Crédito da foto: Moreno Alcides Siqueira

Autor lança neste sábado (30), no Centro de Convenções de Pernambuco, o segundo volume da trilogia sobre Lula dentro da programação do “Além das Letras”

Por Ney Anderson

O escritor e jornalista Fernando Morais, um dos maiores nomes da não ficção brasileira, lança neste sábado (30), em Olinda, o segundo volume da trilogia biográfica sobre Luiz Inácio Lula da Silva, publicado pela Companhia das Letras. O encontro acontece às 17h30, no Pernambuco Centro de Convenções, dentro da programação do “Além das Letras”, iniciativa ligada à Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. A conversa tem como tema “Um jornalista, um presidente e um livro esperado” e contará com mediação da escritora Cida Pedrosa.

Neste novo volume, Morais acompanha os anos finais da ditadura militar até a vitória de Lula nas eleições presidenciais de 2002, quando o ex-líder sindical se tornou o primeiro presidente operário da história do Brasil. O livro percorre episódios decisivos da política nacional, como as Diretas Já, a Constituinte, a disputa presidencial contra Fernando Collor em 1989 e os impactos do Plano Real durante o governo Fernando Henrique Cardoso.

Mantendo o ritmo narrativo que marcou o primeiro volume, que foi lançado em 2021, Fernando Morais mistura reportagem, reconstrução histórica, com estrutura literária (algo comum nos textos do autor) para examinar os bastidores da construção política de Lula.

Considerado um dos principais jornalistas e biógrafos do país, Morais tem 79 anos, nasceu em Minas Gerais (mora atualmente em São Paulo) e passou por algumas das maiores redações brasileiras. Foi deputado estadual, secretário de Cultura e secretário de Educação. Ao longo da carreira, recebeu três vezes o Prêmio Esso de Jornalismo, quatro vezes o Prêmio Abril de Jornalismo e também o Jabuti.

Entre suas obras mais conhecidas estão Olga, Chatô, o Rei do Brasil e O Mago, biografia do escritor Paulo Coelho. Parte de seus livros foi adaptada para o cinema.

Em entrevista exclusiva ao jornalista Ney Anderson, editor do site Angústia Criadora, Fernando Morais fala sobre os bastidores da escrita da trilogia, a transformação política de Lula, as críticas sobre proximidade com o biografado e a relação entre jornalismo e literatura.

 

Crédito da foto: Ricardo Stuckert

A prisão do Lula mudou completamente o rumo da biografia

 

Angústia Criadora – ⁠ ⁠Ao dividir a biografia de Lula em três volumes, você percebeu mudanças no próprio personagem ao longo da escrita ou descobriu diferentes “Lulas” conforme avançava na pesquisa?

Fernando Morais – Minha ideia inicial quando procurei o presidente Lula, após a primeira eleição dele, em 2002, era fazer um livrão inspirado em Arthur Schlesinger, que pretendia escrever uma biografia de Kennedy a partir do ponto de vista do biografado. O assassinato do presidente americano acabou abortando o projeto, transformado no (muito bom) livro “Mil dias”. Mas Lula pulou fora, não topou. Voltei à carga quando ele se reelegeu, em 2006 e de novo ele tirou o braço da seringa. Desisti. Só quando terminou o segundo mandato, em 2011, é que ele finalmente se dispôs a aceitar meu convite – mas aí para fazer uma biografia convencional. A inesperada decretação da prisão dele, em 2018, me obrigou a dar um cavalo-de-pau na forma como eu pretendia escrever a biografia. Acabei começando o volume 1 com minúcias da prisão em Curitiba e daí dei um salto para a outra prisão dele, a de 1980 – eu tive o privilégio jornalístico de testemunhar ambas – e fiz um retrospecto da infância, adolescência, início da carreira sindical. Esse novo rumo que dei ao livro me empurrou para o roteiro cronológico. O Lula 2, que estou lançando este fim de semana em Pernambuco, descreve os bastidores da participação dele nas Diretas Já, na Constituinte, passa pelas três derrotas presidenciais e se encerra na festança da avenida paulista, no dia 27 de outubro de 2002, quando pela primeira vez um operário se elege presidente do Brasil

Lula, com Marisa Letícia, na festa da vitória em 2002, na Avenida Paulista

Lula percebeu o conservadorismo da sociedade brasileira

Angústia Criadora – O primeiro volume enfatiza a formação humana e sindical de Lula, enquanto o segundo mostra sua transformação em articulador político nacional. Em que momento o líder operário passa a compreender que precisaria negociar com setores fora da esquerda para chegar ao poder?

