
Por Ney Anderson
Um prédio antigo localizado no Recife é o cenário do romance “O condomínio”, de Frederico Toscano, publicado pela Cepe Editora. No local, os moradores não são amistosos uns com os outros. Quase sempre as reuniões acabam em confusão e fortes desentendimentos.
Neste romance de estreia de Frederico, o terror encontra entre as velhas paredes do edifício as situações perfeitas para o clima de tensão e medo por algo que está sempre à espreita, esperando o momento certo para transformar a vida de cada morador.
O autor, aliás, teve a ideia de escrever o livro depois de ter morado por alguns anos em um prédio com as mesmas características.
Os capítulos são estruturados como breves narrativas, mostrando os moradores dos seis apartamentos, além dos porteiros, que se conectam às vivências dos habitantes do edifício. Esaa estrutura remete um pouco à composição de Claraboia, de José Saramago, com o enredo indo e vindo por cada unidade.
No condomínio existem todos os tipos de vizinhos. Uma professora de música e também profissional do sexo; um artista/designer que mora com o marido; a aposentada, o ex-policial, o fotógrafo e a esposa, também os porteiros. Claro, com frequentadores externos.
Cada capítulo, um número de apartamento, serve de apresentação dos indivíduos, com elementos sutis sobre eles, baseado nos conflitos e dilemas pessoais.
O próprio edifício é um protagonista. O prédio em si detém importância própria.
As tensões no convívio aumentam gradualmente a partir da atmosfera urbana bastante envolvente. São comportamentos suspeitos e enigmáticos, comuns a vários condomínios. O leitor já está ciente, inclusive, de que algo grave e trágico ocorreu no prédio. Todos são afetados aos poucos pelos eventos estranhos do apartamento 301.
O autor desenvolve o histórico dos personagens e insere pequenas doses de mistério ao longo dos capítulos. Nada acontece de forma apressada neste romance. O autor soube controlar o nível de tensão.
Os moradores guardam seus segredos e estranhamentos. Um exemplo é a relação doentia entre um residente (o síndico ) e seu cachorro, onde o animal começa a dominar a situação até descambar para o descontrole.Um vínculo de amor, temor e dependência com o cachorro. Isso resvala para a relação desse homem com os outros.
A tensão se intensifica. As pistas sobre o que ocorreu no apartamento 301 são reveladas entre os capítulos por meio da perspectiva de quem testemunhou o recente, e triste, evento.
As cenas de suspense e sustos são excelentes. O condomínio é o tipo de obra que captura o leitor. Não há uma visão simplista. Os acontecimentos se desenrolam e vão se revelando aos poucos, sobretudo em relação às personalidades de cada inquilino desse edifício peculiar.
Na obra, os personagens têm alguns devaneios, típicos de sonhos e pesadelos e mistérios ocultos na essência. São rodeados por algumas aparições.
Os mistérios do prédio assumem o papel fundamental na condução da trama. Cada indivíduo possui seus próprios assuntos e problemas, que se entrelaçam com as narrativas dos outros.
Em determinado ponto da obra, o terror domina plenamente a história. E aí mergulha em sua faceta mais sombria com um acontecimento realmente amedrontador. O horror autêntico e original. A intimidade dos personagens é muito bem elaborada.
O edifício é um organismo vivo. Todos são impactados pelo incidente ocorrido no 301. Nada escapa ao olhar atento dos habitantes.
Frederico Toscano cria o clímax ideal, com cenas aterrorizantes conduzindo o texto ao auge, entre a realidade e a ilusão.
Pessoas influenciadas por uma atmosfera contínua de perseguições sobrenaturais, afetando a psique de cada morador.
As assombrações são bem desenvolvidas. Justamente porque não estão lá por acaso, pois são habitadas por traumas.
O prédio é tomado pela umidade, sendo devorado progressivamente pela degradação.
A obra tem cenas densas, destinadas a estômagos fortes, mas com uma beleza literária e visual poderosa e assustadora. Impossível não ficar surpreso.
Mistérios à la Hitchcock, onde até os mínimos detalhes são relevantes. Frederico Toscano demonstra habilidade ao guiar a narrativa de forma astuta, utilizando recursos eficazes que equilibram uma técnica refinada com uma história bem estruturada e convincente.
Destaque para a parte visual, que contribui para a imersão da narrativa.
A leitura deste livro é uma excelente jornada por dentro deste edifício aterrorizante, localizado no centro de Recife. A narrativa, é bom que se diga, tem um toque pernambucano. O leitor tem ciência de que a narrativa se desenrola em um edifício recifense, mas isso é apenas um pano de fundo.
A decisão de dividir a obra em atos (seis no total) foi uma escolha acertada. Esta obra não apresenta os clichês comuns do gênero.
Não é necessário reinventar tudo para contar uma história com uma voz única, mas é fundamental ter a originalidade e a habilidade de criar dentro da liberdade que a literatura, independentemente do gênero, oferece. Tudo é viável. Isso depende da habilidade do escritor.
Neste livro “O condomínio”, Frederico Toscano demonstra que possui mais do que habilidade suficiente para aterrorizar qualquer um, seja Gilberto Freyre, Stephen King, Edgar Allan Poe, entre outros, que exploraram o sobrenatural, ou qualquer leitor que aprecia uma boa dose de susto.
O leitor termina a obra de Frederico com um sorriso nervoso, grato por ter percorrido páginas repletas de puro e magnífico terror.
