
Por Ney Anderson
Quando o leitor pega um livro de muitas páginas, os famosos calhamaços, quase sempre o ato vem conectado com o espanto na dúvida sobre o que tanto determinado autor tem a dizer para ocupar tantas páginas. O mesmo espanto, às avessas, ocorre quando uma obra é diminuta. O leitor deve pensar: “será que esse autor conseguiu contar boa história em algo tão curto?”. E aqui entramos no livro De repente nenhum som, de Bruno Inácio, onde a desconfiança é logo desfeita quando lemos o primeiro conto, de pouco mais de quatro páginas. O livro é publicado pela editora Sabiá Livros, com ilustrações de Orlandeli e com as chancelas das escritoras Marcela Dantés, Monique Malcher e Lilia Guerra, que assinam a orelha, o prefácio e o posfácio, respectivamente.
Abrindo a coletânea “Alô, alô, freguesia”, um conto de beleza e sofrimento. Alegria e dor. Em “Lacunas”, uma conversa do personagem com a avó ausente, na cama de hospital. Já em “Cruzadas”, entramos por um interessante domínio da linguagem. Os jogos de palavras revelam coisas que não estão aparente num primeiro instante, como na brincadeira das palavras cruzadas entre os irmãos.
No conto seguinte, “A porta amarela”, conhecemos um solitário recluso que basta para si mesmo. O artista Portinari está presente no andamento desse texto.
“Olheiras”, a metamorfose estampada nos olhos da narradora com o recém-nascido do lado. As respostas curtas dela, nos sorrisos vagos. Tudo é exaustão. Aqui entendemos um certo “dever cumprido” do que ela tem em mente. O enorme desejo pelo silêncio, que o bebê não mais permite.
O autor aponta para os detalhes muito atentamente nos doze contos da obra, criando situações que podem passar despercebidas aos olhos dos demais personagens e leitores. Tudo escrito com uma incrível maturidade literária, de um observador atento à vida. “Mesmos discos, novos amigos”, por exemplo, mostra a relação desgastada, onde a música tem ponto determinante. Um conto onde o passado (as lembranças) molda a narrativa, a partir de um segredo.
“Pelas ruas” são os abismos abstratos que se apresentam, a inconformidade e a inadequação de um homem em um ambiente de trabalho, através da vontade não compreendida, buscando uma espécie de liberdade sem nome. Em “Inventário da despedida”, múltiplos personagens conversam, dominados por um narrador flutuante.
O autor preenche os vazios com coisas não ditas, de vivências íntimas. Assim como no conto “Seis minutos de análise no novo divã”. Nessa narrativa o personagem observa os detalhes da sala do divã. A fé sutil que ele carrega depois da perda de alguém. O trauma pela ausência.
Com apenas 106 páginas, Bruno Inácio oferece ao leitor curtos episódios da vida de vários personagens. Instantes importantes da existência deles. É bom ressaltar que às vezes parece que estamos lendo sobre pessoas reais, tamanha é a proximidade que as figuras criadas por Inácio chegam até nós, leitores.
Lendo este De repente nenhum som, é impossível não lembrar de Balzac, autor da série A Comédia Humana. Ele era bastante procurado por aspirantes escritores que queriam saber como fazer para criarem as suas literaturas. Balzac dizia para eles escreverem pouco, porque assim os críticos iriam ter pouca coisa para criticá-los. O próprio Balzac, no entanto, fazia o extremo oposto, escrevia muito, pois ganhava por página publicada nos jornais. Dessa forma, os críticos da época tinham bastante material para criticá-lo. Algo, aliás, que acontece até hoje. São muitas as ressalvas da obra do autor francês.
Mas, com o distanciamento do tempo, o que Balzac dizia não deixava de ser um bom conselho. Porque, ele devia refletir, o que se pode dizer com menos, se bem trabalhado, atinge um efeito superior ao escrito em várias páginas. A concisão pode tornar um texto mais poderoso do que outro maior, longo. Enredos curtos, poucos personagens, situações rápidas e cotidianas. Escrever pouco, no final das contas, é escrever muito.
Parece que Bruno Inácio leu esse conselho do francês e aplicou até a última gota. Não por acaso, o título foi retirado um verso de Cazuza, artista sem meias palavras que nos disse (e diz) tanto, presente no poema “Hoje”. Ser direto ao ponto, com verdadeira substância, é qualidade que pouquíssimos escritores dominam com maestria. De repente nenhum som é a prova disso.
