadurecimento nos nossos textos. Mas quando seria o ponto alto dessa maturidade? E depois do apogeu, haveria o declínio? Talvez seja uma percepção para depois do término da produção literária do escritor.

O leitor torna-se cúmplice do escritor em qual momento?

Naquele momento em que leitor “compra” a história, que acredita na verossimilhança, que deixe de duvidar de qualquer coisa que está escrita. O leitor ideal é aquele que já inicia a leitura com a suspensão da descrença. Mas há aqueles leitores que são tragados pela história em algum momento dela.

Apenas um livro para livrá-la do fim do mundo em uma espaçonave. O seu livro inesquecível. Qual seria?

Grande Sertão: Veredas. Guimarães Rosa é um acontecimento.

Qual a sua angústia criadora?

Sem dúvida nenhuma a minha grande angústia criadora é a morte. A certeza da morte é alguma coisa que me impacta profundamente. E me espanta ver as pessoas vivendo como se não fossem morrer nunca, que brigam e se preocupam com miudezas e gastam um tempo imenso com coisas tolas. E claro, me flagro fazendo isso com frequência, no arremedo da humanidade inteira. Mas é algo que fico atenta. Tento viver na certeza da morte e tento escrever na certeza da morte, ainda que fazer literatura seja uma tentativa infame de não morrer nunca.

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