Fernando Morais – Neste segundo volume que estou lançando. Ou, se formos cronologizar, depois da derrota dele para o presidente Fernando Collor. A impressão que fica, ao se acompanhar a trajetória de Lula, é que quanto mais ele fazia a inflexão da vida sindical para a liderança política, mais ele se dava conta do grau de conservadorismo da sociedade brasileira e de sua herança feudal, escravagista, iníqua. E isso levava a uma consideração transparente: se se fazia política para vencer eleições, era indispensável realizar aproximações com setores mais ao centro. Ou continuar fazendo pregações aos peixes, como o padre Antonio Vieira. Na minha solitária e modesta opinião, porém, ele nunca chegou a acreditar que seria possível realizar transformações profundas na sociedade brasileira apenas fazendo alianças com setores políticos situados no centro. Ganhar eleições e governos poderia até ser um caminho para transformações, mas não um fim. A necessidade dessas alianças se tornou clara com os resultados das eleições de que ele participou.

Entre Dom Pedro II, Getúlio e Lula, os fatos são irretocáveis: o principal nome é o de Lula

 

 

 

Dom Pedro II, Getúlio Vargas e Lula

Angústia Criadora – ⁠Você afirma que Lula já é o político mais importante da história republicana brasileira. Quais elementos históricos sustentam essa convicção para além das paixões partidárias?

Primeiro volume da biografia, lançado em 2021

Fernando Morais – Aqui em casa quem se sustenta em elementos acadêmicos para produzir seus trabalhos é minha mulher, Marina, que é pós-doutora em História, com agá maiúsculo. Eu não sou especialista em nada, mas tenho particular curiosidade pelo período brasileiro que vem da proclamação da República até os dias de hoje. E mesmo que seja uma visão a vol d’oiseaux, superficial e sem sustentação em elementos históricos, a mera comparação da obra de todos os governantes brasileiros nos obriga a fixar-nos em três nomes: Dom Pedro II, Getúlio Vargas e Lula. E, dentre esses três, se tivermos que nos ater a apenas um, os fatos são irretocáveis: o nome é o de Lula. Mas esse é um juízo que só nossos tataranetos vão poder fazer com a fidelidade que apenas o distanciamento permite.

Meus livros sempre partiram de personagens originais

Angústia Criadora – ⁠Sua narrativa costuma ter ritmo de romance, mesmo tratando de fatos históricos e políticos. Como equilibrar literatura, reportagem e biografia sem transformar o personagem necessariamente em mito?

Fernando Morais – Os traços excepcionais, polêmicos e inesperados do personagem não aparecem depois que o livro está pronto, mas antes mesmo de ele existir. Se você der uma espiada em meus dez livros verá que todos eles – personagens ou episódios – têm um traço em comum: a originalidade. Ou seja, isso que você chama de “mito”, ou de “mitificação” – e que a moçada chama de “new journalism”, ou “jornalismo literário” – já existe na hora em que escolho o tema sobre o qual vou trabalhar. Tenho planos de escrever, por exemplo, sobre a “República de Princesa”, da Paraíba. Quer história mais carregada de realismo mágico que essa? A escolha de um tema ou de um personagem, no meu ponto de vista, passa quase que obrigatoriamente por esses pré-requisitos. Se não fosse quem sou eu gostaria de ter sido um autor de livros de aventuras, um James Fennimore Cooper caboclo.

Lula nunca leu uma linha dos originais

Lula recebendo o novo volume da biografia, com a presença do autor e do editor da Companhia das Letras, Luiz Schwarcz.

Angústia Criadora -⁠ ⁠A proximidade pessoal com Lula já foi apontada por críticos como um possível fator de falta de distanciamento. Como você responde a quem considera os livros excessivamente afetivos com o biografado?

Fernando Morais – Se você considerar que não sou e nunca fui do PT (meu primeiro voto na primeira eleição presidencial, em 1989, foi dado a Ulysses Guimarães), partido com o qual não tenho qualquer compromisso, essa proximidade converte-se, na verdade, num privilégio para o leitor, já que nada substitui o olhar do autor. O que eu escrevi sobre Lula ninguém me contou, eu vi e ouvi. E há uma particularidade que talvez não seja do conhecimento dos críticos: o único pré-requisito para que vingasse o plano de escrever a biografia foi a de que ele não leria os originais. E não leu. Nada: nem uma página, um parágrafo, uma palavra, uma vírgula. Nos dois casos ele recebeu o primeiro exemplar de cada volume quando o livro já estava nas mãos de dezenas de milhares de leitores.

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